Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

OE/2013: a ruptura

Números recentes do INE apontam para que o PIB nominal caia 2,7% em 2012. O PIB nominal reflecte uma dupla variação, em volume em preço, face ao ano anterior. Como o Governo assume que o PIB real vai cair 3%, a variável preço só pode subir 0,3%. Mas o deflator do produto tem como principal componente o consumo privado, por que se mede a inflação, que anda pelos 3%. Como é que se reduz este valor a um décimo? Creio que já todos perceberam: a aposta do Governo não é realista.

 

O défice de 2012 sem medidas extraordinárias seria de 6% do PIB. Mas o mau desempenho da economia e o acréscimo da dívida elevaram-no para 7,7%. Como o Governo se comprometeu a reduzi-lo para 4,5% em 2013, houve que financiar os 3,2% restantes. E assim nasceu o plano de austeridade mais violento de que há memória em Portugal: entre mais receitas (impostos) e menos despesas (despedimentos e cortes nos salários e nas prestações sociais) o Governo propõe-se usurpar-nos €5.338 milhões. Deve ter enlouquecido.

 

Sucede que esta loucura tem custos, que o Governo não deveria ignorar. E nem sequer vou recorrer aos famosos multiplicadores do FMI, onde os “sábios” se atropelam uns aos outros. Limito-me a olhar para os cortes brutais a que vai ser submetida a procura interna, entre consumo e investimento: com aquela machadada de €5.338 milhões, é óbvio que a economia vai bater no fundo. Ou seja, quando o Governo afirma que a recessão em 2013 será de apenas 1% do PIB só pode estar a brincar connosco. Mas não tem graça nenhuma.

 

Creio que salta aos olhos de toda a gente que este modelo não é sustentável. E a ruptura poderá acontecer a qualquer momento. Num plano meramente teórico, ainda poderíamos admitir que ele vigorasse até ao final de 2013. Mas, com esta brutalidade sempre acrescida, seria objectivamente impossível transpô-lo para os anos seguintes. E não falo da vontade de A ou B; falo de impossibilidade ‘tout court’. Enfim, não sei quando é que este Governo vai cair, mas tenho para mim que não chegará ao Verão.

   

Falemos então de saídas. A mais óbvia seria o Governo convocar uma reunião com a ‘troika’ e propor-lhe uma renegociação da dívida, hoje ingerível. Mas Passos Coelho é suficientemente teimoso para não o fazer. E a bola vai direitinha para Cavaco Silva, que só tem duas soluções: ou promove um Governo de iniciativa presidencial ou convoca novas eleições legislativas. Como ambas as soluções são más, teremos de escolher a menos má. Eu penso que a solução menos má é ir directo para eleições.

 

Este Governo é para esquecer.

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:29
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