Sexta-feira, 5 de Março de 2010

A greve

Os sindicatos da Função Pública, zangados com o congelamento dos salários, decretaram para ontem uma greve geral. Nada a opor. Portugal é um país democrático e a greve um direito legítimo que assiste a todos os trabalhadores. A minha questão é outra: no estado em que se encontra o país, esta terá sido uma greve oportuna?

Quando se questionam os sindicatos sobre a melhor forma de conduzir uma política salarial, obtém-se uma resposta deste género: o ponto de partida deve ser um salário justo e as actualizações devem reflectir a inflação e os ganhos de produtividade. Esqueçamos o "salário justo", que ninguém sabe definir, e centremo-nos apenas nas actualizações: estou totalmente de acordo. Mas como é que se mede a produtividade?

Partamos de um PIB de 100 que subiu para 105 e admitamos que os factores produtivos apenas justificam uma subida de 3. Os outros 2 são ganhos de produtividade. Do capital ou do trabalho? Não se sabe. Sabe-se que são ganhos comuns aos factores. Mas há uma forma indirecta de resolver o problema, que é medir o peso dos salários no PIB. Se o peso relativo se mantém é porque os salários incorporam os ganhos proporcionais. Sucede que, entre nós, este peso está a subir e atingiu 53% em 2009 - o mais alto da Zona euro. Conclusão: os salários subiram de mais.

Estes números referem-se ao universo do país. Mas, de acordo com um estudo recente do Banco de Portugal, que compara remunerações médias com níveis idênticos de qualificações, os trabalhadores do sector público auferem em média 17% mais do que os do sector privado. É um cenário injusto. E teria bastado ao Governo igualar os dois sectores para reduzir em dois pontos percentuais o défice previsto para 2010. A greve foi de uma enorme falta de senso.

Dito isto, gostaria de acrescentar que há dois pontos em que os trabalhadores têm razão. A distribuição dos rendimentos é injusta e os sacrifícios penalizam em regra os que menos têm. Sempre foi assim: blá-blá-blá em conversa e medidas zero. Sócrates ainda ensaiou uma correcção fiscal, mas o tema queimava e ele abandonou-o logo a seguir. Fica a pergunta: que dizer de um Governo que é lesto a congelar salários mas ignora os ganhos do mercado de capitais?

 

O ESTADO DA NAÇÃO

 

Produtividade a menos...

 ...salários a mais

Produtividade, Euro-área=100

 

Salários, peso no PIB (%)

 

 

A nossa produtividade por hora trabalhada é uma lástima: 78% da Grécia, 60% da Espanha, 55% da Zona euro. Por isso os salários são tão baixos. Mas, quando medimos estes salários em termos de produção, concluimos que eles são os mais altos da Zona euro. Eis o paradoxo que muitos não entendem e que dificulta qualquer diálogo: os salários baixíssimos são afinal altos de mais...

 

Fonte: Eurostat

publicado por ooraculo às 00:30
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