Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

A mudança

 Quando o PCP e o Bloco criticam o Governo pelo falhanço da economia, que fez disparar o desemprego, eles têm razão. Sabendo-se hoje que o colapso do produto reflecte o colapso o investimento, fica a ideia de que o Governo falhou ao não usar supletivamente o investimento público, como a teoria económica sugere. Mas esquecem-se de um pormenor: com o endividamento louco a que o país chegara já não havia ninguém que o financiasse.

Quando o CDS e o PSD criticam o Governo pelo falhanço do orçamento, que transformou o país numa legião de pedintes, eles têm razão. Sabendo-se hoje que o défice e a dívida reflectem o descontrolo da despesa, fica a ideia de que o Governo falhou ao não avaliar correctamente toda a dimensão do buraco em que nos metia. Mas esquecem-se de um pormenor: foram as medidas anti-crise a evitar que a situação se deteriorasse ainda mais.

Seja como for, estas críticas exerceram sobre o Governo uma enorme pressão. No Parlamento, da esquerda à direita, não houve partido que não fizesse do Governo o bombo da festa. Nos meios sindicais, exigiram-se outras políticas, ameaçou-se com greves, apelou-se à contestação e à revolta. E as populações em geral reagiram como sempre reagem em situações semelhantes: se há crise, a culpa é da governação. O Governo ficou cercado.

A seguir vieram os substitutos. E de entre eles emergiu a figura de Pedro Passos Coelho: palavras simples, olhar sereno, ele soube passar a mensagem de que estava ali para ajudar o país. E o país gostou. As segundas linhas se encarregariam depois do "trabalho sujo". Alvo a abater: o responsável pela crise, pelo desemprego, pelo orçamento, pelo caruncho e pela peste negra - Sócrates. O cerco dava lugar à ocupação.

Está aberto o caminho à mudança. Cavaco vai ser reeleito. O Governo vai ser censurado, humilhado e substituído por outro. E uma decisão histórica assombrará o mundo, ao pôr termo ao autismo, à incompetência e à irresponsabilidade socrática: a suspensão do novo aeroporto e do TGV. Já mais calmos, os novos senhores da terra poderão então reunir e aprovar o seu primeiro pacote de medidas: redução de funcionários, aumento de impostos, cortes nos salários e nas pensões.

Cavaco ao país: a hora é de sacrifícios.

 

PORTUGAL RECESSIVO

Cai o investimento...

(Variação (%)

 ...sobe o desemprego

(Desemprego, % pa)

   

Se quisermos um culpado para a recessão de 2009, a melhor escolha está no investimento: ele pesava um quinto do PIB e caíu quatro vezes mais do que este. Faltou ao Governo engenho bastante para fazer a compensação através do investimento público. O resultado foi a explosão do desemprego, sobretudo nas camadas jovens. Má sina ser jovem e viver em Portugal...

 

Fonte: Banco de Portugal

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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 

 LIBERAL, | 18/06/10 15:41
Num país onde o estado é dono de mais de metade da economia é mais que óbvia a responsabilidade do governo no crescimento (neste caso recessão) e no emprego (neste caso desemprego). Quem manda em mais de metade da riqueza e tem uma forte influência na restante metade não pode em tempos de crise vir clamar por irresponsabilidade em matéria económica. PS e PSD têm engordado o estado e emagrecido a iniciativa privada nos últimos 30 anos. É caricato ver alguns a classificar o PSD como "de direita" ou "liberal". Nem o PP o é... O grande problema é o ego deste centrão: acham sempre que fazem melhor que os privados. Está mais que provado que não fazem: o estado está mais endividado, é mais ineficiente e burocrático e paga com mais atraso. E insistem em aumentá-lo! Quando vem a crise o custo da sua clientela e a dívida acumulada impedem-no de reagir, investindo. Pior: insiste nos maus investimentos (que aumentam as importações e a dívida) negando mais e melhores apoios a quem quer produzir e exportar.

LOPES CARLOS, Bélgica | 18/06/10 12:35
1. Caro Senhor Rui Mendes, a partir de 2011 ( e durante o ciclo 2011/2017), e por diversos motivos , o Pais vai aperceber-se da dimensão do "caso português". Não haverá então "écrans" possiveis a tapar a realidade.
2. Estimado Senhor Rui Mendes, a solução mais prática seria a aplicação de um conjunto de "medidas exóticas" , já definidas em Fevereiro de 2006. Dada a impossibilidade politica de tais medidas serem aprovadas e implementadas, vai ser o desemprego ( de longa duração e em escala significativa) a proceder ao reajustamento estrutural.

