Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Música celestial

A vitória de François Hollande nas presidenciais francesas,
ao opor-se à austeridade da dupla Merkel-Sarkozy que ameaça levar-nos à
asfixia, veio relançar a esperança de que poderemos estar num ponto de viragem.
E hoje, por essa Europa fora, já não se fala de outra coisa: é preciso crescer,
crescer, crescer. Compreendo o entusiasmo desta espécie de descamisados, mas
não resisto a pôr alguma água na fervura: afinal, como é que se cresce?

 

Um cenário possível está na gestão da balança corrente. Se,
por hipótese, os países que hoje têm excedentes decidirem aumentar a procura
interna, através dos salários, estarão em simultâneo a aumentar a procura
externa dos países deficitários, o que força o crescimento destes. Um exemplo:
o saldo positivo da Alemanha é equivalente aos saldos negativos da França, da
Espanha e da Itália. Sucede que a senhora Merkel não quer, ponto final.

 

Outro cenário possível seria recorrer aos famosos eurobonds.
As taxas de juro oscilam hoje entre um valor próximo de zero na Alemanha e mais
de 10% nos países em dificuldades. Mas se todas as dívidas estivessem
representadas por eurobonds, e garantidas pelo BCE, a taxa de juro seria igual
para todos e situar-se-ia um pouco acima da inflação. Os ganhos daqui
resultantes seriam canalizados para o crescimento. Mas quem convence a
Alemanha?

 

Há ainda a hipótese de, mantendo embora o actual plano de
austeridade, diferir no tempo a sua aplicação. Por exemplo: aquilo que hoje nos
obrigam a fazer em três anos seria feito em cinco, e as poupanças daqui
resultantes seriam aplicadas em investimento produtivo. E com isso ganharíamos
espaço para respirar um pouco. Se querem a minha opinião, a senhora Merkel,
magnânima, vai oferecer este rebuçado e as suas cedências terminarão aí.

 

Pelo meio ficam as reformas estruturais, que todos
prometeram e ainda ninguém cumpriu; o pacto orçamental, que 25 países
aprovaram, alguns já ratificaram e também admito que quase ninguém venha a cumprir;
e, por último, os famosos ganhos de competitividade, associados à redução dos
custos salariais unitários, com que nos propomos aumentar as exportações. Lamento
dizê-lo, mas tudo isto me cheira a música celestial para embalar meninos.

 

Qual é o passo seguinte?

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 08:21
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Mario Mata a 24 de Maio de 2012 às 14:14
O passo seguinte é como bem sabe, ficar tudo na mesma. Uns não vão pagar pelos erros de outros, sobretudo quando os erros são grosseiros e não erros de conjuntura. A Alemanha descarregou ao longo da década megamilhões no orçamento da UE e no dia em que tivesse que pagar juros mais altos pela brincadeira dos eurobonds , aí retirava parte da sua contribuição para a UE para pagar juros. Não me parece que isso vá suceder e que muito menos isso interesse a Hollande por muito que ele diga. Politics as usual.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds