Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

O outro desemprego

A mensagem consta do Documento de Estratégia Orçamental
2012-16, mas terá passado despercebida à generalidade dos leitores. O nosso “desemprego
estrutural” está a crescer de forma muito pronunciada, tendo passado de uma
média de 5,5% na década de 1990 para os 11,5% actuais. E o que é que isto
significa? Que há de diferente neste conceito, face ao desemprego ‘tout court’
com que nos habituámos a raciocinar? O tema carece de definições.

 

Comecemos com o “PIB potencial”, de que muito se falou a
propósito do pacto fiscal, hoje em fase de ratificação. O PIB potencial é o
nível de produto no qual os recursos disponíveis estão empregues na sua
totalidade; ou, mais precisamente, no qual a taxa de desemprego é igual à sua
taxa natural. E, associado a este, temos o “hiato do produto”, que é igual à
diferença entre o PIB efectivo e o PIB potencial, em percentagem deste último.

 

Por analogia com o “hiato do produto”, temos o “hiato do desemprego”, que é igual à diferença entre a taxa de desemprego ‘tout court’ e a taxa de desemprego natural. Pois bem, o “desemprego estrutural” não passa de uma variante deste desemprego natural: ele ocorre quando existe um desequilíbrio permanente entre a oferta e a procura de trabalho, seja por insuficiência da procura de bens e serviços, seja por inadequação do investimento.

 

Um olhar sobre os números do INE referentes ao primeiro
trimestre de 2012 revela uma taxa de desemprego de 14,9% da população activa, a
que correspondiam 819 mil desempregados. Pior do que isto só mesmo em Espanha e
na Grécia. Acresce que 416 mil eram de longa duração, 247 mil tinham mais de 45
anos e 116 mil tinham um curso superior – tudo indícios de que a maioria deste
desemprego é de facto estrutural, nos termos em que o definimos.

 

Se pedirmos a uma entidade especializada que avalie esta
situação, ela dir-nos-á que vamos a caminho do abismo. E é também essa a
opinião dos economistas independentes. Mas, de cada vez que nos visita, a
‘troika’ faz-nos os mais rasgados elogios, elevando o ego de quem governa e
apontando-nos ao mundo como um exemplo a seguir. É um facto muito estranho. E
eu só vejo duas hipóteses: ou passaram-se da cabeça ou decidiram gozar
connosco.

 

Ao diabo a escolha.

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 14:58
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