Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

A crise e os salários

 

Em artigos recentes, defendi nesta coluna que a solução para a crise passa pelo crescimento económico, que depende da competitividade, que pode levar à redução dos salários. Mas a última asserção é polémica e necessita de contraditório. Vou usá-lo em nome de um economista famoso, prémio Nobel de Economia, colunista do "New York Times", lido e apreciado em todo o mundo: Paul Krugman.

 

O universo é o da economia americana, mas poderia ser outro qualquer. Krugman discorda que se utilizem os salários em nome das crises. Primeiro argumento: baixar os salários significa baixar os preços, o que faz crescer a oferta real de moeda e, portanto, a liquidez. E, com o aumento da liquidez, baixam as taxas de juro, que fazem aumentar a procura. Mas se o que se pretende é mais moeda, por que não recorrer ao banco central, que é muito mais simples?

 

Segundo argumento: ao reduzirmos os salários, e a seguir os preços, estamos a aumentar a dívida em termos reais. E aqui entra a componente psicológica: quando se apercebem disso, os devedores são tentados a gastar menos, o que faz diminuir a procura. Mas o fenómeno dos salários e dos preços baixos tenderá a repetir-se, o que levará à subida das taxas de juro, diminuindo a procura ainda mais. Em que ficamos: a baixa de salários é benéfica ou prejudicial à economia?

 

Terceiro e decisivo argumento: num mercado aberto como é o actual, em que toda a gente tem toda a informação ao mesmo tempo, a diminuição dos salários num determinado país apenas cria vantagens relativas se os seus concorrentes não adoptarem políticas semelhantes. De facto, se todos procederem aos mesmos cortes, o efeito comercial é nulo, havendo apenas uma transferência de fundos dos empregados para os empregadores. Que ganha a economia com isso?

 

Longe de mim pôr em causa o raciocínio de Krugman, de quem aliás gosto muito. Seria insensato. Mas não posso deixar de dizer que os seus argumentos me suscitam um comentário e uma pergunta. O comentário: perante um objectivo chamado crescimento económico, Krugman é exímio a explicar o que não se deve fazer, mas não explica como se faz. A pergunta: Krugman acha mesmo que, se um país decidir baixar os salários, todos os outros vão a correr fazer o mesmo?  

 

AMÉRICA VS. EUROPA

Prudente nos salários...                    

 

(Salários reais, variação (%)

 

 ...eficaz na economia                   

 

(PIB real, variação (%)

 

   

 

 

Quando houve que enfrentar a crise, os Estados Unidos foram mais prudentes do que a Zona Euro na forma como conduziram a política salarial e protegeram a competitividade. Os custos do trabalho por unidade produzida baixaram, como a situação requeria. E os números confirmam que tinham razão: a América caíu menos e está a recuperar mais depressa do que a Europa.

 

Fonte: Eurostat

Comentários

schieder da silva, munique | 30/04/10 08:44
POIS; DESCER OS SALÀRIOS MAIS ALTOS SERIA O IDEAL ;MAS COMO O SR; E OS SEUS COLEGAS NAO O QUEREM FAZER SÒ HÀ UMA FORMA DE REGULARIZAR A SITUACAO ;SUBIR OS MAIS BAIXOS


RosaPratas, | 30/04/10 09:28
Não é diminuindo os salários que se aumenta a competitividade e consequentemente se aumenta o crescimento económico.
Como é sabido, a degradação do custo unitário do trabalho decorre da perda da competitividade que se traduz na permanente degradação do valor acrescentado daquilo que produzimos e vendemos e consequentemente na degradação do produto económico.Não sabemos aplicar os nossos recursos a produtos com mais valor e isto é designado por perda de competitividade.Continuamos a fazer o mesmo mas a menor preço.


lucklucky, | 30/04/10 10:32
Este é um texto bizarro...mas existe política salarial nos EUA!? Exceptuando os funcionários dos estados e federais não há. Na Europa a maior medida de política salarial é o salário mínimo(embora não exista na Suécia por exemplo) e a influência que os salários públicos têm no mercado de trabalho. Quanto maior a dimensão do Estado maior a influência que têm no mercado dos salários.Pena que não tenha sequer chegado aí.

Krugman não é certamente apreciado em todo o mundo, ele é um dos que ajuda a causar as bancarrotas.


