Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

Chover no molhado

Admitamos que, por um qualquer milagre do Além, a senhora Merkel acorda um dia destes bem-disposta e aceita o que o bom senso há muito sugere: o BCE cria as condições para poder emitir moeda; os títulos de dívida nacionais são substituídos por ‘eurobonds’; e, para evitar a chantagem dos mercados, o mesmo BCE decide comprar todos os títulos que estejam sob pressão. Provavelmente a calma voltaria. Sendo assim, de que estamos à espera?

Visto o problema do lado dos países endividados, é óbvio que a emissão de ‘eurobonds' cairia como sopa no mel. A análise dos mercados passaria a incidir sobre apenas uma moeda, o euro, e não sobre tantas quantos os países emissores. Mas subsistem dois problemas: primeiro, a taxa de juro média subia, o que a Alemanha sempre rejeitou; depois, alguns países tenderiam a "aliviar" as reformas estruturais, o que não é desejável para ninguém.

Havendo ‘eurobonds' terá de haver um BCE com capacidade para emitir a moeda que for necessária para calar as agências de ‘rating'. Nada que hoje em dia já não se verifique em países como os Estados Unidos, a Inglaterra ou o Canadá. Mas atenção! Isto só faz sentido no curto prazo. Ou estaríamos a arriscar um processo inflacionista idêntico ao que se vive nalguns países africanos, em que é preciso um saco de notas para comprar um pão.

Agora a má notícia. Um processo destes pressupõe solidariedade dos países ricos, que teriam de passar a financiar-se a taxas de juro mais altas. E não é crível que o fizessem sem algum sacrifício dos países beneficiários, o que envolveria contrapartidas como a união fiscal e, por reflexo, alguma perda de soberania interna. A solidariedade paga-se com responsabilidade. Veja-se o caso português: os défices e as dívidas teriam de submeter-se à "ratificação" de um qualquer centro europeu.

É aqui que tudo se complica. Como reagir a esta "intervenção" estrangeira? Deixem-me adivinhar: o PSD e o CDS achariam muito bem; o PCP e o Bloco diriam que nos vendemos aos alemães; e o PS... que diria o PS? Não sei. Mas sei uma coisa bem mais importante: se estas forem as regras e nós as rejeitarmos, resta-nos o regressar ao escudo, em nome da independência nacional. Enfim, talvez a resposta esteja na cimeira que hoje decorre e que, desta vez, poderá ser mesmo decisiva. Receio o pior.

Chove em Lisboa.

 

OS ENDIVIDADOS

Défices incontroláveis...

(Saldo orçamental, % PIB)

...Dívidas explosivas

(Dívida pública, % PIB)

   

Se exceptuarmos os primeiros anos da Irlanda, a história do desempenho dos três países intervencionados em questões do défice e da dívida pública é um desastre total. E, malgrado o esforço que todos eles estão a fazer para corrigir a situação, não se vê como é que as suas dívidas alguma vez poderão ser pagas. Ainda assim, há uma diferença abissal entre a Grécia, por um lado, e a Irlanda e Portugal, por outro.

Fonte: Eurostat.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 17:58
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds