Terça-feira, 2 de Outubro de 2012

Keynes revisitado

Peguemos em 2011, último exercício completo. Para um PIB igual a 100, o consumo é de 86 e o investimento de 18; os 4 em excesso correspondem à diferença entre importações (39) e exportações (35). Admitamos ainda que a dívida pública é de valor idêntico ao do PIB. Se, a determinada altura, o Estado decidir lançar um projecto de investimento no valor de “x”, tanto o produto como a dívida sobem para 100+x e o envidamento relativo mantém-se.

 

Mas o processo não pára. Este investimento gera emprego, que dá lugar ao pagamento de salários, que por sua vez são canalizados para consumo, poupança e ainda mais investimento. O que reinicia o processo – uma vez, outra vez, mais outra… O efeito multiplicador adquire uma dinâmica que tende para o infinito. Se atribuirmos a este efeito o valor de “y”, o PIB sobe para 100+x+y e a dívida mantém-se nos 100+x: o seu peso relativo baixou.

  

Num outro plano, importa considerar a componente preço. Não tenho nada contra a política do BCE ao projectar uma inflação da ordem dos 2% ao ano, sem exceder este valor. Parece-me um número razoável. Mas, na actual situação de endividamento louco em que se encontram alguns países, creio que faria sentido deixá-la deslizar. E uma inflação da ordem dos 4-5% cairia como sopa no mel: o PIB nominal aumentava e a dívida face ao PIB regredia.

 

Claro que teríamos sempre a oposição dos credores. Em períodos de alta inflação os créditos desvalorizam. Mas o fenómeno da dívida suscita outras leituras: primeiro, uma inflação mais alta compensaria as taxas exorbitantes que os agiotas nos têm cobrado até agora; e, depois, os próprios agiotas deveriam ponderar sobre se, na sua ânsia de cobrar tudo, não se arriscam a ficar sem nada. Há países com dívidas que jamais conseguirão pagar.

 

Dito isto, só nos resta seleccionar o investimento a fazer. Quero crer que ficarão de fora as auto-estradas, que já foram longe de mais. E também não imagino mais rotundas sem nexo nem os fatídicos estádios de futebol. No fundo, a definição já ficou lá trás: precisamos de um investimento que crie emprego, que pague os devidos salários, que se transformem em mais consumo e mais investimento. Numa palavra: precisamos de um bom multiplicador.

 

Ó ‘troika’, tu não vês isto?

 

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:04
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2 comentários:
De Carlos a 3 de Outubro de 2012 às 11:12
Lúcido, simples e correcto!


De APC a 4 de Outubro de 2012 às 09:46
E onde vai buscar o estado as receitas que tem? Pode alimentar o que quiser com dívida, mas a dívida tem de ser paga e para a pagar tem que taxar os contribuintes.

Esta mentalidade keynesiana foi precisamente a razão do descalabro, foi a absurda quantidade de investimentos como auto-estradas desnecessárias e outras obras megalómanas que criou um sector de construção civil parasita do estado e destruiu riqueza dos contribuintes, anos e anos a fio. Bastiat demonstra de forma muito simples o ridículo desta situação através da "falácia da janela partida".

Foi por termos as taxas que juro baixíssimas que andamos a destruir poupanças de todos nós com a inflação e a sua receita é...mais inflação?! :)

Gostava que me provasse o nexo de causalidade entre investimento público e crescimento económico, se conseguir. E esse "efeito multiplicador" é o maior mito que conheço em economia já que o Estado se alimenta dos contribuintes para o financiar, e dinheiro criado do 0 sem existir aumento de produção é tão contraproducente como investimentos públicos desbaratados.





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