NapoLeao, | 30/04/10 10:56
Baixar os sala'rios de quem ? Banqueiros, futebolistas, deputados pais e filhos de deputados ? Gestores publicos que foram governantes ? Se assim for...parabens ao Nobel e aos seus seguidores ! Se for a arraia miuda...entao sao os "mercadores de Veneza" ca' da LusitAnia que nem o papa catolico perdoara' !


Sermão aos Peixes!, | 30/04/10 13:06
Num mercado aberto como é o actual, uma diminuição real dos salários teria como consequência o aumento das MIGRAÇÕES: emigração dos mais expeditos e qualificados. Assim, em contraponto a um hipotético crescimento, teríamos, por uma promoção negativa da economia, a degradação social, humana - e demográfica - da sociedade. E a isto, se soma a menor atracção e receptividade à imigração, gente que a prazo aceita trabalhar mais por menos dinheiro, enquanto as diferenças cambiais e de renda forem significativas - precisamente num mercado aberto.
Por outro lado, num cenário de endividamento externo, a diminuição real dos salários pode significar mais competitividade para as empresas (e mais emprego criado), mas sobrepesa sobre o rendimento disponível das famílias, sobretudo com encargos junto da banca. Ou seja, é sobre as famílias que recairão os custos da crise.
- Qual a solução óptima? MELHOR DISTRIBUIÇÃO DE RENDIMENTOS. Recordo que Portugal é um dos países europeus que apresenta maior desigualdades na distribuição de rendimento e taxas mais elevadas de risco de pobreza monetária. PT: S80/S20 = 7; UE-25 S80/S20=4.6.
«Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.» in "Sermão Sto Antonio aos Peixes", P.de António Vieira.


j. almeida, | 30/04/10 14:47
Os salários dos outros, bem entendido.


Manuela Oliveira, Axel/holanda | 30/04/10 15:17
O economista americano tem toda a razão. Profissões que pertencem à classe média /alta em Portugal ganham quase o mesmo ou mais (exemplo médicos, membros do parlamento, director da EDP, etc) do que os hómologos nos paises mais ricos ! Estes paises mais ricos emprestam ao governo e bancos para estes pagarem os salários da nossa classe média/ alta! Não pode ser ! Os salários das classes mais altas tem que diminuir na direcção das mais pobres e de aumentar a produtividade do país. O problema está na enorme diferença de salários : a classe mais pobre “sobrevive”e a classe média/alta faz vida de luxo à custa de empréstimos da Europa. Portugal é o país que menos poupa. A produtividade é a mais baixa da Europa. Não se exporta. E depois temos um milionário que está nos 10 mais ricos do mundo ! Para que é que isto serve ?!

 

PAULO CESAR BASTOS, Salvador-Ba-Brasil | 30/04/10 18:27
Os japoneses no pós guerra conseguiram superar a derrota militar e avançar para a vitória empresarial graças aos cinco sensos da qualidade , os internacionalmente conhecidos 5S.
Para enfrentar a atual crise mundial , especulativa e não produtiva, vale desenvolver e implantar ferramentas inovadoras como os cinco caracteres da competitividade o que chamo de 5C:
Capacitação
Cooperação
Comunicação
Compromisso
Confiança.
É uma fórmula que imagino para o Brasil mas que poderá ser bastante útil,também, para Portugal.Afinal aprendemos ,também, com nossos filhos.
Ao dispor para inovar e trabalhar.

PAULO CESAR BASTOS é engenheiro civil
paulocbastos@bol.com.br


Inocencio Silva, Chicago | 30/04/10 21:11
O problema é que os Srs. Economistas foram os principais causadores desta virtualidade, chamada "Economia de Casino".

Pois enquanto a "classe" estiver a comandar Bancos, Fundos de Investimentos, empresas de rating, etc, iremos ter sempre esta "Ciencia Oculta" a mandar palpites e a promover a "especulação".

Por paradoxal que pareça os que originam a doença, arvoram-se em terapeutas da mesma. Exploram-se sempre os mesmos, na subida e na descida.

Encerrem os "Casinos da Bolsa" ,os "oFF-SHORES" e promovam a efectiva criação de riqueza!


 

publicado por ooraculo às 18:25
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