Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

Os custos do crescimento

Voltemos ao tema do crescimento, partindo de um PIB igual a
100 e uma dívida pública igual a 110. Se o PIB crescer à taxa de 2% ao ano em
volume e outro tanto em preço, ao fim de 20 anos será de 220. E se à dívida juntarmos
um défice de 0,5% ao ano, todos os anos, ao fim de 20 anos será de 125. Logo, a
dívida cairá para 57% do PIB, apenas à custa do crescimento económico. É o lado
cor-de-rosa. Mas como é que se cresce? E a que preço?

 

As projecções do Banco de Portugal para 2012 são
elucidativas. O PIB vai cair 3,4%, devido a uma queda da procura interna
(-6,5%) que não é compensada pela subida da procura externa (3,1%). E a
primeira está associada às actuais políticas de austeridade: queda abrupta do
consumo e colapso do investimento. Não havendo razões para admitir que a
austeridade vai acabar, sobretudo nos anos mais próximos, só nos resta a
procura externa.

 

Depois do colapso de 2009, a procura externa tem evoluído
favoravelmente. E nos três meses terminados em Fevereiro de 2012 as exportações
cresceram à taxa de 10% ao ano, contra uma descida de 6% nas importações. Mas o
défice da balança corrente continua a não descolar dos 10% do PIB, o que esbate
o optimismo anterior. Enfim, se é verdade que a solução passa pela procura
externa, as exportações terão de subir muito mais. Por que vias?

 

Se a Europa do euro fosse solidária, a resposta seria fácil.
Os países com excedentes comerciais aumentariam a procura interna, abrindo
espaço às exportações dos países deficitários. Sucede que a Alemanha não quer,
ponto final. E os amigos vão atrás. Donde, a esta luz, os países como Portugal
não têm hipóteses: as exportações de um lado são importações do outro e todos
os objectivos nesta área se anulam entre si. O modelo não funciona.

 

Não conseguindo maximizar as exportações para a zona euro, teremos
de fazê-lo para outros mercados. E aqui entra a componente preço, que teremos
de baixar. Só vejo duas maneiras de o fazer: a primeira é sair do euro e
desvalorizar a moeda; a segunda é insistir na desvalorização interna que já
ensaiámos sem sucesso. Traduzindo, o que nos resta é baixar os salários e/ou
aumentar os impostos. Dito de outro modo: o crescimento tem custos.

 

Mas é ele que cria emprego!

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

        

 

 

 

 

 

 

publicado por ooraculo às 15:28
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