Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Os próximos anos

 

Sentei-me ao computador, abri o Excel e coloquei-me esta pergunta: findo este plano de austeridade, como vai reagir a dívida pública? Fui gentil: adoptei como enquadramento macroeconómico o cenário inicial do Governo, embora hoje ele me pareça optimista, e apenas reajustei o défice à sua nova tendência. Eis a resposta: a dívida sobe nove pontos para 86% do PIB. É um número assustador.

Quando os líderes do PS e do PSD se encontraram para analisar o plano, devem ter definido tudo menos o seu prazo de validade. Foi pena: agora o PSD defende que o compromisso é "por 18 meses" e o PS argumenta que é "pelo tempo que for necessário". A nenhum deles terá ocorrido que esse prazo simplesmente não existe. Passos Coelho está feito: vai ter de engolir os 18 meses e ainda várias medidas adicionais. Vou já explicar porquê.

Peguemos nos orçamentos. Se a dívida pública está hoje nos 77% do PIB e ainda sobe até aos 86%, isso quer dizer que a sua estrutura vai agravar-se. E o desagravamento significa impor mais restrições. O meu palpite é que, um dia destes, a senhora Merkel vai apresentar-nos uma proposta que nós não podemos recusar: além de um défice inferior a 3%, precisamos de uma dívida inferior a 60%. Traduzindo para leigos: vamos ter de passar os défices a excedentes orçamentais. Aguenta Passos!

O racional destes critérios merece uma explicação. Imaginemos um país onde o PIB é de 100, a dívida de 60 e o défice de 3: se, no período seguinte, o défice continuar em 3, a dívida passa para 63; e, para manter o peso relativo (60%), o PIB tem de passar para 105. Era este o raciocínio subjacente ao euro: o PIB nominal (volume e deflator) deveria crescer ao ritmo de 5% ao ano, o que por si só absorveria os défices. Hoje sabemos que não foi assim e estamos a pagar por isso. Bom dia, Maastricht!

Resta-nos o enquadramento político. Sócrates é hoje um líder fragilizado, à espera de remoção. E todos conhecemos o sucessor. Mas não é crível que Passos seja melhor. E muito menos que venha a dispor de condições que Sócrates não conseguiu. O risco de afundamento é enorme. Pois bem, se o que ambos querem é salvar o país, não seria preferível juntar as duas vontades e oferecer ao país uma solução conjunta?

Vá lá, só dói um bocadinho...

 

AS CONTAS PÚBLICAS

Regresso às origens...

(Défice, % PIB)

 ...afogado em dívidas

(Dívida, % PIB)

   

 

Admitindo que vamos cumprir o plano agora traçado, no final de 2013 teremos um défice igual ao de 2000 e que satisfaz o que foi definido em Maastricht. É óptimo. Mas o mesmo não sucede com a dívida, que continua a crescer e depois estabiliza nos 86% do PIB: o máximo permitido é 60%. Ou eu me engano muito ou vamos ter aqui um problema que é preciso resolver...

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 

 Realista, Porto | 04/06/10 16:50
Tenho que concordar com o artigo. Mas....tudo vai depender do crescimento. Hoje em dia previsões não são muito de acreditar. Ha 2 anos a Espanha tinha um suoeravit superior a 2% (graças ao crescimento). Hoje é o que se vê. Vamos ter coragem. O seu anterior artigo sobre o TGV estava correcto.
 Fantasma Gaspar, Oxford | 04/06/10 16:47

Viva o Bloco Central ( PS PSD grandes empresas Banca que financiaram a desgraça dos pequenos) ,responsãveis por enganarem o "Zé Pagode com papas e bolos".

Solução :

- Só distribuir lucros e bonus aos gestores de 5 em 5 anos.E viam como o lixo não se punha debaixo do tapete, nem se atirava a "borrasca"para a frente.

ACORDEM!
 USA, | 04/06/10 16:29
Alguem esta disposto a investir numa organizacao com o a ETA?
C.Vieira, Boston, USA | 04/06/10 15:04
Bom artigo, como e costumario.
Paulo, Sesimbra | 04/06/10 14:56
A preocupação geral é com o défice, mas, como é assinalado no artigo, existe ainda uma restrição adicional que a do limite de endividamento do Estado a 60% do PIB. Depois da batalha do défice (se for ganha) teremos a batalha do endividamento. Dizer que os sacrifícios impostos aos portugueses são suficientes é só estar a ver metade do problema. Sem cortes a sério na Despesa, os sacrifícios a pedir não irão parar. É que com isto tudo, continuaremos a depender dos mercados da dívida e quando o "amparo" do BCE acabar os juros poderão aumentar de uma forma insustentável e a solução será a de irmos bater à porta do FMI/UE. O FMI já nos conhece bem pois somos clientes habituais. Somos bons alunos, dizem, mas nunca aprendemos.
lucklucky, | 04/06/10 13:22
É muito simples resolver o problema.

