Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

A saída da crise

 


Voltemos ao tema da dívida, que ameaça estoirar connosco. Com o investimento e o consumo na fossa, e um PEC de resignação, várias vozes se têm erguido a defender que a saída da crise passa pelo comércio externo. Eu pertenço a esse grupo, se bem que desespere quando olho para os obstáculos que se encontram no caminho. De qualquer modo, é uma tese a explorar. Ponhamos a pergunta óbvia: que fazer?

Se tivéssemos moeda própria, presumo que o FMI já estaria entre nós, abrindo alas à desvalorização. Através dela conseguiríamos dois efeitos de sinal contrário, ambos favoráveis às contas externas: os preços das importações subiam e comprávamos menos; os preços das exportações baixavam e vendíamos mais. Claro que, em simultâneo, a inflação também subia, os salários também baixavam e lá teríamos o nível de vida na rota do afundamento. Mas o principal objectivo seria atingido.

Sucede que não temos moeda própria, o que inviabiliza uma tal solução. Mas, se a via escolhida passava pelo encarecimento das importações e o embaratecimento das exportações, será que não poderíamos fazer o mesmo sem mexer na paridade da moeda? Não poderíamos, por exemplo, aplicar uma taxa aos produtos importados e, através dessa receita, subsidiar as exportações? Claro que a resposta é não. O ‘dumping' não é permitido.

Olhemos então para as empresas. A tentação é baixar os custos, com os salários à frente. Mas há dois obstáculos: primeiro, os salários nas exportações pesam menos do que no PIB nacional, devido às importações incorporadas; depois, a redução dos salários e este ambiente crispado levariam à paralisação do país. A alternativa está em ganhos de eficiência noutras áreas, com mais investimento e melhor organização. Que dizem a isto os exportadores portugueses?

Se as soluções internas falharem, resta-nos esperar pela procura externa, que já não depende de nós. E também aqui o quadro é sombrio: a Europa do euro, para onde exportamos uns três quartos do total, continua em crise profunda; e as economias pujantes estão em zonas onde praticamente não chegamos - a China, a Índia, a Malásia, o Brasil, o México... O que nos deixa atados de pés e mãos: afinal, exportamos o quê e para onde?

Eis o drama: não sei.

 

COMÉRCIO EXTERNO

Do crescimento... (Variação real (%) Ao peso relativo (Peso no PIB (%)
   

 

Com a crise de 2008-09, o comércio externo caíu a pique, mais ainda as exportações do que as importações. Daí que a recente recuperação se assemelhe a uma gota de água no oceano. Já o défice comercial, que atingiu o seu ponto mais alto em 2009, não dá sinais de grandes melhorias, pelo menos até 2011. Ou travamos este processo ou o processo nos trava a nós... 

 

Fonte: Banco de Portugal

 

Comentários

LOPES CARLOS, Bruxelas | 23/04/10 06:42
1. Artigo honesto dum Autor Honesto.
2. Os Caminhos do Futuro passam por mais produtividade interna, mais competitividade internacional e aposta em poucas mas claras Prioridades ( Agro-Alimentar, Fileira da Floresta, Actividades ligadas ao Mar, Saude, Energia, NTI).


Realista, Porto | 23/04/10 09:19
Os neolibs têm uma frase tipo para descrever a solução. Dizem eles mais ou menos o seguinte: temos que produzir mais artigos transaccionaveis e exportaveis. Eu penso que não é bem assim. Temos em primeiro lugar que reduzir as importações. O defice da nossa BTC resulta sobretudo das importações de energia. Com a subida dos preços do petroleo o defice comercial e o endividamento externo dispararam. É aqui que está a grande explicação para o nosso defice comercial.ENTÃO A PRIMEIRA MEDIDA DEVE SER TENTAR REDUZIR AS IMPORTAÇÕES DE PETROLEO E DE ENERGIA. ISTO IMPLICA INVESTIMENTOS NAS EÓLICAS MAS, SOBRETUDO, NAS BARRAGENS E NA REDUÇÂO DE PERDAS E CONSUMOS. OUTRA MEDIDA DEVE SER VOLTAR A OLHAR PARA A AGRICULTURA. NÓS NÃO TEMOS O SOLO QUE TEM A ESPANHA. MAS HOJE A AGRICULTURA FAZ-SE EM ESTUFAS E EM PEQUENAS ZONAS DE TERRENO. TEMOS QUE REANIMAR A PESCA. TEMOS QUE COMEÇAR A PENSAR A SERIO NO TURISMO DO INTERIOR. E depois, claro, temos que apoiar a exportação de "bens transaccionaveis e exportaveis".


Helder Matos, Lisboa | 23/04/10 10:42
É curioso que todos os artigos sobre economia, e não deste economista em particular que até aprecio a forma clara de expôr, redundam em identificar todos os problemas e até fazer a sua contabilização exacta, mas e as soluções ?

Levanta-me a dúvida de sempre: sustentabilidade económica à escala planetária. Parece-me que estamos num ponto de não retorno, ou seja, na natureza não há nada que cresca indefinidamente porque, então, será que a economia terá sempre de crescer? Se me disserem por ganhos de eficiência nos processos, concordo. Quanto a Portugal continuo com a certeza que vivemos sem ganhos de eficiência e no descontrolo total das contas públicas, que nunca perseguiram esse objectivo, apenas despesismo e favorecimento de certos cartéis. A resolução do problema reside ai: seriedade e competência das nossa instituições e políticos, algo impensável actualmente. Ou seja há países e países e sociedades diferentes, afinal nada de mais.


lucklucky, | 23/04/10 14:24
Que tal fazer o mercado funcionar em Portugal? Com o Estado a controlar mais de 50% da economia quer dizer que mais de 50% dos preços são falsos, não correspondem à realidade. Energia, Educação, Saúde tem tudo preços falsos, logo como raio esperam que os Portugueses decidam correctamente coisa alguma?


Paulo, Lisboa | 23/04/10 14:56
(...)Não poderíamos, por exemplo, aplicar uma taxa aos produtos importados e, através dessa receita, subsidiar as exportações? Claro que a resposta é não.(...) - ????
Chamo a atenção do autor do artigo, que paises como a Inglaterra ou a Alemanha aumentarm o IVA e baixaram outros impostos sobre factores de produção como forma de resolver este problema.
Por exemplo: um produto produzido na China e importado para o RU pagava 17% de VAT e agora paga 20% (Sim, os ingleses aumentaram o VAT 3% desde 1Jan2010 ....!) enquanto que deram incentivos fiscais (ie baixaram os impostos) a quem exporta. Resultado: Os produtos ao serem mais caros junto do consumidor, implica diminuição na procura, incluindo importações, enquanto as empresas estão mais competitivas porque os seus custos de produção ficam mais baixos. Para as empresas que importam componentes para exportar o efeito IVA é nulo, mas o restante impacto é benéfico.
Só o facto de Portugal não ter feito o rebalanceamento fiscal entre impostos directos e indirectos é por si só uma diminuição da nossa competitividade!
Por isso penso que o caminho seguido por estes dois paises vai continuar a ser seguido pelas economias mais exportadoras enquanto Portugal vai continuar em negação...!?


vg, | 23/04/10 17:44
E se a nossa moeda desvalorizasse ,o que exportaríamos,para além de fantasias económicas?O perfil do mercado externo mudou profundamente
PS-experimentem ir buscar IRS aos figurões que abatem restaurante, carro ,gasolina e despesas correntes e declaram o salário minimo.São para aí 30 porcento


anibal barca, | 23/04/10 19:22
O problema, acho eu, é que ao dificultarmos as importações por desvalorização da moeda, estamos simultâneamente a dificultar todas as importações necessárias às exportações - não só material que vai ser incorporado, como maquinaria nova que não produzimos.


Daniel, Lisboa | 24/04/10 00:04
Meus caros, não há país, empresa ou uma casa que vá ser sustentável, com futuro sem uma ESTRATÉGIA ou no caso empresarial: PLANO DE NEGÓCIO. Alguém sabe responder SERIAMENTE a esta questão: qual é a estratégia para 2015, 2020 ou até para o ano 2050? Seriamente não sabe e não pode responder, porque quem nos governa não sabe e não quer.
Primeiro que tudo, construir o tal PLANO e partilhar com TODA a população, para que o POVO sinta que faz parte e é parte fundamental dos resultados que se obterão. E esse Plano tem que ser sério, exequível, objectivo, claro e com metas mensuráveis e ambiciosas.
Neste Plano temos que decidir que caminho queremos PERCORRER. É o caminho de sermos reconhecidos por motivos positivos que não o "desenrasque" por exemplo. Queremos especializarmo-nos no TURISMO, numa placa giratória de logística, com as ENERGIAS RENOVÁVEIS, etc etc.
Para isto acontecer é necessário CORAGEM POLÍTICA e reunir consensos políticos, sociais, empresariais, sindicais e muitos mais intervenientes, mas é a SAÍDA que temos. Digo "a" e não "uma". Pensem porquê.
Obrigado.


publicado por ooraculo às 18:21
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