Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

Contra a corrente

 

Pontos para reflexão. No último ano, o PIB baixou 2,7%, tendo como origem quase exclusiva o colapso do investimento, que caiu a pique (13,4%).

As últimas medidas adoptadas vão levar a uma contracção económica, talvez mesmo a uma recessão. O endividamento, quer público quer privado, vai continuar a subir. E o desemprego, hoje na casa dos 10,6%, só pode aumentar ainda mais. É um quadro explosivo. Como sair disto?

É consensual que o crescimento económico está associado ao investimento, de que depende o emprego. Mas o investimento privado está anémico. Não só tem vindo sistematicamente a descer, como nos últimos anos quase chegou à asfixia. Esqueçamos as razões: não funciona e isso nos basta. Pois bem, o que diz a teoria económica é que, em casos destes, devemos recorrer ao investimento público, que desse modo assume um carácter supletivo face ao anterior.

Claro que não pode ser um investimento qualquer. Tem de respeitar certos critérios associados a indicadores pré-definidos: o montante envolvido, a parcela nacional, a rentabilidade esperada, o emprego previsto, o que é e não é transaccionável, etc. Toda a gente sabe isso. Aliás, junto-lhe ainda outro critério de que se fala menos: ele deve ser comparado com outros investimentos alternativos.

Acresce que nem tudo é financiável, porque os recursos são escassos. E a dívida externa funciona aqui como travão. Mas esta dívida foi criada pelo Estado e pelos particulares, em partes sensivelmente iguais, e a responsabilidade deve ser igualmente repartida. Se eu e um organismo público importarmos dois carros idênticos, ambos financiados pelo exportador, estamos a criar duas dívidas também idênticas: a que título a minha é boa e a outra má?

Com isto chego ao TGV, versão Poceirão-Caia. Passo por cima do blá-blá-blá, que já não suporto, e cinjo-me apenas ao estudo feito pelo ISCTE, a pedido da RAVE: o investimento é de €1,4 mil milhões, a incorporação nacional é de 85% e a TIR de 5,9%; serão criados 100 mil empregos na fase de construção; e o financiamento está assegurado, tendo à cabeça 47% de fundos comunitários. É pouco? Talvez seja. Mas onde estão as alternativas melhores?

"É preferível abrir e tapar buracos a deixar recursos por utilizar" (Keynes).

 

A MARCHA DO INVESTIMENTO

Tendência crescente...

(Inv. total, % PIB)

 ...para a degradação

(Inv. público, % PIB)

   

Em apenas 10 anos, o investimento caíu 10 pontos para 19% do PIB: uma vergonha para os empresários. E, nos últimos 25 anos, a parcela pública caíu de 5-6% do PIB para menos de metade: uma tragédia para o país. Estiveram envolvidos Cavaco, Guterres, Durão, Santana, Sócrates. Sócrates foi, de longe, o que menos investiu. Como é que se passa a ideia de que ele é um "obcecado" pelas obras públicas?

Fonte: Eurostat.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 
       Luís, | 28/05/10 17:23
"...Mas o investimento privado está anémico. Não só tem vindo sistematicamente a descer, como nos últimos anos quase chegou à asfixia. Esqueçamos as razões: não funciona e isso nos basta."
Eu até estou muito interessado nas razões, porque só assim podemos voltar a ter investimento empresarial neste país. Existem alguns textos económicos não-marxistas (ainda assim interessantes), que ajudam a explicar como aumentar o investimento privado na economia. Os números apresentados não são minimamente credíveis e a própria RAVE já admite que é um projecto para perder dinheiro. É um projecto político sem qualquer fundamentação económica.

trucla, | 28/05/10 16:44
Esses números são da apresentação da ATKEarney e da UCP aquando da apresentação do projecto original (governo Durão), que está todo errado. Previa procura de 12 milhões de passageiros (!!!!) no Lisbao-Porto, números esses já significativamente diminuídos pela própria RAVE. O Estudo da UCP utilizou uma metodologia duvidosa (matrizes I-O) com base nos números estupidificantes da AT Kearney - consultores aldrabões. A incorporação nacional é 85%, porque 85% é balastro (pedra) e cimento. Cálculos efectuados por outros aldrabões da In-Out Global. A TIR é a designada TIR económica, que entra em conta com externalidades positivas, ou seja, ganhos não-financeiros. Do ponto de vista financeiro a TIR é altamente negativa. As rentabilidades da ATKearney não entravam em linha de conta com os custos de manutenção da infraestrutura (vinha em letrinhas pequeninas no fundo dos powerpoints psicadélicos. Se quiserem ter uma noção, custa mais ou menos 55-60.000 euros por ano por kilómetro a manutenção corrente (sem contar com depreciação e custos de reposição). Logo, este artigo parte de premissas erradas, aldrabadas e, logo, as suas conclusões são absolutamente erróneas. A culpa, claro está, só é do autor na medida da sua credulidade quanto aos "números" em circulação...
Fino, Lisboa | 28/05/10 16:07
Acho estranho que o principal problema e a causa da crise Ocidental nunca seja referida pelos politicos e por muito poucos economistas:
A CONCORRÊNCIA DESLEAL CHINESA!
Os interesses instalados são de tal ordem e tão importantes para as multinacionais, que agora estão a explorar a mão-de-obra quase escrava da China, que EXISTE UM SILÊNCIO extremo em relação a esse assunto. Até quando aguentamos? até andarmos todos a trabalhar por uma tigela de arroz ?

