Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Os despesistas

As transacções que diariamente se fazem no mundo reflectem uma operação de soma zero: as exportações de um lado são importações do outro e inversamente. Mas as consequências nos diferentes países são antagónicas. Há os poupadinhos, que vão criando reservas para acautelar o futuro. E há os despesistas, que gastam o que têm e o que não têm na voragem do presente. Como lidar com estes últimos?

 

Tomemos um exemplo europeu. Na Alemanha, por cada 100 euros produzidos, consomem 74 e investem 19: os outros 7 são poupança, que transformam em reservas. Na Grécia, para os mesmos 100, há 88 de consumo e 23 de investimento: os 11 a mais são dívida, que não pára de crescer. Agora a Grécia ameaça falência e pede ajuda à Eurolândia, onde pontifica a Alemanha. Deve tê-la? Claro que sim. Mas o bónus nos juros está a mais. A Grécia cometeu vários erros e deveria pagar por isso.

 

 Num outro plano, o que se passa entre os Estados Unidos e a China é semelhante. Os Estados Unidos gastam mais do que produzem e endividam-se; a China poupa uma parte e acumula reservas. Como o comércio entre ambos é enorme, os EUA "exigem" a valorização do yuan, para reequilibrar a balança. A China assobia para o lado e finge que não percebeu. Pergunta de um ‘outsider': a que título hão-de ser os americanos a definir a política cambial chinesa?

 

É verdade que o modelo chinês deverá ser único no mundo. Para um PIB igual a 100, eles consomem 48, investem 44 e ainda poupam 8. Não me recordo de nenhum outro país que invista tanto e consuma tão pouco. O que não deixa de ser estranho: há taxas de crescimento espectaculares, uma acumulação de reservas nunca vista - e, depois, um nível de vida de Terceiro Mundo. Faz sentido? Claro que não. Mas os americanos não têm nada com isso.

 

Portugal integra o grupo dos despesistas. Por cada 100 euros produzidos gastamos 110, os 10 a mais são dívida e a dívida acumulada já excede aqueles 100. Gastamos de mais. Ainda não somos a Grécia, mas para lá caminhamos. E o resultado final deverá ser semelhante. Pois bem, que vemos à nossa volta? O Governo não tem soluções, os partidos fazem inquéritos, os sindicatos promovem greves - e a dívida lá continua, de mansinho, a crescer...

 

Está tudo doido.

 

 CHINA VS. AMÉRICA

 

Da poupança...

(PIB real, variação (%)

 

 ...ao despesismo

 (Saldo exterior, % PIB)

 

 

 

 * Previsões.

 

 

 

Com a crise de 2009, a América caíu a pique; a China apenas abanou um pouco e recuperou logo a seguir. No dia-a-dia, a América gasta mais do que produz e acumula dívidas; a China prefere a poupança e acumula reservas colossais. Crítica dos americanos: a China deveria valorizar a sua moeda. Pergunta dos chineses: não é a América que gasta o que não tem.

  

Fontes: OCDE, Eurostat.

____

 


Comentários

antonio simao, | 16/04/10 04:39
Qual a sua proposta para sairmos deste ciclo vicioso ? Apertarmos mais e mais o cinto no sentido de pouparmos o mais possível tendo em vista a acumulação de reservas de financeiras! Não estou a ver como isso vai ser possível tendo em conta os baixos salários, o nível de desemprego na casa dos 10%, e o governo apostando nos grandes empreendimentos públicos.Tudo parece mal neste país à beira plantado.


LOPES CARLOS, Bruxelas | 16/04/10 08:25
1. Os nossos sucessivos défices e a nossa brutal divida externa só podiam conduzir a determinados cenários. O Desemprego vai ser infelizmente o meio natural de proceder ao reajustamento da nossa Economia. Todos sabiam perfeitamente isso.
2. Pior do que as dificuldades que vão chegar é a sensação de falta de perspectivas concretas.


Marco Almeida, bruxelas | 16/04/10 08:48
Senhor Daniel Amaral, eu tenho-o como uma pessoa integra, porqur não diz deuma vez por todas aquilo qua alguns Portuguêses já sabem, que isso está na banca rota há já muito tempo.


Realista, Porto | 16/04/10 09:17
Desta vez concordo com o artigo ou, pelo menos, penso que o assunto está bem exposto e é interessante. Mas o autor "cai" para o lado dos chineses e eu ,neste caso, tendo a dar razão aos americanos sobre o problema da valoração da moeda chinesa. Em primeiro lugar ha que referir, e o autor não o faz, que o valor do dolar é livre, é fixado pelo mercado, enquanto que o yuan é fixado adimistrativamente. E depois ha que referir, e aqui o autor ja refere, que a grandeza de certas variaveis da economia chinesa é de tal ordem (por exemplo as suas monstruosas reservas) que acaba por revelar que algo está mal. Aliás eu penso que com a queda das barreiras alfandegarias, com a globalisação, é chegada a altura de se repensar o problema cambial a nivel mundial. Os europeus (e nos portugueses) têm muitas razões de queixa com o cambio do euro. Os europeus (desgraçados) têm razões de queixa em relação ao cambio do yuan mas tambem do dolar.


Ricardo, | 16/04/10 11:40
como fácilmente se ve, não é pela procura interna que a china cresce... portanto o problema fácilmente se resolve, os ocidentais têm urgentemente que defender os seus interesses, é certo que para isso temos que trabalhar um pouco mais mas o trabalho com dignidade humana e com as devidas compensações é saudável. A globalização é uma tragédia, a china tá a crescer graças ao trabalho escravo e isso não é digno, temos que lhes fazer ver que esse não é o caminho, deixem de comprar produtos cuja produção é baseada em trabalho escravo.


Roberto, Funchal | 16/04/10 11:46
"Crítica dos americanos: a China deveria desvalorizar a sua moeda."
A china deveria valorizar a moeda e não desvalorizar! ;)
Erra é Humano ...Acontece aos melhores.
Bom artigo!


duvida, | 16/04/10 12:25
não percebi: para o Ocidente, a China deve VALORIZAR (para reanimar as exportações ocidentais) ou DESVALORIZAR (para diminuir o défice comercial, se se mantiver o ratio importações/exportações em termos de quantidade) o yuan?


António Francisco, | 16/04/10 13:25
Há duas variáveis que são importantes para o crescimento económico de um país:investimento e exportação. Contudo, o factor primordial para crescimento é a poupança (exemplo da alemanha e china). Assim, os americanos deviam pedir a VALORIZAÇÃO da moeda chinesa, e não DESVALORIZAÇÃO, de modo a que as importações americanas ficassem mais baratas.


Santo, | 16/04/10 13:30
Se como o autor diz a dívida cresce 10 % todos os anos, se estamos agora com uma dívida de 100 em 2015 estaremos com uma dívida de 250, sem contar com os juros.
A única forma de evitar o descalabro é reduzir o défice orçamental para 0 a partir deste ano. Caso contrário no próximo ano estaremos como a Grécia, com um pé fora do euro.


publicado por ooraculo às 16:03
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds