Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

E a bolha rebentou

 

Foi tudo muito rápido. Sócrates, com um ar cansado, apareceu-nos na televisão a defender o corte de mais um ponto no défice orçamental.

Logo a seguir, o PSD concordou, o Governo ratificou, o país adormeceu e a bomba explodiu: despesas escrutinadas à lupa, cortes nos salários e nas pensões, aumento generalizado de impostos, bloqueio à função pública, etc., etc., etc. Bruxelas assumia o controlo das operações.

O investimento já caíra sete pontos para 20% do PIB. E a parcela do sector público, que chegara a estabilizar nos 4%, já ia em metade disto. Mas havia quem exigisse mais: era preciso "parar tudo". E na onda entraram o Presidente da República, não sei quantos ex-ministros das Finanças, a generalidade dos analistas, candidatos a economistas, o CDS e o PSD. Presumo que estejam felizes. O investimento público morreu.

Agora é a vez do consumo, público e privado, que no final de 2009 representava 90% do PIB - o maior impulsionador do crescimento, a grande distância de qualquer outro. Com este novo aperto no défice, o Estado fica muito mais limitado. E, com salários mais baixos e impostos mais altos, as famílias ficam duplamente mais pobres. O resultado é um corte abrupto no consumo, que vem juntar-se à anemia existente. O sentimento é de frustração.

Resta-nos o comércio externo, onde o défice atinge 10% do PIB, que todos os anos acrescem ao endividamento. Mensagem do Governo: precisamos de aumentar as exportações. Mas a procura externa está de rastos, com a Europa envolta nos seus próprios problemas. E os ganhos de eficiência, indispensáveis à melhoria da oferta interna, dependem de investimentos que não existem. Com este quadro - exportamos o quê e para onde?

Façamos então a síntese. O crescimento económico, de que depende o emprego, é impulsionado por três motores: o investimento, o consumo e as exportações. Estão todos parados. A consequência é uma recessão, talvez com deflação a seguir. Poderia ser de outro modo? Não. Todos sabíamos que a bolha do endividamento acabaria por rebentar, só não sabíamos quando. Rebentou agora. Registemos a efeméride, para memória futura: "Hoje fazemos o que deve ser feito, mas o que deve ser feito devia ter sido evitado - Maio, 2010".

A festa acabou.

 

Medidas temporárias?

Processo recessivo...

 

(Dív. pública, % PIB)

 ...Sugere o oposto

 

(Div. externa, % PIB)

   

 

Para amortecer o impacto das medidas, o Governo disse que serão temporárias, acabando no final de 2011. Mas, até lá, e para um PIB igual a 100, a dívida pública vai subir 10 pontos para 87; e a dívida externa, porventura ainda mais grave, vai subir 13 pontos para 125. Como é que, com desequilíbrios maiores, vamos ter sacrifícios menores? Fica um milagre por esclarecer...

 

Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.

 

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

Comentários

C.Vieira, Boston, USA | 21/05/10 15:23
Como de costume, elucidativo e concreto. Bom artigo!
emoN, | 21/05/10 11:17
Problema: falta de produção nacional; falta de formação e competitividade; ordenados elevados em cargos de topo; Justiça lenta e ineficaz; Crescente falta de competitividade; abertura do mercado; grande vulnerabilidade ás novas potencias produtoras como a china; endividamento crescente; politicas viradas para a receita(impostos), e para a aposta em obras; politicas nada direccionadas para o reforço da produtividade e competitividade; crise nacional crescente; Expeculação do mercado; crise internacional; crise nacional extrema; A culpa desta situação é dos politicos e tb de todos nós;

Pedro_Pereira, Lisboa | 21/05/10 11:01
O autor tem toda a razão ! Tudo isto poderia e deveria ter sido evitado... mas não foi. Por isso mesmo, agora, aumenta-se a tributação, corta-se despesa do Estado (e consumo das familias), assistir-se-à ao crescimento explosivo de desemprego e pouco mais ....
Pouco mais ? Dêem mas é condições para trabalhar e criar riqueza e ponham de lado ideologias muito bonitas no papel mas que depois n~sao produzem resultados sustentáveis.
Por exemplo: alterem a legislação de trabalho de forma a que contratar não seja um problema mas sim uma solução. Acabem com a penalização (insensata) dos contratos a prazo.
Ponham o mercado de arrendamento a funcionar, liberalizando os novos contratos e facilitando a sua resolução (e despejo) quando em incumprimento.
E moralizem, premiando quem é honesto e trabalhador e penalizando quem nada faz ou faz mal feito.
Os próximos tempos (3 anos) vão ser difíceis, certamente, mas o mais importante é sabermos que existe solução se quisermos. Ou seja, luz ao fim do túnel. De outro modo não faz sentido nem chegamos lá, ficando unicamente pelo maldizer .
vares, | 21/05/10 11:01
"Hoje fazemos o que deve ser feito, mas o que deve ser feito devia ter sido evitado "
SIM e há muito mais a fazer:
1 - Carris - Presidente ganha 60 mil - trabalahadores a lutares por dois e três euros.
2 - CTT - Presidente leva 200 mil por mês - carteiros não ganham 1000euros.
3 - TAP só prejuizos mas o brasileiro leva 400mil euros!
4 - A obscenidade da EDP (monopolio) sempre a aumentar as tarifas.
5 - Instituto dos Seguros de Portugal - 250 mil euros mês.
6 - RTP 250 mil /mês
7 - Metro do Porto 100 mil euros mês - Presidente
8- Metro de lisboa 60 mil euros mês - Presidente.
E ainda há muito mais
Não há harmonização de ordenados?
Uns presidentes ganham mais que outros?
Depois de todos este numeros é caso para dizer eles sentem A CRISE?

josé costa, casal do marco | 21/05/10 10:50
Jacques Delors sempre defendeu a Europa dos cidadãos não a Europa dos burocratas, dos partidos cleptomaníacos e da Maçonaria que está na base DESTE projecto europeu actual que para defender os interesses económicos e financeiros a ele associados, desde sempre calcaram os interesse maior de todas as nações, especialmente a nossa. Como pequeno empresário, já em 1997 fechei uma fábrica com 35 postos de trabalho, sem dívidas, porque considerei que qualquer empresário se arrisca o seu "pescoço" e o da sua família - especialmente se a construiu sem QUALQUER cêntimo de apoio estatal - para alimentar uma corja de ch.los da nação que só sabem alimentar-se e alimentar o seu partido com o dinheiro daqueles que efectivamente sempre contribuiram, com o seu trabalho, para o enriquecimento da nação. Desde que aqui comecei a comentar, sempre escrevi que o que nos espera é o CAOS, porque os actuais "gestores" do país - e eles nada mais são do que gestores que deveriam ser contratados para fazer um trabalho de gestão das nossas finanças e corridos desse lugar se não cumprissem com o seu dever - não mostram capacidades e competências necessárias para exercer a sua função. Porém venha o CAOS porque ele é sómente o começo de uma nova ORDEM!
jorge pinho, Aveiro | 21/05/10 10:28
Toda a gente está farta de saber que o governo está a gastar mais do que as capacidades financeiras do país, há muito tempo. Todavia, a muitos interessa esse investimeto público porque está aí o seu ganho. Enquanto ganham o país endivida-se e afunda-se. Toda a gente sabe disso, mas o povo fala muito mas quer é o seu interesse. Devem ser bem castigados com impostos para aprenderem. Eu também vou pagar, mas estou cá para isso.

LOPES CARLOS, Bruxelas | 21/05/10 09:49
1. Caro Senhor Realista, o Senhor é uma Pessoa muito interessada por Economia e Finanças e contribue muito regularmente com os seus comentários sempre interessantes.
2. MAS, o Autor tem inteira razão. E podia ser até mais duro.
3. Por favor, leia a revista francesa MARIANNE n° 682 de 15 a 21 de Maio de 2010. Veja o desenho da pagina 51 ( rir !) e depois veja os gráficos da pagina 44 , onde perceberá o endividamento dos Estados e quem financia a grande parte dessas dividas( Alemanha e França). enfim, perceberá na pagina 49 qual a alternativa que se coloca à Europa. Pessoalmente, defendo mais Europa ! Mas, teremos SEMPRE rigor e crise !
anonimo , | 21/05/10 09:41
Pois não senhor , não tamos a fazer o q deve ser feito que o exemplo venha de cima; fim das mordomias, carro , casa, guarda-costas, chouffer,cartões de crédito, e etc, etc. DEMOCRACIA NORDICA É O QUE QUEREMOS.
 
Antonio Tavora, Recife-Brasil | 21/05/10 09:23
Acordem PORTUGUESES

Também o cabo HITLER ganhou democraticamente as eleiçoes e depois tivemos a guerra e o holocauto.

Um governo patriotico e de salvaçao nacional já.
 
 
Realista, Porto | 21/05/10 09:18
Com o devido respeito, tenho a impressão de que desta vez o autor "passou-se". Diz ele no final do artigo , em geito de tirada para a posteridade, que agora estamos a fazer o que deve ser feito mas que o podíamos ter evitado. Vamos lá a ver. Será que o autor ainda acredita em factos? Até 2008 a Espanha até tinha superavit e tinha (e ainda tem) uma dívida pública inferior aos 60% do PIB. Será que a Espanha (que está à rasca, como nós) tambem o poderia ter evitado? A Irlanda, que os neolibs apontavam como modelo, com a sua cagda fiscal muito baixa, tambem está à rasca. Será que tambem o poderia ter evitado? A Italia, etc, etc. SERÁ QUE OS NEOLIBS AINDA NÃO SE DERAM CONTA DE QUE ESTAMOS NO MEIO DE UMA CRISE MUNDIAL OU, NO MÍNIMO, EUROPEIA? AS BOLSAS ASIÁTICAS ESTÃO TREMIDAS, AS AMERICANAS TAMBEM. TUDO POR CULPA DE PORTUGAL?
LOPES CARLOS, Bruxelas | 21/05/10 07:00
1. Gerações sucessivas de formigas e cigarras estão a dar lugar à primeira geração de gafanhotos ( saltando permanentemente de formação em estagio , de estagio em emprego precario sempre a recibo verde com periodos de desemprego pelo meio).
2. O proximo Orçamento da Alemanha para 2011 vai traduzir-se em economias inteligentes ( ao menos não cortam na Educação) , porque as previsões do défice até 2013 são negativas.
3. A nossa brutal divida externa bruta ( 226 °/° do PIB), a necessidade de meter no perimetro orçamental certas despesas militares, as tais SCUTs que eram gratuitas, os custos reais das PPPs, o envelhecimento da População, o aumento do desemprego de longa duração, etc, vão criar uma situação muito complexa. É preciso dizer a verdade ao País e depois exigir os esforços suplementares adequados. A festa acabou mesmo. Quando perceberemos mesmo isto ???

Capitalista, | 21/05/10 01:39
1989, o fim das ideologias,
Viva o liberalismo.
Premio Nobel para Helmut Khrol.
Partidos socialistas e social democratas defendem, na Nova Ordem Mundial, coisas que os democratas cristãos italianos, alemães, ingleses e outros não aceitavem.
Jacques Delors ( alguém se lembra deste grande homem?) é "saneado" por defender a Europa dos cidadãos e não do capital.´~
Viva o liberalismo er os mercados selvagens, vamos todos ganhar muito.
Só se esqueceram de uma coisa (Friedman - a teoria monetária tem o seu lugar na economia) - Se o dinheiro financia o investimento e o consumo, o que financia os juros?
Pois é, ou há boa distribuição de rendimento e impostos justos, ou BUUUMMM
(já o dizia Keynes, e mais recentemente Krugman)
 

João, Porto | 21/05/10 01:30
SÓCRATES: DEMISSÃO IMEDIATA! CAVACO SILVA: ÉS UM CÚMPLICE OBJECTIVO DESTA BANDALHEIRA SOCRÁTICA, DOS TGV?s ESPANHOLITOS, DAS ENERGIAS DAS ONDAS, DOS CARRINHOS ELÉCTRICOS, DOS "MAGALHÃES" A 920 MILHÕES DE EUROS... SÓCRATES: DEMISSÃO IMEDIATA!

lucklucky, | 21/05/10 00:59
Os Portugueses têm o que merecem, não sabem nem querem saber fazer contas de somar e subtrair, não sabem pensar, seduzidos pelas palavras bonitas dos socialistas de esquerda e direita que lhes prometeram e prometem a riqueza ao virar da esquina se o Estado tiver todo o poder.

Pinto das Costas e dos Algarves, Mértola | 21/05/10 00:43
Parabéns pela análise.

Ligue por favor a dar a triste notícia aos nossos governantes dos últimos 30 anos, mas a todos, pois cada um deles devia contribuir com a totalidade das reformas que acumularam, com a totalidade dos salários que receberam e com a totalidade das luvas que receberam.

Relativamente aos cérebros desta bolha, diga-se em abono da verdade que, são os bancos, protegidos pelo estado, ao criarem artificios e formas de impingirem dinheiro ao povo. Desde os empréstimos a 50 anos, às hipotecas a 3 gerações !!! (Já acontece na Inglaterra).

Posto isto vou mas é tirar a carta de caçador e comprar uma quintinha alí para os lados da barragem, pois com a crise a caminho tenho que ir cavar e matar uns bichos para comer e já agora defender o que é meu.
publicado por ooraculo às 18:41
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