Sexta-feira, 11 de Junho de 2010

Moinhos de vento

A CGTP, o PCP e o Bloco exigem políticas de esquerda. O CDS exige suspender o TGV. Os camionistas exigem gasóleo mais barato e SCUT sem portagens. As comissões de inquérito exigem a cabeça de Sócrates. E até Passos Coelho, o político da moda, exige que não lhe façam exigências. Com tanta gente a exigir, não é difícil imaginar um Verão quente: vêm aí as greves. E depois?

Portugal tem um problema grave de finanças públicas. Depois da maior crise de que há memória, e das medidas para a contrariar, ficámos com um défice insuportável que o actual plano de austeridade vai procurar corrigir. Os sacrifícios vão ser enormes. Mas já se sabe que, a seguir ao défice, vem a dívida acumulada, com números de arrepiar. O que só pode traduzir-se por sacrifícios adicionais - sabe-se lá até quando. As greves melhoram o orçamento? Não.

Portugal tem outro problema grave de endividamento externo. Fruto de uma atitude suicida que percorreu vários governos, fomo-nos habituando a gastar o que tínhamos e o que não tínhamos até descambarmos neste inferno: já devemos mais do que a nossa própria produção! Mas nem assim arrepiámos caminho. Numa Europa do euro com a situação controlada, persistem no rebanho duas ovelhas ranhosas: Portugal e a Grécia. As greves travam a dívida? Não.

Portugal tem um terceiro problema, o mais grave de todos, ligado à anemia económica e à falta de emprego. A última década foi de uma extrema crueldade: crescemos a um ritmo anual inferior a 1%, quando precisávamos de três vezes mais; afundámo-nos em produtividade e em competitividade externa; e a taxa de desemprego pulou de uns confortáveis 4% para mais de 10%. Ou seja, o Estado social faliu. As greves vão recuperá-lo? Não.

Imaginemo-nos então na pele dos grevistas: se as greves não melhoram o orçamento, não travam a dívida e não criam emprego - afinal para que servem? Resposta dos promotores: servem para alterar as políticas. Santa ingenuidade! As políticas que estão a ser seguidas não têm alternativa, são absolutamente indispensáveis e apenas pecam por tardias. Pior do que isso: estas greves obedecem à lógica do absurdo - propõem-se minorar sacrifícios e acabam em sacrifícios ainda maiores.

Duelo sem história: ingénuos contra moinhos de vento.

 

BARCO AO FUNDO

Crescimento indigente...

(PIB, variação (%)

...Endividamento louco

(B.Corrente, % PIB)

   

A última década é para esquecer. Os americanos tiveram um crescimento médio anual da ordem dos 2%, a Europa de 1,5% e Portugal inferior a 1%. E, em termos de desequilíbrio externo face ao PIB, a Europa teve uma balança equilibrada, os Estados Unidos um défice médio da ordem dos 5% e Portugal um défice médio superior a 10% (!). A atitude portuguesa é de loucos...

 
Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

.

 


Comentários

 

C.Vieira, Boston, USA | 11/06/10 18:43
Artigos sempre informativos e coerentes. Obrigado!
CSMA, ÁGUEDA | 11/06/10 11:58
Portugal nem precisa muito da concorrênçia externa para acabar no abismo, basta deixar estes nossos governantes em paz e malta acaba alegremente por lá chegar. Então um país preférico como o nosso em vez de combustiveis / energia mais baratos para melhorar a competividade das empresas,faz precisamente o oposto e carrega nos impostos desses produtos/serviços fazendo com que o preço final dos produtos exportados seja muito mais elevado tendo em conta que a mão de obra em portugal até nem é muito elevada. Como é possivel portanto que portugal um país pobre tenha empresas como a Galp , EDp, PT a dar lucros fabulos aos seus poucos accionistas?? Bem muito provavelmente á custa da competividade das empresas ditas PME. Se querem endireitar as finanças publicas que tal por os bancos a pagar IRS como toda a gente??

Realista, Porto | 11/06/10 09:24
Deixem-me enxertar aqui duas notas sobre a crise.
1- Eu vejo quase tanta televisão inglesa (Sky News e BBC) e espanhola (TVE Int e TVGaliza) como portuguesa e noto uma diferença abismal num ponto. Lá fora fala-se da crise mas sem exagerar. Aqui quase só se fala da crise, ao ponto de se ignorarem notícias mun diais importantes. 2- Recentemente passei uma semana de ferias no Algarve, num local para onde ja vou ha muitos anos e que conheço bem. Notei uma quebra brutal no número de ingleses. Os espanhois tambem são menos e, sobretudo, consomem muito menos. Como me dizia um amigo de um bar, agora vêm só passear. Quanto aos portugueses tudo na mesma. Comem um bocadinho menos nos restaurantes mas lá se vão aguentando. Os hoteleiros esperam que este ano os números não desçam e contam sobretudo com os portugueses. ACABEM LÁ COM O CHORADINHO!

Pato Donald, Disneylandia | 11/06/10 08:40

E para quando legislação que obrigue todos os gestores a pensarem no médio prazo, isto é bónus a só poderem ser distribuídos de 5 em 5 anos ?

O problema da nossa economia é que todos pensam da mesma maneira, isto é no curto prazo. Os resultados estão á vista...

LOPES CARLOS, Bélgica | 11/06/10 07:17
1. Excelente e corajoso artigo dum grande Economista.
2. Depois de uma década a voar baixinho, vamos ter uma década muito muito dificil. Com opções inadiáveis.
3.Há matérias que só podem ser resolvidas a nivel global e há outras matérias que só podem ser tratadas a nivel europeu. Mas, só os Portugueses podem eliminar os nós górdios que estrangulam muitos dos caminhos do Futuro.
4. Aqueles que desvalorizaram/negaram as consequencias da nossa muito pesada divida externa bruta e do nosso crescente serviço da divida comprometeram o futuro do País. Irremediavelmente.
antonio simao, | 11/06/10 05:12
Excelente o seu artigo. Como diz a finalizar a sua análise a atitude portuguesa é de loucos, mas tenho a certeza que poucos darão razão às suas conclusões, e as greves vão continuar e aumentar de intensidade sem resolverem qualquer problema, e o crescimento económico vai continuar anémico.
Temos uma maneira absurda de estar no mundo. Esta forma de estar no mundo não é de agora, pelo menos desde de meados do século XIX, vários autores a registam, entre os quais Oliveira Martins no seu Portugal Contemporâneo.
lucklucky, | 11/06/10 00:33
"As greves melhoram o orçamento? Não."

Tornam menos mal, não é preciso pagar ordenados desses dias. Devido á baixa produtividade e inutilidade seria bom que os Funcionários Publicos fizessem greve dia sim dia não.
publicado por ooraculo às 06:28
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds