Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Ligado à máquina

Relato sucinto de uma cimeira "decisiva": introduziu-se uma regra de ouro para travar os desvarios orçamentais; antecipou-se para Julho de 2012 a entrada em vigor do Mecanismo Europeu de Estabilidade, com o valor de €500 mil milhões; considerou-se que o perdão à Grécia foi um caso isolado; coarctou-se um envolvimento mais activo por parte do BCE; e achou-se por bem não falar sequer de ‘eurobonds'. A montanha pariu um rato. E então?

Então é assim. O défice estrutural de qualquer país não poderá exceder 0,5% do PIB, salvo se esse país tiver uma dívida inferior a 60% do PIB. Em qualquer dos casos, um défice acima dos 3% implicará sempre a aplicação de sanções. Aliás, esta regra deverá ser introduzida nos respectivos ordenamentos jurídicos, seja ao nível constitucional ou outro equivalente. E se os países recusarem? Não sei. Penso que a ideia é expulsá-los do clube.

Mas a atitude inqualificável da Alemanha, ao impedir que se discutissem as ‘eurobonds', é ainda mais grave, pois não se imagina como é que o euro sobrevive sem este instrumento dissuasor dos mercados. Ou, pelo menos, como sobrevive na sua composição actual. É que os alvos já não são apenas a Grécia, a Irlanda e Portugal; são também a Itália, a Espanha, talvez a França. Quando estes países precisarem de financiar-se, o que é que sucede?

Os participantes na cimeira foram céleres a impor medidas que ninguém pediu: mais austeridade e maior controlo orçamental. Mas não tiveram uma palavra para aquilo que todos desejavam: crescimento económico e criação de emprego. Ponham-se na pele dos países em dificuldades: como a dívida relevante se mede em percentagem do PIB, se este desce a dívida sobe, mesmo que não suba em termos absolutos. Não acham espantoso que, no meio de tantos sábios, nem um só dissesse que o rei vai nu?

Agora imaginem Portugal no final de 2012: recessão profunda, contas deficitárias e uma dívida já bem acima dos 100% do PIB. Acham que alguém nos vai financiar o défice de 2012 mais a parte da dívida que se vence em 2013? É óbvio que não. O que deixa o país ligado à máquina: o prognóstico é reservado e o desenlace pode ocorrer a qualquer momento. Nessa altura, os passivos continuarão em euros e os activos serão convertidos em escudos e depois objecto de uma profunda desvalorização.

É um cenário trágico.

 

O COLAPSO EUROPEU

 

 Da recessão...

(PIB real, variação %)

...ao endividamento

(Dívida pública, % PIB)

   

 Ao perspectivar-se o desempenho económico em 2012, conclui-se que o da Alemanha é sofrível, o da Zona Euro é mau e o de Portugal é péssimo: é o barco a afundar-se. E, no que toca a dívidas acumuladas, ninguém cumpre o limite de 60% do PIB a que todos se comprometeram. Que autoridade tem a Alemanha para impor aos outros o que ela não faz? Por que razão privilegiamos o acessório em detrimento do essencial?

Fonte: Eurostat. 
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 19:01
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