Entrega Património do Estado ás pessoas em Fundos: Edifícios e Empresas: CGD,CTT,Carris em Títulos etc. Cortar as despesas acabando com Ministérios inuteís como Educação, Economia, Agricultura, etc, diminuir as pensões, ordenados.
Os valores na economia passam a ser os verdadeiros: transportes, educação, saúde.
As pessoas equilibram a perca de ordenado com os fundos do património que era do Estado, e a baixa de impostos, tirando assim Poder aos políticos.

 Rui Mendes, Lisboa | 04/06/10 11:56
Boa analise, e uma boa constatação.
O problema da Républica sempre foi e sempre será o Deficit orçamental, e somente nunca tivemos problemas de endividamento externo brutal porque o nivel da poupança era elevado. Nos tempos do PM Prof.Cavaco Silva, juntamente com as vacas gordas importadas de Bruxelas, o desenvolvimento foi dado em consumo e mais consumo, e melhoria da qualidade de vida, e emagrecimento da estrutura de poupança. Das duas uma, ou morremos pelas maõs do aperto fiscal/orçamental, ou pelas mãos do aperto da divida.
Ou melhor, se calhar a entrada no incumprimento será mesmo inevitável.
A melhoria da divida está associada á melhoria do nivel de poupança e assim mesmo também, o lançamento de divida publica sobre cidadãos nacionais afastando-nos da flutuação/especulação dos CDS.
Por mais optimista que eu seja nestes planos, a geração de superavit orçamentais da forma como a despesa esta constituida é uma tarefa impossivel, sem que a carga fiscal suba mais e sabendo que isso corta o minimo crescimento fiscal.
Em suma, entre recessão e incumprimento, o FMI irá-nos visitar
 lucklucky, | 04/06/10 11:40
O Estado tem um defice de 20% entre despesas e receitas(1), Isto quer dizer que 20% dos gastos do Estado: salários de Politicos e Funcionários, Pensões , Compras, serviços contratados, 20% disto vem da dívida publica. Você recebe ordenado ou pensão do estado? 20% desse valor é dívida. Você faz um serviço para o Estado, 20% do orçamento do seu trabalho vai ser pago com dívida.(2)

(1)não se deixem enganar pelas contas feitas em proporção ao PIB.
(2) não incluí as EP's, Municípios etc.
 DMM, Lisboa | 04/06/10 10:15
Excelente. Conheco as crónicas de Daniel Amaral desde o tempo do semanário "O JOrnal". Este artigo é actual. É claro e ilucidativo. Os portugueses têm que apertar o cinto e passarem a consumir o equivalente ao que produzem.

 LOPES CARLOS, Bruxelas | 04/06/10 07:05
1. Como sempre, um artigo bem fundamentado e que permite uma reflexão séria e aprofundada.
2. Mais grave que a divida publica OFICIAL , é a divida externa bruta real, que incluiu a divida das familias e e das Empresas ( incluindo bancos) ao estrangeiro. E, mais tarde ou mais cedo , terão de contabilizar os submarinos, as PPPs, as SCUTs e outras despesas não incluidas ainda no perimetro orçamental. O peso do serviço da divida aumentará o que faz diminuir o Rendimento Nacional Disponivel...acresce um crescimento pífio do PIB até 2017.
3. Se tudo correr "bem" o PEC permitirá , segundo muitos analistas, não ir um ou dois meses ao mercado externo pedir empréstimos. Tanto barulho para nada.
 antonio simao, | 04/06/10 05:54
Caro Daniel Amaral
Qual é a solução conjunta que preconiza para resolver os desafios económicos e financeiros?
Prolongar, por um período indefinido, as medidas de austeridade acordadas por José Sócrates e Pedro Passos Coel
 A FAZER CONTAS SOMOS TODOS GÉNIOS, Antes das CONTAS | 04/06/10 02:48
Portugal vem violando várias regras de Ouro das Finanças: http://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=642068

E seguindo a mesma lógica, se o Estado se endividar num valor idêntico ou inferior ao do investimento produtivo, os impostos necessários no futuro para amortizar esta dívida adicional são compensados pelos benefícios gerados com o capital investido.

Benefícios estes calculados por um qualquer Professor Deixa LEvar no Cu os teus conterrâneos!!!
 João, Porto | 04/06/10 01:12
Daniel Amaral, tenho respeito por si e pelo seu trabalho, mas quero insistir num ponto: esse TGV espanholito assinado a um Sábado a mando do engenheiro (?) Sócrates é um disparate que nos vai pôr em muito maus lençóis
publicado por ooraculo às 17:48
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