Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

O confronto

 


Logo que me apercebi da dimensão exacta do buraco das finanças públicas, escrevi nesta coluna que a sua correcção em apenas quatro anos seria de uma violência inaudita. E sugeri que o fizéssemos em dez, no pressuposto de um apoio maioritário no Parlamento. Desconheço que iniciativas terá tomado o Governo. Mas a posição de Bruxelas matou o assunto: o défice em 2013 terá de ser inferior a 3% do PIB, ponto final.

Manda quem pode, obedece quem deve. E o Governo lá apresentou um programa com a violência que eu pretendia evitar: queda de 6,5 pontos no défice ao longo da legislatura. Rezam as crónicas que as agências internacionais gostaram muito, os números eram bonitos, estávamos todos de parabéns. Presumo que tenham olhado para os 2,8% finais e passado adiante. E se o caminho não fosse o melhor? E se o modelo não fosse exequível? E se os juros fossem mais altos?

Olhando para o programa como um todo, verifica-se que os 6,5 pontos de redução do défice se dividem em duas partes: 2,9 pontos de mais receitas (45%) e 3,6 pontos de menos despesas (55%). E, nestas últimas, 60% dos cortes são em acções sociais, 27% em investimento e 3% em juros. Mas a opção é política e poderia ser assim ou de outra forma qualquer. Francisco Louçã foi cáustico na apreciação: este PS está cada vez mais parecido com o PSD.

Sucede que o PSD não está satisfeito. Acha pouco. Por isso quer manter as deduções à colecta e os benefícios fiscais. E por isso recusa qualquer aumento de impostos. Mas não me pareceu que ponha em causa os 2,8% de défice final. O que deixa tudo muito clarinho: as receitas a menos serão compensadas com mais cortes no investimento e nas acções sociais. Parafraseando o líder do Bloco de Esquerda: este PSD está cada vez mais parecido com o CDS.

Com este programa, o PS ficou muito pressionado à esquerda. E, com o novo posicionamento do PSD, a relação entre ambos só pode agravar-se. Preparemo-nos então para o pior. Deste confronto só vejo duas saídas, ambas más: ou o Governo resigna, provoca eleições antecipadas e seja o que Deus quiser; ou o Governo capitula, e entramos na versão surrealista que é ter um partido de esquerda a aplicar o programa da direita mais radical.

Teste ao PS: a espada ou a parede?

 

O ESTADO DA ECONOMIA*

Baixa produção...  (Variação (%))
...dívida insuportável                   (Dívida externa, % PIB)
 
 

* Os números do período 2010-13 são previsões do PEC.

 

A crise internacional e o programa interno de austeridade são um travão ao desenvolvimento económico. E o baixo crescimento, associado a uma despesa que excede em muito as nossas posses, está a provocar uma dívida que pode tornar-se insuportável. Atenção a este indicador! Se as taxas de juro dispararem, o PEC, hoje elogiado, pode nem sequer chegar ao fim...

 

Fontes: INE, PEC 2010-13.

 
d.amaral@netcabo.pt

 

 


 

Comentários

NF, Lisboa | 09/04/10 14:49
O PEC virou Orçamento do Estado.Se tiver 3 meses de validade/realidade já seria bom.


Paulo, Sesimbra | 09/04/10 15:57
Parabéns! Só sabendo onde se está se pode ir a algum lado e esta é a verdadeira situação do País, tudo o resto são tretas.


lucklucky, | 09/04/10 16:15
"...o programa interno de austeridade são um travão ao desenvolvimento económico."

Interesssante então esse investimento que se verificou no passado, já não deveria estar a dar extraordinários lucros agora? O Estado não endividou todos os cidadãos nos ultimos 10 anos a quase 10% do PIB ao ano, um valor monstruoso sem paralelo. Então como é que algo que falhou durante 10 anos vai funcionar no futuro?

A não ser que esteja a referir o aumento de impostos que os que não são da "direita radical" querem. Aí estaria de acordo que mais dinheiro das pessoas para o Estado é reforçar o mau investimento. mas se não estou enganado esses motivos "radicais" não o preocupam.

publicado por ooraculo às 17:13
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