Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

A atracção do abismo

O Governo tinha um problema: para atingir o défice orçamental de 4,5% do
PIB em 2012 necessitava de €2.000 milhões. O Tribunal Constitucional veio agora
criar-lhe um outro: em 2013 não poderá contar com os subsídios de férias e de
Natal dos funcionários públicos e dos pensionistas.

Mas já em 2011, se bem se recordam, o mesmo défice só fora cumprido graças
à absorção de €6.000 milhões do fundo de pensões da banca. A coisa começa
bem...

 

Que o objectivo de 2012 não ia sem cumprido só não via quem não queria ver.
O cenário era óbvio. Mas já não é tão óbvia a forma como o Governo vai
descalçar a bota. Incapaz de cortar na despesa, em especial nas
"gorduras" que tanto inspiraram a campanha do PSD, só lhe resta
aumentar os impostos - nas empresas ou nos particulares, no público ou no
privado, vale tudo menos tirar olhos. Como é que as pessoas vão reagir? Depois
logo se vê.

 

Transpondo o actual orçamento para 2013, é claro que continuam a faltar
€2.000 milhões. A que, por violarem o princípio da igualdade, se juntam os
€2.000 milhões agora vetados pelo Tribunal Constitucional. Mas o défice de 2013
terá de cair 1,5 pontos para os 3% do PIB, o que significa um esforço adicional
de €2.500 milhões. Alguém consegue explicar-me onde vai o Governo arranjar os
€6.500 milhões que faltam para tapar tantos buracos?

 

Mas o exercício de 2013 é também importante por outras razões. Em Setembro
vamos voltar aos mercados. E vamos fazê-lo à luz de um filme de terror: em
recessão profunda, com um desemprego caótico e a coberto de uma dívida
explosiva. Só um louco varrido acreditaria em qualquer hipótese de sucesso. O
melhor é apertar os cintos: daqui a um ano estaremos a abandonar o euro - ou
então a discutir o resgate 2, com este nome ou outro qualquer.

 

Como já se percebeu, as contas públicas são hoje ingeríveis, à luz do
modelo em que temos vindo a raciocinar. Se ainda nos resta um mínimo de bom
senso, teremos de exigir um diferimento dos prazos. E não descarto a hipótese
de termos também de reestruturar a dívida. Mas Passos Coelho e os seus mentores
continuam inamovíveis: não, não e não! Confesso a minha dificuldade em
classificar esta atitude: teimosia? Insensibilidade? Submissão?

 

Este Governo ensandeceu.

 

CONTAS PÚBLICAS

Do défice anual...

(Défice, % PIB)

À dívida acumulada

 (Dívida, % PIB)


  
  
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
  
  
  
 
  
 


  
 

Esqueçamos a Grécia, que já não é deste filme. Os países do Sul da Europa
enfrentam problemas semelhantes, embora com enquadramentos diferentes: Portugal
está sob resgate e os outros não. Mas o que é de facto importante é que tanto a
Espanha como a Itália são ‘too big to fail' e, a essa luz, vão precisar de
apoios excepcionais. A nossa missão é estar atentos: queremos exactamente os
mesmos apoios que eles tiverem.

Fonte: Eurostat.

d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 16:57
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