Sexta-feira, 9 de Março de 2012

A crise ao espelho

Com a procura interna a cair a pique, é hoje consensual entre os analistas que a saída para a crise passa pela procura externa, através do aumento das exportações líquidas. Mas, para exportar mais, precisamos também de produzir mais, o que significa melhorar a produtividade. E, assegurada a produção, teremos também de vendê-la, melhorando a competitividade, em qualidade e o preço, nos mercados internacionais. Como é que se faz tudo isto?

 

Situemos o problema. Para uma produtividade/hora nos EUA igual a 100, a zona euro produz 84 e Portugal apenas 48. Mas se medirmos a produtividade/pessoa, com os EUA de novo igual a 100, a zona euro baixa para 76 enquanto Portugal sobe para 53. Leitura óbvia: os europeus trabalham menos do que os americanos, mas os portugueses trabalham mais do que quaisquer dos outros. Por que é que em Portugal se trabalha tanto e se produz tão pouco?

 

Estamos a falar de produtividade e não se vislumbra uma resposta fácil. Uma hipótese possível é sermos menos competentes: um confronto entre os diferentes níveis de escolaridade aponta nesse sentido. Outra hipótese é estarmos menos bem organizados: a ausência de investimento e a fraca qualidade de certas empresas podem ser uma justificação. De uma coisa podemos estar certos: não é por falta de horas trabalhadas que Portugal não produz.

 

Daqui passamos para a competitividade. Se o nosso objectivo é exportar mais, só temos uma saída: é ser competitivos em qualidade e em preço. E, assumindo que a nossa qualidade é pelo menos igual à dos outros, os preços só podem ser reduzidos de duas maneiras: com uma melhor organização das empresas e com salários mais baixos dos trabalhadores. Lamento dizê-lo, mas prevejo um ataque impiedoso aos custos salariais unitários de produção.

 

É aqui que tudo se complica. Como se sabe, os salários nominais não podem ser reduzidos. No limite, podem ser congelados, o que significa uma queda real igual à inflação. Mas isto não chega. E mais do que isto só é possível abandonando o euro, recuperando uma moeda própria e procedendo depois à sua desvalorização. Eis o drama: se a saída do euro é uma tragédia e precisamos de melhorar a competitividade, como é que melhoramos a competitividade sem sair do euro?

 

Gráfico:

PRODUTIVIDADE

Uma tragédia...

(P/hora, EUA=100)

...sem fim à vista

(P/pessoa, EUA=100)

 

A produtividade/hora da zona euro não chega a 84% da dos EUA e, em termos relativos, tem vindo a descer. E a equivalente portuguesa não chega a 50% e tende a estabilizar. Já a produtividade/pessoa agrava o cenário da zona euro, mas melhora o português. Conclusão: os europeus trabalham menos do que os americanos e os portugueses mais do que quaisquer deles. Sendo assim, por que é que produzimos tão pouco?

Fonte: Eurostat.

Daniel Amaral Economista
d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:49
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