Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Regresso ao futuro

Partamos de 2012, admitindo um PIB de
€173 mil milhões (mM) e uma dívida pública de €190 mM, igual a 110% do PIB, e
projectemos estes números a 20 anos.

Se os orçamentos estiverem sempre
equilibrados, sem défices nem excedentes, e o PIB crescer à taxa de 2% ao ano
em volume e outro tanto em preço, em 2032 o PIB sobe para €382 mM e a dívida
mantém-se nos €190 mM, agora reduzida a 50% do PIB. Falamos de algo exequível
ou de mera utopia?

 

Comecemos com a actual estrutura. Para
um PIB igual a 100, consumimos 85 e investimos 18; os 3 a mais correspondem a
défice externo e traduzem a diferença entre importações (37) e exportações
(34). Este desequilíbrio já foi maior, situando-se ao longo de vários anos à
volta de 7-10% do PIB. Ainda assim o esforço deve ser prosseguido,
transformando estes défices em excedentes, até eliminar o endividamento
acumulado. Não vai ser fácil.

 

Projectemos agora para 2032 uma
estrutura idêntica à que tem hoje a Alemanha. Nesta caso, para um PIB igual a
100, o consumo é igual a 77 e o investimento igual a 18; os 5 em falta
correspondem ao excedente externo e traduzem a diferença entre exportações (46)
e importações (41). A alteração é profunda: vai de um cenário de endividamento
a um outro de acumulação de reservas. E o que é necessário fazer para se
atingir um resultado destes?

 

Comecemos com a procura externa. O peso
das exportações no PIB é hoje de 34% e terá de passar para 46%, o que pressupõe
uma taxa de crescimento anual média de 5,6%, 1,6 pontos acima do crescimento do
produto. Sucede que o acréscimo de exportações arrasta consigo um acréscimo de
importações, embora a uma taxa que se admite mais baixa. O seu peso no PIB terá
de passar de 37% para 41%, o que pressupõe um crescimento médio anual de 4,6%.

 

Passemos à procura interna. O peso do
investimento no PIB é de 18%, antes e depois, sugerindo uma taxa de crescimento
igual à do PIB, 4% ao ano. Já o consumo cai de 85% para 77% do PIB, fazendo
descer aquela taxa para 3,5%. Estes 3,5% deverão estar alinhados com os
acréscimos conjuntos do emprego e dos salários, o que é de uma enorme violência
para os trabalhadores. Mas não sabíamos já que era assim, com este modelo ou outro
qualquer?

 

Este futuro vai doer.

 

Gráfico:

 

ESTRUTURA DO PIB

Da procura interna...

...à procura externa


  
  
  
 
  
  
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
  
  
  
 


  
  
  
 

Portugal precisa de crescer. E de
alterar a estrutura do produto. Pontos fortes a introduzir no modelo: melhorar
a qualidade do investimento e substituir consumo por exportações. O ponto de
partida (2012) reflecte a actual situação portuguesa; o ponto de chegada (2032)
corresponde ao que é hoje a estrutura alemã. O objectivo envolve enormes
sacrifícios e não parece exequível a um prazo mais curto. Estaremos
disponíveis?


____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.p

 

publicado por ooraculo às 17:49
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