Do último Agosto, tradicionalmente de férias, retive dois momentos. Um projecto de construção de seis fábricas de painéis fotovoltaicos em Abrantes foi inviabilizado pelo mesmo Governo que o aprovara. E um complexo turístico no Alqueva classificado de interesse nacional teve o mesmo destino. Não vou entrar nos porquês, que de resto conheço mal. Limito-me a registar o óbvio: aos milhares de postos de trabalho implícitos ninguém ligou.
Sucede que estes não são casos isolados. No mês anterior, a anglo-australiana Rio Tinto desistiu da exploração das minas de ferro de Moncorvo, alegando falta de apoios. Em finais de 2011, a Nissan abandonou a construção da fábrica de baterias em Cacia, porque não tinha mercado. E o mesmo já sucedera com a brasileira Odebrecht, que em Abril do mesmo ano mandara às malvas o seu "empreendimento turístico inovador" no sotavento algarvio.
O que está aqui em causa é uma realidade muito mais grave: o investimento em Portugal colapsou. Há duas maneiras de analisar este fenómeno. Um é medir o peso do investimento no conjunto do PIB: era de 27% no início do século, passou a 23% em 2008 e hoje não passa de uns meros 16%. O outro é medir as sucessivas variações do investimento face ao período homólogo anterior: nos últimos três anos ele caiu ao ritmo de 9% em média por ano.
Como seria de esperar, os reflexos no emprego foram terríveis. De acordo com o INE, a taxa de desemprego no segundo trimestre era de 15%, equivalente a 827 mil desempregados, com tendência a subir. Mas o que mais choca é a sua evolução: de apenas 3,9% em 2000, esta taxa subiu para 7,6% em 2008 e deverá atingir os 16% no final do ano. Triste ‘performance' a nossa: numa Europa a 27, apenas somos ultrapassados pela Espanha e pela Grécia.
Parece então óbvio que a superação da crise passa pelo investimento, coisa que esta ‘troika' nunca entendeu. Mas há aqui um problema. O investimento privado bloqueou, à míngua de financiamento. E o investimento público, para ser alternativa, teria de passar por cima do cadáver ultraliberal do CDS e do PSD. Eis a triste realidade que nos espera: sem soluções, e sem ninguém que se preocupe, a economia portuguesa vai a caminho do abismo.
Até quando?
O BURACO NEGRO
|
Do desinvestimento... (% PIB) |
...ao caos social (% população activa) |
![]() |
![]() |
O investimento, mola real do desenvolvimento económico, caiu a pique: 9% em média por ano no triénio 2009-11, um valor só superado pelos da Grécia e da Irlanda. A consequência deste colapso só poderia ser a que foi: um aumento brutal do desemprego, cuja taxa se aproxima dos 16% da população activa - o dobro da de 2008, quatro vezes a que existia no início do século. Um buraco negro que nos levou ao caos social.
Fontes: INE, Banco de Portugal
____
Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt