Sexta-feira, 14 de Maio de 2010

A tragédia grega

A Grécia encostou. Não é só o colapso financeiro; é também a fragilidade política e a irresponsabilidade social. Não tenhamos medo das palavras: o país está à beira de uma tragédia. Quando vozes responsáveis se ergueram a sugerir que Portugal seria a presa seguinte, nós respondemos com sobranceria. Foi pena. Um bocadinho de humildade não teria feito mal a ninguém. Afinal, como é que os dois países se comparam entre si?

Tomemos como referência o exercício de 2009. O défice orçamental português foi de 9,4% do PIB, contra 6,3% da média europeia. Na Grécia foi de 13,6% - o segundo mais alto da zona, logo a seguir à Irlanda. Quanto à dívida acumulada, ela atingiu 77% do PIB entre nós e 115% na Grécia - o valor mais alto da Europa, de parceria com a Itália. A maturidade das dívidas é análoga, mas o risco grego é claramente superior. Vantagem para Portugal.

Mas uma coisa é a dívida pública, que pode ser interna ou externa, e outra coisa é a dívida externa, que pode ser pública ou privada. No final de 2009, a dívida externa portuguesa era de 183 mil milhões de euros, 112% do PIB desse ano, contra apenas 84% do equivalente grego. E as estruturas da despesa eram então semelhantes: para um PIB igual a 100, o consumo foi de 90 e o investimento de 20, deixando implícito um endividamento de 10. Vantagem para a Grécia.

Agora a economia, de que se fala menos. Nos últimos dez anos, a economia grega cresceu ao ritmo de 3,5% ao ano; o nosso ritmo não chegou a 1%. E, para uma União Europeia igual a 100, o rendimento ‘per capita' grego subiu 10 pontos para 94, enquanto o equivalente português baixou dois pontos para 76. A isto acresce o peso dos salários no PIB, decisivo para a competitividade externa, que é de 51% em Portugal e de apenas 31% na Grécia. Vantagem nítida para os gregos.

O contraponto está na imagem pública. Políticos gregos sem escrúpulos, apoiados por consultores "amigos", esconderam os números de que não gostavam e a sua credibilidade bateu no fundo. Exactamente o inverso do que sucedeu connosco, onde a credibilidade dos números não foi questionada por ninguém. Preservemos esta vantagem, mas não descuremos os problemas: eles são tantos e tão difíceis que precisam da máxima atenção.

A tragédia grega é contagiosa.

 

GRÉCIA VS. PORTUGAL

Melhor desempenho...(PIB, variação (%)  Melhores rendimentos (R ‘per capita', EUR27=100)
   

 

Nos últimos dez anos, a economia grega cresceu ao ritmo de 3,5% ao ano; o ritmo português não chegou a 1%. Não admira que, no mesmo período, e para uma EU=100, a Grécia tenha pulado 10 pontos para 94, enquanto Portugal caía dois pontos para 76. Junte-se a tudo isto os salários e teremos o quadro completo: a Grécia tem condições para recuperar melhor do que nós.

Fonte: Eurostat.

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

Atento, | 14/05/10 01:56
Será que existe tal vantagem na imagem pública? E os números que após o período eleitoral todos surpreenderam? Engano, desconhecimento, porque só foram divulgados após o acto eleitoral? E aqueles negócios a que os mídia todos os dias se referem? Será que temos vantagem a preservar? Não será a aplicação dos fundos estruturais o melhor exemplo de como temos funcionado?


Realista, Porto | 14/05/10 08:49
Estes são dias felizes para os neoliberais. Medina Carreira, Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite devem ter aberto garrafas de champanhe. MFL, com aquela humildade e modestia que se lhe reconhecem, não se cansa de repetir que ela é que tinha razão (esquecendo-se do tal defice de 6%). Mas indo ao artigo....acabem lá com as comparações com a Grecia. Se são os organismos económicos internacionais e as "vossas" queridas agencias de rating a reconhecer que o caso português é diferente do grego, para quê insistir na comparação? E já agora....eu tambem consulto frequentemente as estatísticas do Eurostat e não vejo lá essa "coisa" do endividamento externo de que os neolibs tanto falam. Nem me consta que a UE tenha imposto algum limite a esse indicador.


trucla, | 14/05/10 09:49
É preciso ter cuidado quando incluímos na análise a dívida privada e, em particular quando o fazemos em comparação com a Grécia. Os dados da OCDE mostram que a posição das famílias portuguesas em activos financeiros é muito superior à Grega. Na realidade, o que importaria era ver a situação líquida (activos-passivos). Por exemplo, no caso português, enquanto que a dívida privada é de cerca de 96% do PIB, se considerarmos os activos financeiros essa posição é de 46% do PIB (situação passiva). E isto sem considerar os activos não-financeiros. Se considerarmos que a maior parte da dívida das famílias é em crédito hipotecário (em média coberta a mais de 100% pelos activos que garantem a dívida), então a análise só com base na posição passiva pode ser duplamente enganadora.


RosaPratas, | 14/05/10 09:56
Continua a confundir competitividade com o peso dos salários no PIB.Seria aconselhável que melhorasse a sua análise desta questão.


Luis, | 14/05/10 10:24
Muito pelo contrário caro Daniel, significa que os gregos ainda têm um longo caminho de ajustamento pela frente, para baixo claro, pois os actuais níveis de rendimento são claramente desajustados dos níveis de produtividade, minando a competividade da economia grega. Sinal disso é que no 1º T2010 o PIB homólogo de Portugal pulou 1,7% e o grego afundou 2,3%. Não sei onde está a vantagem grega...


alberto, | 14/05/10 14:05
Com vantagens aqui e desvantagens ali, a verdade é que a situação grega contém um elevadíssimo elemento de contágio, convém irmos pondo as barbas de molho...

publicado por ooraculo às 18:03
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