Terça-feira, 13 de Novembro de 2012

Chover no molhado

Já se sabia que a economia não era uma ciência exacta. Mas poucos imaginariam que ela fosse tão complexa. Desde o eclodir da actual crise que várias organizações, entre as quais o FMI e o seu economista-chefe, se interrogaram sobre a melhor forma de a ultrapassar. Como regra, tem-se recorrido aos planos de austeridade. E da regra nasceu a dúvida: se o défice orçamental (x) for alterado, qual é o impacto no PIB (y)? Dito de outro modo: qual é o multiplicador (k) que se aplica a “x” para atingir “y”?

 

O multiplicador fiscal é então o valor que reflecte a variação no PIB resultante da variação no défice orçamental. Por exemplo: se o multiplicador for de 1,5, por cada euro de cortes na despesa o produto cai 1,5; mas se o multiplicador for de 0,5, o mesmo corte na despesa leva a uma redução no produto de apenas 50 cêntimos. Logo, o impacto no PIB pode ser positivo ou negativo, consoante o multiplicador. E ele assume particular relevância em situações de crise grave, como a que actualmente se vive na Europa.

 

Estimativas levadas a cabo por muitos e qualificados economistas sobre a realidade de 2010 deram resultados para todos os gostos. Houve quem dissesse que a consolidação fiscal fazia aumentar o produto, um pouco na lógica da ‘troika’ que nos controla. Houve quem reagisse com indiferença, porque o multiplicador tenderia para 1. E houve uma equipa do FMI que aprofundou o tema até à exaustão e concluiu por um multiplicador de 0,5: por cada euro de corte no défice, o PIB caía 50 cêntimos. A situação não era grave.

 

Mas eis que, de repente, com o agudizar da crise, tudo se alterou. No seu último relatório trimestral, o FMI assumia sem reservas que, no actual quadro recessivo, o multiplicador fiscal se situa algures entre 0,9 a 1,7, em vez do 0,5 que calculara anteriormente. Dito de outro modo: os brutais planos de austeridade que estão em curso não melhoram, antes agravam o estado da economia. É verdade que na Europa se discorda desta leitura, a meu ver sem razão, mas disso falarei numa próxima oportunidade.

 

Falemos então de Portugal. Ninguém sabe como é que o Eurostat vai reagir à contabilização da concessão da ANA no OE-2012. E, sobre o tema, o Governo vai assobiando para o ar. Mas tudo leva a crer que, sem receitas extraordinárias, o défice se situe à volta dos 6,5% do PIB. Como o objectivo para 2013 é de 4,5%, a redução é de 2 pontos, logo, conduz a uma recessão situada entre 1,8% e 3,4% do PIB. Como é que o Governo orçamenta apenas 1%? A quem pretende ele enganar? Por que acha que todos os portugueses são estúpidos?

 

Lei de Murphy: se algo pode correr mal… 

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 16:23
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