Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

O empobrecimento

Sendo mais ou menos consensual que o ataque à crise passa
pelo crescimento económico e a criação de emprego, dediquei os últimos artigos
a falar sobre o tema. E não foi difícil chegar a esta conclusão: o crescimento,
sendo indispensável, tem custos; e esses custos, que no essencial estão ligados
a salários mais baixos e a impostos mais altos, acabam por afectar o nível de
vida das populações. É altura de explicar melhor estes conceitos.

 

A diminuição dos rendimentos pode ocorrer de duas maneiras.
Uma é através do corte directo: foi o que sucedeu com a suspensão dos subsídios
de férias e de Natal. A outra é através de uma eventual saída do euro: a
posterior desvalorização da moeda, associada à ilusão monetária, reduz o poder
de compra quase sem darmos por isso. Já o aumento de impostos, em regra o IVA,
ocorre na compensação de uma hipotética desvalorização interna.

 

Mas será que não havia alternativa, já que os nossos
salários são muito mais baixos do que a média europeia? Infelizmente, não. O
peso dos nossos salários no PIB é de 50%, contra, por exemplo, 47% em Espanha,
42% em Itália, 34% na Grécia. E isso acontece devido à nossa baixíssima
produtividade. Enquanto esta produtividade não melhorar, seja de que forma for,
não vejo como poderemos competir sem baixar os custos unitários de produção.

 

Esta poderá ser a chave da vertigem de Passos Coelho quando
fala do ‘timing’ para o retorno dos subsídios desviados: 2014? 2016? Total?
Parcial? A resposta é simples: será quando e o que for possível. Como é óbvio,
o primeiro-ministro está ao corrente da realidade, mas não é capaz de o
assumir: o esbulho dos subsídios foi para sempre – com a eventual excepção de
uns trocos no ano de eleições. Neste ponto todos os governos são iguais.

 

Daqui resulta que o empobrecimento é inevitável. Depois dos
desequilíbrios, para que todos contribuímos, vamos ter de nos ajustar a uma
nova realidade que adivinho penosa: o próximo equilíbrio, quando ocorrer, vai
situar-se a um nível mais baixo. Não há alternativa. E os que não acreditam só
podem estar mal informados. Ainda assim, admito que a situação possa ser
melhorada, através de uma mais justa distribuição da riqueza produzida.

 

Voltarei a este assunto. 

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por ooraculo às 15:32
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