Quinta-feira, 5 de Abril de 2012

'Troika', ano 1

Estávamos na segunda metade de 2008. Veio a recessão, entrámos em contramão e o Governo caiu. Pelo meio chegou a ‘troika’. E o Governo que se lhe seguiu entrou a matar: aumentos brutais dos impostos, encarecimento dos bens e serviços, cortes impiedosos nos salários e nas pensões. A propósito de pensões: também absorvemos o fundo dos bancários. Só as gorduras do Estado continuaram gordas. Encerradas as contas, como estão os resultados?

 

A actividade económica caiu a pique e, a confirmar-se a recessão de 3,4% prevista pelo Banco de Portugal em 2012, atingiremos no final deste ano o mesmo nível a que nos encontrávamos no início do século. É também a maior recessão dos países da União Europeia, logo a seguir à da Grécia. Podemos consultar todas as estatísticas disponíveis e afirmar sem receio: esta é a crise mais grave de que há memória desde os últimos oitenta anos.

 

Estas crises, como se sabe, arrastam o desemprego. Em 2011 estavam desempregadas 706 mil pessoas, 12,7% da população activa, e este número deverá subir para 880 mil em 2012. Admitindo uma população activa idêntica, aquela taxa vai aproximar-se dos 16%. Mas atenção! Estamos a falar de valores médios do ano. Como a tendência é para subir, no final do ano serão decerto muitos mais. Eis um cenário de que os políticos deveriam envergonhar-se.

 

Resta-nos o défice e a dívida do Estado. Em 2011 comprometemo-nos com um défice de 5,9% do PIB. Conseguimos um valor mais baixo, mas à custa do fundo de pensões da banca. Sem ele o défice teria chegado aos 7,8%. Para 2012 o compromisso é de apenas 4,5% e, sem o recurso a mais medidas extraordinárias, o mais provável é que o limite venha a ser furado. Com que consequências, não sei. Ou melhor: tenho um ‘feeling' que prefiro não revelar.

 

Poderia ser de outro modo? De início, não. O resgate foi imposto e não nos deram alternativa. Mas, à medida que se foi percebendo que o modelo era suicida, deveríamos ter tido o cuidado de propor algumas medidas que aliviassem o programa. O Governo não quis. Ele foi tão insensível, tão anti-social, que fez questão de proclamar bem alto o objectivo que o motivava: idolatrar a ‘troika' - e ir mesmo além do que a própria ‘troika' exigia.

 

O resultado está aí.

 

BARCO AO FUNDO

 

Da recessão...

(PIBreal, 2008=100)

...ao desemprego

 (Desemprego, %p.a.)

 Já se pode dizer: o primeiro ano da ‘troika' fica associado a um dos períodos mais negros de que há memória em Portugal. A riqueza produzida caiu a pique e assim deverá continuar até ao final de 2012. E o emprego, em queda constante, já está ao nível dos anos 90. No mesmo plano, também não há memória de o desemprego ter  subido tanto e tão depressa. Hoje, à nossa frente, só já estão a Grécia e a Espanha. É o caos social.

Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 



publicado por ooraculo às 18:07
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1 comentário:
De Carlos Silva a 11 de Abril de 2012 às 17:59
As imagens quase sempre não aparecem.
Será possível corrigir o problema?

Obrigado


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