Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

Regresso ao futuro

São 15:00h do dia 19 de Abril de 2013. A UTAO acaba de emitir o seu parecer sobre a execução orçamental do primeiro trimestre e o quadro é aterrador. O défice disparou de tal ordem que quase se aproxima do que estava previsto para o final do ano. E é quase certo que esta brutal derrapagem vai ter consequências em tudo o resto: o PIB já não cairá apenas 1%, mas talvez mais do dobro; a taxa de desemprego disparou para mais de 16%; e a CGTP, reunida de emergência, ameaça paralisar o país. O ar está irrespirável…

 

Situemo-nos no tempo. Logo que o OE-2013 foi aprovado, tendo como base o mais violento plano de austeridade que alguma vez se aplicara em Portugal, as pessoas assustaram-se e retraíram-se. O massacre desta vez era a sério. Mas, ainda assim, a verdadeira dimensão do drama só foi conhecida com o recibo de Janeiro: houve quem o olhasse a tremer, arregalasse os olhos e caísse inanimado no chão. Claro que esta poupança forçada, a juntar às anteriores, estoiraram com o pouco que ainda restava da economia.

  

Acresce que, como era previsível, algumas normas acabaram chumbadas pelo Tribunal Constitucional, merecendo particular destaque aquela que exige aos reformados e aos pensionistas o pagamento de uma “contribuição extraordinária de solidariedade” que não se aplica aos privados. Uma inconstitucionalidade evidente. Em consequência de tudo isto, houve lugar à reposição de salários e de subsídios, nem sempre acatada pelo Governo, o que levou a uma enxurrada de processos contra o Estado que entupiram os tribunais.

  

Valha a verdade que, no meio de tanta confusão, também emergiu a voz da serenidade e do bom senso. Refiro-me à querida ‘troika’, que não nos abandonou um segundo na sua nobre missão de nos guiar pelo caminho do bem. Porque não basta a austeridade; é necessário moldá-la: de um lado a receita – aumentam-se os impostos; do outro a despesa – cortam-se os salários, os subsídios e as pensões. Assim, com regras, estão a perceber? Um terço aqui, dois terços acolá… A ‘troika’, a lidar connosco, é de uma ternura comovente.

 

Mas voltemos ao parecer da UTAO sobre as contas públicas. Logo que os números foram conhecidos, dispararam para as rádios, as televisões e os jornais ‘online’, dominando os noticiários em todo o país. E começou a boataria. O Governo e os principais partidos vão ser chamados a Belém. Cavaco vai convocar o Conselho de Estado. Discutem-se modelos: governo de iniciativa presidencial? Convite ao PS para integrar o actual? Eleições antecipadas? A voz do humor: parece que não há dinheiro para emitir os boletins de voto… 

 

Chove em Lisboa.

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:07
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