Sexta-feira, 9 de Julho de 2010

SCUT e trapalhadas

Não sei ao certo o que ia na cabeça de João Cravinho quando inventou as SCUT. Mas parecia interessante: as empresas construíam e financiavam, o país desenvolvia-se e as populações adoravam; como cereja no bolo, ainda aumentávamos o PIB e a receita fiscal. Também o PS subia. Mas não há almoços grátis e a conta chegou depois: 700 milhões de euros por ano, uma loucura. Quem paga?

A factura das SCUT está aí e não há como fugir dela. E o pagamento só pode ser feito de duas maneiras: ou por nós todos, via impostos, ou por aqueles que as utilizam. Podemos queimar os neurónios a discutir os prós e contras de qualquer delas. Eu tenho de há muito uma opinião formada: a solução mais justa é aquela em que o custo do serviço é suportado pelos seus utilizadores. E quanto mais tarde decidirmos mais agravamos a situação.

Mas o Governo só acordou para as SCUT em 2006, ao definir os critérios para a introdução de portagens: o PIB regional, o poder de compra concelhio e as alternativas possíveis. Li na altura estes estudos e fiquei com a impressão de que se decidira primeiro e se estudara depois. Por exemplo: a região do Algarve, a mais rica de todas, "nunca" teria portagens. Palavras de Jorge Coelho, que foi lá expressamente para o anunciar. Era o tempo da politiquice.

A seguir veio o amadorismo. O MOPTC inventou um ‘chip' que lia tudo, ignorou o melindre da protecção de dados e meteu-se numa alhada de que nunca mais saiu. O ‘chip' acabou ridicularizado e só não acabou de vez para evitar a humilhação daqueles que o conceberam. No fundo, ele nada acrescenta à Via Verde, que já existia antes e sempre funcionara bem. E nós andamos há quatro anos a ouvir a lengalenga de que tudo estará pronto "no próximo semestre".

Agora é a luta partidária. O PS cedeu a todas as exigências do PSD: a universalidade das portagens, o ‘timing' de execução, o ‘chip' à medida dos seus desejos. Ainda assim, o PSD votou contra o projecto, a pretexto de um argumento bizarro: havia acordo, mas não havia "preto no branco". E já se fala de novos adiamentos. Moral da história: o PSD quer as portagens, mas também quer que o odioso caia sobre o PS. E a corda vai esticando, esticando, esticando... Até partir?

Os políticos devem estar loucos.

 

d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 anibal barca, | 09/07/10 17:36
Quando os romanos começaram a fazer as primeiras estradas deviam ter já aí cobrado portagens. Não havia alternativa? Então não havia pelo corta mato?
Isto para dizer que se as auto estradas servem para o aumento da economia do país devemos ser todos a pagar através dos impostos. Se se considerar que são um luxo, então sim, que pague quem as utiliza.

xpto, | 09/07/10 14:42
Por essa óptica porque é que os habitantes de Portalegre têm que pagar o Metro de Lisboa, a Carris, ou os transportes urbanos do Porto, ou até mesmo a Tap. Sim porque mesmo que nunca tenha andado em qualquer desses meios de ransporte, o orçamento de Estado financia todos os anos com milhões! Pensem bem no que dizem se não qualquer dia temos uma grande caldeirada

vaitecatar, | 09/07/10 14:06
Como sempre em Portugal nunca se pensa a longo prazo, sacode-se para baixo do tapete e que vier a seguir que resolva!..
Não creio que fosse por falta de etica essa decisão do João Cravinho, somente por incompetência como é habitual nos nosso politicos!..
A permissa de que as SCUT iriam gerar desenvolvimente que poderia reverter para o estado atraves dos Imposto que pudesse custear as SCUTs falhou. (como alias ja se esperava, e volta-se ao assunto da incompetência), como tal deve prevaler o utilizador pagador. para mim alem da Saúde, Educação e das Forças Armandas, o principio que deverá sempre imperar e o do utilizador pagador, quanto mais não seja para não colocar nunca em causa essas tres que nomeei.

paulo d, | 09/07/10 12:36
O princípio do utlizador pagador é válido dentro de certos limites. Exemplo: a educação é paga por todos nós, tenhamos ou não filhos na escola. Por este principio, a educaçao era paga à cabeça. Outro exemplo: saude: morria metade do País se se aplicar o princípio do utilizador pagador. Quanto às auto-estradas, pelo mesmo princípio, nunca haveria auto-estrada no distrito de Bragança, pois o número de utilizadores nunca chegarão a ser suficentes para a pagar. Os impostos que pagamos devem ser para o bem comum, sejam estradas, hospitais, escolas, etc. E as coisas devem ser feitas de forma a que o País se desemvolva harmoniosamente, para evitar que o interior acabe num deserto (já pouco falta). Vejamos o seguinte: qd estamos a por portgens o custo do transporte das mercadorias aumenta, logo esse custo vai fazer com que os produtos fiquem mais caros, logo não pagamos as auto-estradas directamente mas acabamos por paga-las no supermercado.

EN GANADOR, PORTO | 09/07/10 10:55
ISTO AGORA TAMBÉM TEM CENSURA?

LOPES CARLOS, Bélgica | 09/07/10 06:42
1. Excelente artigo como sempre . Na verdade não há almoços grátis !
2. O principio do Utilizador Pagador é o mais justo. Fazer o Zé Peão ou o Zé Ciclista pagar a mobilidade do Simão Que Vai à Caça EM 4x4 é uma interpretação da "Solidariedade" que mostra bem as concepções de alguns.
3. Financeiramente as SCUTs falharam. E o ESTADO não aguenta . Mas do ponto de vista do DESENVOLVIMENTO também falhou : ao fim de tantos anos , as regiões beneficiadas continuam pobres , tanto que alguns reclamam isenções para os concelhos "pobres" ( onde há tantos possuidores de viaturas de alto luxo). Comparem o desenvolvimento das NUTs "beneficiadas" com o desenvolvimento das NUTs do resto da Europa( Espanha,Grécia,etc) , utilizando as estatisticas do EUROSTAT.
4. O Sr. Eng. Cravinho é um Cidadão Exemplar, Sério , com Ética , combatente tenaz contra a Corrupção, mas não foi feliz nesta opção de financiamento destas vias de comunicação.

Antonio Simao, | 09/07/10 06:23
Eatá soberbo o seu artigo e a arte de dizer tanto com tal economia de palavras. Se muito dos nossos governantes possuissem a sua capacidade de síntese este país não estava a vivermomentos tão difíceis.

publicado por ooraculo às 18:00
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