Segunda-feira, 2 de Abril de 2012

Baile de máscaras

Primeiro foi o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, apanhado por
uma câmara indiscreta à conversa com Vítor Gaspar: se precisarmos de um
qualquer ajustamento ao programa, poderemos contar com eles.

Depois foi Olli Rehn, vice-presidente da Comissão Europeia, desta vez em
sinal aberto: a Europa gosta muito de nós e jamais nos deixará cair. Então é
oficial: na hipótese improvável de um segundo resgate, Bruxelas está connosco!

 

Sucede que, à luz do discurso português, nada disto faz sentido. Portugal
subscreveu e está a cumprir o programa que a ‘troika' exigiu. O
primeiro-ministro aderiu com entusiasmo ao modelo e faz mesmo questão de o
ultrapassar pela direita. A Europa que regularmente nos visita só nos mima com
elogios. E a ida aos mercados, algures entre a Primavera e o Verão de 2013, não
passa de uma formalidade. Para quê esta ajuda que ninguém pediu?

 

Os números são claros. No final de 2012, a dívida pública andará pelos 110% do PIB. E o que precisamos de financiar é apenas o défice deste ano mais a parcela da dívida acumulada que se vence em 2013. É verdade que, por má-fé, todas as agências de ‘rating' nos classificam como lixo. Mas alguém duvida de que os investidores vão acorrer em massa e que o financiamento se fará com uma perna às costas e a uma taxa de juro de fazer inveja?

 

Ultrapassado este ponto, resta-nos o compromisso orçamental: a parte da
dívida que exceder os 60% do PIB - neste caso os restantes 50%, no valor de €85
mil milhões - terá de ser amortizada em 20 anos, através de outras tantas
prestações anuais e iguais. Nada que nos meta medo. Face à pujança da nossa
economia, não será difícil passar estes défices a excedentes e depois elevá-los
a €4,25 mil milhões por ano, mais juros, durante 20 anos.

 

Aqui têm. A disponibilidade de Bruxelas, embora gentil, é irrelevante. E o
simples facto de a anunciarem só serve para criar a ilusão de que poderemos
precisar de ajuda, o que não é verdade. Deixo aqui uma sugestão ao Governo:
prepare uma conferência de imprensa, chame a ‘troika' e as agências de ´rating´
e, recorrendo àquela máxima que assombrou o mundo, atire-lhes à cara com tudo o
que não queremos - nem mais tempo nem mais dinheiro.

Vamos arrasar!

 

EVOLUÇÃO DA DÍVIDA

Dos poderosos...

(Dívida pública, % PIB)

...aos resgatados

 (Dívida pública, % PIB)


  
  
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
  
  
  
 
  
 


  
 

Fonte: Eurostat.

Se exceptuarmos a Irlanda dos primeiros anos, ninguém cumpre os 60% do PIB
como limite ao endividamento. Mas a tendência é claramente crescente a partir
de 2008, quando a crise começou. Ainda assim, existe uma diferença abissal
entre países como a Alemanha e a França, que têm conduzido o processo, e os
três países intervencionados. A Grécia, de resto, sem o 2º resgate, chegaria
este ano aos 200% do PIB.

____

Daniel Amaral Economista

d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 18:36
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