Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

Contas furadas

O Governo, pela mão de Vítor Gaspar, descobriu a pólvora: o
défice orçamental em 2012, no valor de 4,5% do PIB, afinal não vai ser cumprido.
O desvio será de uns dois mil milhões de euros, imaginem só! Pertenço ao número
daqueles que, logo à partida, afirmaram que o objectivo era inexequível sem o
recurso a mais medidas extraordinárias. Daí o meu espanto pelo facto de só agora
o Governo se espantar. Como é que vamos descalçar a bota?

 

Um cenário possível é agravar as medidas de austeridade, de
que Passos Coelho tanto gosta. Vamos às receitas e aumentamos ainda mais os
impostos; pegamos nas despesas e aplicamos mais uns cortes nos salários; e, se
tudo isto não chegar, talvez se arranjem por aí mais uns fundos de pensões. Mas
atenção! O sentimento generalizado vai no sentido de que as pessoas estão à
beira de explodir e esta pode ser a gota que faz transbordar o copo.

 

Outra hipótese possível seria cortar no investimento público.
Fiz umas contas rápidas: durante a última década, o investimento nacional,
público e privado, caiu dez pontos para os 18% do PIB; e o investimento público
ficou reduzido a metade. Usar agora este investimento para salvar o défice
seria o mesmo que eliminá-lo completamente. Enfim, se o objectivo é agravar
ainda mais a recessão, podem ficar descansados: este é o caminho certo.

 

A estes modelos internos poderemos contrapor uma solução
externa: o Governo reconhece que é incapaz de cumprir as metas propostas e
solicita um diferimento do prazo, com ou sem fundos adicionais. A abertura já
admitida para a Grécia poderia servir de argumento. O problema está naquela
máxima a que o primeiro-ministro se agarrou: não queremos mais tempo nem mais
dinheiro! Com que cara iria ele depois aparecer ao lado da generala alemã?

 

Como já se percebeu, este problema não tem soluções boas; teremos
de procurar as menos más. Em minha opinião, deveríamos optar pela solução
externa, malgrado os sapos que Passos teria de engolir. Mas estou convencido de
que o Governo vai preferir a austeridade. E, se assim for, proponho que se
estenda ao sector privado aquilo que já hoje se aplica ao sector público e aos
pensionistas. A injustiça social sempre seria um pouco mais justa.

 

Como é que chegámos aqui?  

  

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 17:12
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1 comentário:
De Conversa fiada a 7 de Julho de 2012 às 16:45
PPP's - para quando a sua renegociação? já se vai dizendo que só no último trimestre do ano.

Fundações - benefícios fiscais e sorvedores de dinheiro do Estado, para quando a sua extinção?

Cortes nas despesas do Estado com carros e motoristas disponíveis 24 horas por dia para os Srs. Autarcas, e outras regalias semelhantes em todo o aparelho da função pública para quando o acabar destes desperdícios? Por acaso o seu empregador coloca-lhe carro à disposição 24 horas com motorista?

Antes e após ser eleito o Sr. Primeiro Ministro falava combater a austeridade na proporção 1/3 através da receita e 2/3 através da despesa.

Acha realmente que isto se está ou se vai verificar?

Como diário económico têm V.Exas. a obrigação de insistir nestes pontos pois parece-me que estes sim arruinam as contas públicas, quando estes estiverem a ser cumpridos poderão então pedir mais sacrifícios a quem já paga por uma crise que não criou.



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