trucla, | 18/06/10 11:43
Caro articulista. Afirma que "que o Governo falhou ao não usar supletivamente o investimento público, como a teoria económica sugere.". Ora, esta afirmação - a 2ª parte - está muito longe de poder ser assim tão taxativa e, mais ianda, está longe de ser consensual. Pode perguntar ou ler os seus colegas macroeconomistas como por exemplo o português Sérgio Rebelo (economista reconhecido internacionalmente, para quem não saiba) e ver que a conclusão de que a teoria económica sugere que um aumento dos gastos públicos "ajuda" a economia é prematura, não-consensual e, muito provavelmente, errónea, independentemente de haver financiamento ou não (mais tarde ou mais cedo equivale sempre a mais impostos).
Amândio Martins, Amora | 18/06/10 11:31
Se PCP e BE têm razão? Em parte, como qualquer português quando critica o governo. As medidas anti-crise surgiram porque as contas públicas estavam a doentes: por descontrolo entre despeasas e receitas.Mesmo que não hovesse crise mundial, o problema surgia. Com o plano anti-crise: corre-se o risco de não morrer da doença, mas já pode morrer da cura. É a teoria do governo. Porque o governo não reduz despesas? Porque não o quis fazer antes da crise? Porque não ataca o governo a economia paralela? Ainda hoje vem num jornal da concorrência, que só no Algarve há cerca de 200 mil camas paralelas ilegais. É dinheiro que circula sem ser declarado? O país está cheio de situações destas.Se todos pagassem impostos, os que já pagam passariam a pagar menos. Não se percebe o ataque ao trabalho declarado, enquanto há uma clara falta de vontade em combater o que está mal!
Rui Mendes, Lisboa | 18/06/10 11:10
Exmo Sr. Lopes Carlos, o problema é que nunca o povo portugues vai realmente ver a gravidade da situação, porque mete-se ao meio o CR ou o Fado ou o Papa.
Há anos demasiados que temos sempre de arranjar desculpas para não querer mesmo arrumar a casa, ou porque dá muito trabalho ou porque vai mexer em coisas muito "pesadas".Como portugueses somos muito calmos e aceitamos sempre o pior, porque dizemos que podiamos estar piores.
O facto é este desde o tempo do Sr. Cavaco Silva a PM até ao dia de hoje não há um politico com capacidade decisória e visão de Estadista que alertasse do Estado das coisas, o Sr. Barroso vendeu-nos algumas tangas e fugiu para a Belgica, a Drª Manuela que tinha razão mas não tinha retórica, em suma todos...Tivemos primeiros ministros e ministro perdas de tempo que nada mais nada menos passearam pelo poleiro do poder, o único Politico que teve coragem para fazer alguma coisa foi um PR(Jorge Sampaio) e ainda assim com poderes limitados que teve.
Cavaco Silva foi um mau presidente porque viu no PM uma imagem sua e capacidade invejavel para contornar os problemas como os saudosos tabus.
De facto Sr. Daniel Amaral, o futuro não é nada colorido.

RosaPratas, | 18/06/10 10:12
Devemos focar-nos na origem do problema:a crise de liderança empresarial e política.
O país vem sendo alimentado há muitos anos pelos fundos da comunidade europeia e que não têm servido para prevenir a irresponsabilidade das políticas económicas das empresas e do governo.caso contrário teríamos melhorado o rendimento disponível, a sua melhor repartição, a competitividade da economia nacional e a eficácia e eficiência das contas públicas, assentes em princípios de progresso social e de responsabilidade individual e colectiva.


Na Ilha das Ponchas, Mar da perplexidade | 18/06/10 09:30
Não se esqueçam de que os governos ainda são eleitos pelo povo e não pelos comentadores, nem peloas sondagens. Quando o povo for chamado a pronunciar-se logo se verá o resultado.
Realista, Porto | 18/06/10 09:06
Penso que o autor esteve perto de conseguir um excelente artigo. Mas não soube dosear bem as cores. Eu tambem penso que o BE e o PCP têm razão: os governos Sócrates têm desprezado o investimento, com prejuizo para para o crescimento e o emprego. O artigo descreve a inevitabilidade da desgraça que aí vem. Mas ao mesmo tempo demonstra a hipocrisia da política: Passoa Coelho vai fazer a cama a Sócrates argumentando com a subida dos impostos, o corte dos benefícios sociais, etc. Mas, depois de instalado no poder vai fazer precisamente o mesmo: aumentar impostos, cortar nos benefícios, etc.
NapoLeão, | 18/06/10 07:57
Sabe quais as "competências" e sensibilidade social do actual secretário de Estado do Emprego, o camarada Valter Lemos ? Seria um milagre descobrir 1 só ! Ora, com "soluções" destas...que podiam esperar os desempregados, os mais fracos da nossa sociedade ? Quando se trata de fazer "promessas", este Governo em fim de ciclo, tenta logo lixar os desempregados, como se estes não fossem pessoas com nomes, filhos e pais idosos ! EW sem futuro" em Portugal ! Mais uma vez...aí está a "mala de cartão" !!!
LOPES CARLOS, Bélgica | 18/06/10 07:05
1. Excelente artigo como sempre.
2. Depois de uma década para esquecer, os Portugueses vão ter de enfrentar uma década com muitos riscos.
3. A sociedade portuguesa encontra-se muito dividida e muita gente ainda não percebeu a real extensão da gravidade da situação e das suas consequências no nosso quotidiano durante muitos anos.
4. Um dia, quando se comparar a profunda diferença entre o teor dos discursos partidarios proferidos durante as ultimas eleições gerais portuguesas com a realidade economica e financeira que já então não podia ser escamoteada os analistas/politologos/comentadores vão ficar muito "surpreendidos". Pois assim se fazem as cousas, como diria o Mestre Gil.
antonio simao, | 18/06/10 06:48
Caro Daniel Amaral o seu artigo de hoje tem algo de profético, uma visão negra dos dias presentes, e uma previsão de uma vida mais difícil num futuro próximo.
Como é possivel, | 18/06/10 00:49
este jornal bateu no fundo.

como é possivel defenderem que o be e o pcp tem razão! Mas queriam que o governo se endividasse AINDA MAIS para investir em projectos inuteis?

Muda-te para o jornal avante.
publicado por ooraculo às 18:30
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