Terça-feira, 9 de Outubro de 2012

Euro ao fundo

Li a notícia no “Público” há um mês e fiquei a matutar: já existe um guia prático para se sair do euro. Criado no final de 2011 pelo empresário britânico e membro do Partido Conservador Simon Wolfson, os seus responsáveis analisaram cerca de 400 projectos e seleccionaram o do economista britânico Roger Bootle, da Capital Economics, a quem coube um prémio de 250 mil libras pelo feito. Eis um tema sedutor: como sair do euro sem doer muito?

 

Separemos as águas. A zona euro não é um todo homogéneo. Há, a Norte, países como a Alemanha, a Áustria, a Holanda e a Finlândia – o grupo dos “senhores”. E há, a Sul, países como a Espanha, a Itália, a Grécia e Portugal – o grupo da “ralé”. Parecendo óbvio que os “senhores” prefeririam não misturar-se, quem deve sair? Os do Sul, afogados em dívidas? Ou os do Norte, cansados de emprestar? Admito que sejam os do Sul, mas nunca se sabe.

 

Resolvido este imbróglio, há que seleccionar o primeiro país a sair do euro e escolher a moeda substituta: chamemos-lhe o país “X”, que regressa à moeda “y”. Numa sexta-feira à tardinha, depois do fecho dos mercados, serão suspensas as transacções electrónicas e encerradas as caixas Multibanco. E, na segunda-feira seguinte, é o próprio “X” a anunciar a todo o mundo: deixámos o euro e voltámos a “y”. As rotativas podem começar a funcionar.

Numa primeira fase, euro e “y” mantêm a mesma paridade. Mas “y” entra de imediato em desvalorização contínua. Era esse, de resto, o objectivo: a desvalorização torna as exportações mais baratas e as importações mais caras, melhorando a balança comercial. E a inflação que se segue, mais a ilusão monetária, tornam o país mais competitivo. Já a dívida externa, que se mantém em euros, vai crescer em flecha: quem a paga? O estudo não diz…

  

Acabemos com o suspense. O país “X” é a Grécia e a moeda “y” é a dracma: o estudo assume sem rodeios que a Grécia vai sair do euro até final deste ano. Mais: o seu autor admite que venha a acontecer o mesmo com Portugal. E até defende que isso seja melhor para todos, “apesar de os efeitos de curto prazo decorrentes da saída serem negativos”. O resto já se sabe: a dracma e o escudo serão objecto de uma desvalorização não inferior a uns 40%.

 

 Estamos preparados?

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

publicado por ooraculo às 15:22
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De alberto a 13 de Outubro de 2012 às 17:01
É sempre um gosto ler este economista, independente, sensato e realista.
Não se vê, de facto, como é que pelo menos Grécia e Portugal escapam a uma saída da moeda única, as condições políticas na Europa estão longe de tal permitir. Ignoro se o governo está a estudar cenários para uma saída ordenada do euro, se não está devia estar. Por ordenada quero dizer controlada ( tanto quanto possível ) e ajudada pela UE, estou hoje em crer, face à insistência em políticas de destruição da economia em que o governo insiste, que é melhor para o país no longo prazo.
O impacto da saída do euro seria catastrófico, mais em perdas patrimoniais do que no rendimento, porque se se fizer as contas e com o que aí vem o rendimento tem caído ( e irá continuar a cair ) a um ritmo não muito diferente de uma desvalorização deslizante da nova moeda.


De igni a 14 de Outubro de 2012 às 01:27
Parece-lhe que a queda de 40% no valor da nova moeda se repercutirá nos preços (contrariando de algum modo e a inflação) e também no valor de mercado dos imóveis, por exemplo?
São aspectos muito importantes com grande impacto no resultado final da mudança. Concorda?


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds