Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

O abismo

Estimativas do INE, quarto trimestre de 2011. O número de desempregados em Portugal atingiu os 771 mil, 14% da população activa, contra os 706 mil e 12,7% a que corresponde o desemprego médio anual. É a taxa mais alta de que há memória, excede o triplo da que existia há dez anos e continua a crescer. E, se circunscrevermos a análise aos jovens, a taxa dispara para os 35%, donde um em cada três não tem emprego. É um cenário arrepiante.

 

Sucede que estes números estão subavaliados. Da população activa constam 633 mil pessoas empregadas a tempo parcial. E na chamada população inactiva estão 286 mil que, embora aptos para trabalhar, não procuraram ou não conseguiram arranjar emprego.

Se juntarmos à taxa oficial de desemprego este grupo de inactivos e metade dos empregados a tempo parcial, a taxa já excede os 20% e envolve mais de um milhão de pessoas. Qual é o limite?

 

Recuperemos as políticas seguidas. Como se sabe, o chamado PIB potencial tem vindo a decrescer, devido ao colapso do investimento. E, pior do que isso, o PIB efectivo é ainda mais baixo do que o PIB potencial, o que reflecte uma subutilização da capacidade produtiva. Se a tudo isso juntarmos as recentes alterações na legislação laboral, facilitando os despedimentos, ficamos com o quadro completo: o desemprego vai aumentar ainda mais.

 

Mas o empobrecimento não acaba aqui. Sendo a legislação agora aprovada um facilitador de despedimentos, parece óbvio que muitas empresas vão aproveitar esta dádiva para substituir uns trabalhadores por outros com salários mais baixos. Os próprios subsídios, de resto, são também eles cada vez mais baixos e pagos durante menos tempo. Ou seja, este é um dos maiores ataques às classes trabalhadoras que alguma vez se desferiram em Portugal.

 

Dir-se-á que o modelo seguido é uma imposição da ‘troika' e não há nada a fazer. É só meia verdade. Todos nos lembramos das palavras do primeiro-ministro, ao afirmar que subscrevia tudo o que está a ser feito e que ele próprio faria o mesmo, obrigado ou não. Mais: de tal modo ele se sente confortado que até decidiu ir além do que a própria ‘troika' exigia. O país vai a caminho do abismo e Passos Coelho nem sequer se apercebe disso.

 

Ninguém lhe dá um abanão?

 

GRÁFICO:

A MARCHA DO DESEMPREGO

Grandes zonas...

(% p. activa)

...pequenos países

(% p. activa)

Dos três grandes blocos desenvolvidos - EUA, zona euro e Japão -, a zona euro destaca-se pela negativa: a sua taxa de desemprego sempre foi mais alta do que a de qualquer dos outros. O Japão destaca-se pela razão inversa. Já os três países intervencionados da zona euro partilham preocupações comuns: todos enfrentam uma taxa de desemprego altíssima e que tende a crescer. Mas só a Grécia do euro não tem solução.

Fonte: Eurostat.

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

publicado por ooraculo às 16:05
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