Ahah, | 28/05/10 15:10
1,4 mil milhões de custo? Boa conta!

Agora acrescente para aí uns bons 55% de derrapagem (que acontece SEMPRE nas obras públicas) financeira para essa "Obra" e aí talvez a conta esteja bem feita e certa!
Paulo Silva, Lisboa | 28/05/10 11:58
Caro Realista, já ouviste falar da produtividade marginal decrescente dos factores produtivos? Obviamente quando não tens auto-estradas, o impacto da primeira auto-estrada na economia é elevadíssimo. A segunda já terá menor impacto e a terceira será para esbanjar recursos. Ademais, no tempo do Guterres tiveste uma diminuição forte das taxas de juro, o que permitiu à economia endividar-se, ou seja, os agentes económicos pediam ao exterior para consumir e investir. Parte desses empréstimos iam para pagar as importações, outra parte fica na produção nacional, o que impulsiona a economia (Produto Interno). Agora está na hora de pagar a factura. Fala-se muito no PIB mas gostaria de saber como está o PNB, isto é, o que de facto fica na nossa economia depois de pagar os rendimentos (juros e dividendos) ao exterior.
Paulo SIlva, Lisboa | 28/05/10 11:50
Uma TIR de 5,9%? Já seria bom se este projecto tivesse resultados operacionais positivos, isto é, que a exploração não fosse deficitária que é o que sucede com as empresas de transporte públicas que temos em Portugal.

Gabriel Órfão Gonçalves, Lx | 28/05/10 10:21
Dr. Daniel Amaral, queira ter a amabilidade de nos explicar por que razão chama TGV a uma linha férrea... (Mais sobre isto em "bravosdopelotao blogspot")

Realista, Porto | 28/05/10 09:29
Eu não acredito! Eu não posso acreditar! Are you kiding me? Eu só tenho dúvidas num ponto. 100.000 empregos são demasiados empregos. Não ha aí um zero a mais? Mas este artigo da-me a oportunidade (se a sensura me deixar passar) de contestar as "teorias" de Medina Carreira. Os seus famosos gráficos com a evolução do PIB nos últimos 30 anos mostram dois períodos em que crescemos mais que a média europeia. no tempo de Cavaco e no tempo de Guterres. E qual é a explicação de MC? No período de Cavaco foram os subsidios da UE. Em parte é verdade. Recordo que na altura se dizia que 1% de crescimento vinha da UE. Mas ainda falta explicar o resto. No período de Guterres MC dá como explicação os baixos preços do petroleo. Mas então os preços não eram baixos para todos? Esta não pega. AGORA HA AQUI UMA COINCIDENCIA. SE CALHAR É SÓ UMA COINCIDENCIA. OS TEMPOS DE CAVACO E DE GUTERRES FORAM TEMPOS DE APOSTA NA EXPANSÃO E NAS OBRAS PÚBLICA. NAS ESTRADAS PRIMEIRO E DEPOIS NA PONTE VASCO DA GAMA, NA EXPO, NO EURO, ETC. SERÁ SÓ COINCIDENCIA?

LOPES CARLOS, Bruxelas | 28/05/10 07:16
O Senhor Jacques ATTALI no seu ultimo livro" TOUS RUINÉS DANS DIX ANS ?", ed. Fayard , 261 pag , França , Maio de 2010, apresenta uma verdadeira estratégia para a França, a Europa e o Mundo.
Claro que Portugal não tem a capacidade instalada nem os recursos humanos, técnicos e financeiros da França, mas algumas propostas de Attali podiam ser adaptadas ao dificil caso português, que TODOS conheciam desde 2006.
O problema é a evolução da divida externa bruta que é uma das maiores do Mundo ( face ao PIB) . Todos os cenários estão a partir de agora em aberto.

Paulo Assunção, Lisboa | 28/05/10 02:51
Sócrates é um incompetente. Não queremos o TGV espanholito. É um investimento fraudulento assinado ao Sábado, já depois de termos entrado em pre-falência graças ao brilhante governo que temos. 100 000 empregos? Por favor, não brinque... Com esse dinheiro, podem ser relançadas milhares de PME's. Podem ser restaurados dezenas de milhares de prédios podres em Portugal inteiro. PORTUGAL ESTÁ ARRUINADO, SR. DANIEL AMARAL.

lucklucky, | 28/05/10 02:35
"Se eu e um organismo público importarmos dois carros idênticos, ambos financiados pelo exportador, estamos a criar duas dívidas também idênticas: a que título a minha é boa e a outra má?"

A minha dívida é responsabilidade minha, a do Eestado é de todos feita por um político em nosso nome, se não percebe a diferença é altura de voltar para escola.

"É preferível abrir e tapar buracos a deixar recursos por utilizar"

Então porque não parte umas janelas de sua casa e espatifa o seu carro?

Este texto é uma loucura pegada.

vg, | 28/05/10 00:39
Os números apresentados para o TGV são, no mínimo, estranhos.Incorporação nacional de 85%?.Empregos 100.000, são os desempregados"ociosos"?E o comboio pára no Poceirão? E quantos são os passageiros ,esse número misterioso?Com essa nova indústria do investimento.,o melhor será fazer o Lisboa -Porto e mais dois ou três TGVs...
publicado por ooraculo às 17:47
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