Sexta-feira, 2 de Julho de 2010

Barco ao fundo

 

Projecções para o crescimento do PIB este ano: 10% na China, 6,3% no Brasil, 3,3% nos Estados Unidos e apenas 1,1% na Zona Euro. Já a forma como se tinha lidado com a crise, sobretudo em 2009, sugeria a mesma perplexidade: o crescimento chinês fora de 8,7%, o americano de -2,4% e o europeu de -4%! Sucede que a Zona Euro, enquanto tal, é um projecto novo, ainda não fez 12 anos e foi estudada ao milímetro. Que se passa com a Europa?

Peguemos na balança com o exterior. Encarada como um todo, esta balança está equilibrada. Mas há grandes excedentes na Alemanha, compensados com défices noutros países: em Portugal, em Espanha, em Itália, na Grécia. Houvesse um mínimo de solidariedade de grupo e teria sido fácil repor o equilíbrio: bastava que a Alemanha aumentasse as importações dos países deficitários. Na prática, os alemães consumiam mais e o PIB da zona crescia. A Alemanha não quis.

Há uma situação semelhante nas relações entre os Estados Unidos e a China. Ao manterem o ‘yuan' artificialmente baixo, os chineses estariam a provocar défices enormes na América, ao mesmo tempo que acumulavam reservas colossais. Mas há quem contrarie esta tese. É verdade que a China tem excedentes com os EUA, mas no confronto com os países do G20, EUA à parte, as contas estão equilibradas. Em vez de valorizar o ‘yuan' não seria então preferível desvalorizar o dólar?

Regressemos à Europa. No auge da crise (2009), o défice orçamental na Alemanha situou-se nos 3,3% do PIB, um número pacífico. Mas noutros países chegou-se aos 10%, às vezes mais. É claro que para estes não havia alternativa a planos de austeridade rigorosíssimos, sob pena de afundamento total. E estes planos são em si mesmos indutores de recessão. Cabia então à Alemanha contrariar a tendência, escolhendo políticas expansionistas. Ela optou pelo inverso.

As posições da Europa, dos EUA e da China seriam sempre decisivas na reunião do G20, que no último fim-de-semana se realizou em Toronto. E que posições assumiram eles? A América bateu-se pelo crescimento económico, a Europa privilegiou os cortes orçamentais e a China assobiou para o lado. Feita a síntese, a senhora Merkel ganhou, a China empatou e a América perdeu.

A Europa vai continuar a afundar-se.

 

OS TRÊS GRANDES

 Do crescimento...

(PIB, variação (%))

  ...ao saldo exterior

(B. Corrente, % PIB)

   

 

Os Estados Unidos, a Zona Euro e a China representam 48% do PIB mundial. Mas os desempenhos actuais são muito díspares: 10% na China, um terço disto na América, quase nada na Europa. Também a dependência externa é diferente: a Europa está equilibrada, a América endivida-se e a China vai acumulando reservas colossais. O poder económico está a desviar-se para Leste...

 

Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 Mrrm, | 02/07/10 16:25
Que giro, embora aí brincar com os números.
então não é que o brutal e feroz crescimento do Brasil, em termos absolutos, de carcanhol, de dinheiro, é menos de um terço do que o anémico crescimento da UE?
E isté é só em termos absolutos, qual é o crescimento populacional do Brasil e o da UE?
Que giro que é atirar com números esperando que ninguém mais saiba que uma percentagem é uma incidência sobre um todo.
Péssimo artigo, desconjuntado, sem linha-mestre, sem explicar se há problema ou não, sem explicar nada de nada, outrossim confundindo e manipulando estatísticas pelo prazer de se ser mais um a atirar bocas. Do pior que tenho lido no DE, como é já hábito neste articulista.
MMartins-Sintra

Subsídios à subversão sindical na China comunista, | 02/07/10 11:33
Há dias, a Lusa noticiou que o aumento de conflitos laborais na China levariam a um aumento dos custos de produção e ao aumento do consumo interno, podendo aliviar a pressão sobre o preço das exportações portugueseas.

«"Mais do que o aumento dos custos de produção, importa o aumento da capacidade de consumo, o que faz com que a China passe a exportar muito menos e a um peço superior", afirmou à Lusa João Costa [presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP)], comentando o aumento da agitação laboral na China.»

A IDEIA: Da mesma forma que os regimes comunistas apoiaram no passado partidos, movimentos e facções de inspiração comunista no Ocidente (e, no que a nós diz respeito, o apoio aos movimentos independentistas e anticolonialistas no mundo pós-colonial do pós-guerra ) considero que, de forma igaulamente legítima, na inversão dos tempos e dos papeis, o Ocidente patrocine movimentos, partidos e facções que lutem pelos DIREITOS HUMANOS, por mais DIREITOS LABORAIS, pela LIBERDADE DE EXPRESSÃO e por formas de REGIME DEMOCRÁTICO.
Por outro lado, se a consciência humana nos desperta para a defesa da Justiça social, do Ambiente, e da promoção da Igualdade e da Solidariedade entre as nações e os homens, o boicote a certos produtos oriundos de países que não respeitem dadas normas laborais, ambientais e humanas comummente aceites, deveriam ser uma "arma ecológica e humana" a apontar.

Marianito, Lisboa | 02/07/10 10:56
Há um aspecto nas trocas comerciais entre paises da zona euro que me parece estar a ser neglicenciado: Se calhar ján ão faz sentido falar em exportações quando as trocas são entre paises da UE. Penso que a Ue deveria adoptar uma politica de exportações apoiando os paises para venderem para fora do espaço comunitário. Por outro lado parece-me que a Europa é muito mais flexivel em relação ás importações da China do que a China em relação á Europa.

lucklucky, | 02/07/10 09:59
Que pobreza de pensamento, ainda se julga por aqui que a economia pode ser comandada, dirigida. O Comunismo ainda não saiu destas cabeças.
Os Alemães compravam o que o Governos lhes diria, se tivessem um Nazi ou Comunista no Poder. Assim os Alemães poderiam comprar parafusos caros inúteis feitos pelos Portugueses.
Azar estamos no Mercado Livre, onde o valor dos produtos é aquele que as pessoas dão.
Estranhamente não vejo os Governos dos outros países a forçarem a compra de produtos Alemães...mas as pessoas mesmo assim compram...porque será?

Realista, Porto | 02/07/10 09:04
Concordo com o artigo. Queria apenas acrescentar 3 notas. 1- Por vezes damos demasiada importancia às políticas económicas (e à política) internas. Mas não devemos esquecer que o problema (a crise) é global e não ha nenhuma saída só para nós. 2-Quanto ao crescimento da China e do Brasil só me surpreende que tenham demorado tanto. Sem dúvida que a fixidez do yuan tem ajudado ao crescimento chinês. Mas...e a valorização do euro em relação ao dolar não explica tambem muita coisa? Oxalá que vá para 1 euro = 1 dolar. 3- A Alemanha está a dar cabo da Europa, mais uma vez. É nítida a tentativa de separar a Espanha, Portugal e Grecia. A dívida da Espanha em 2009 era de 53,2%. A da Alemanha era de 73,2. A da França de 77,6%. Porquê esta perseguição a Espanha?

jorge, | 02/07/10 05:20
E o futuro do petróleo?
publicado por ooraculo às 17:42
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