Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Uma decisão estranha

 

Depois do descalabro das contas públicas em 2009, Bruxelas foi célere a impor as regras de jogo: o défice face ao PIB teria de baixar para 3% até 2013. Nada a opor. Logo a seguir, Bruxelas fez questão de intervir na forma: dois pontos teriam de ser cortados já em 2010. Também percebi. Mas há dias, sem aviso prévio, pela calada da ‘net', o Governo veio antecipar os 3% para 2012. Esta passou-me ao lado. Foi uma opção interna ou mais uma imposição do exterior?

A dúvida tem razão de ser, porque a decisão é estranha. As implicações são várias e nem todas boas. A mais óbvia está no travão do crescimento económico: ao baixarmos o rendimento disponível, estamos a diminuir a procura, que faz diminuir a oferta. O Governo, de resto, reconhece isso mesmo, ao corrigir a produção em baixa. Mas, como é normal nestes casos, fá-lo numa perspectiva optimista, porque o tempo está lindo e há estrelas no Céu.

Se há menos crescimento, haverá menos emprego: La Palisse não diria melhor. Acresce que, como várias vezes tenho referido nesta coluna, as nossas estruturas produtivas continuam sobredimensionadas, porque o ajustamento do emprego ainda não se fez. A marcha vai ser penosa.

Também neste caso, o Governo reconhece o problema, ao admitir que a taxa de desemprego ultrapasse os 10% já em 2011. E uma vez mais fica a ideia de que ele subavalia a situação.

Qual cereja no bolo, o Governo volta a atacar o investimento público, numa deriva arrepiante. Historicamente, ele representava 4-5% do PIB; já o reduzíramos para cerca de metade disto; e agora propomo-nos baixá-lo ainda mais até 2013. Admito que haja razões que a razão desconhece. Mas, quaisquer que elas sejam, só posso chamar-lhes suicidas. Na hierarquização destas medidas, o corte no investimento deveria ser a última a tomar.

Como já se percebeu, há aqui uma decisão que é um pau de dois bicos: por um lado, travamos a dívida externa e reduzimos as necessidades de financiamento, o que é óptimo; por outro lado, agudizamos a crise económica e cavamos ainda mais -desemprego, o que é péssimo. Não gosto da troca. Daí a pergunta que formulei lá atrás: foi Bruxelas que nos impôs a medida ou foi o Governo que se pôs em bicos de pés?

Este país é uma emoção.

 

AUSTERIDADE POLÉMICA

Menos endividamento...(Peso no PIB (%)
 Mais desemprego(Peso na pop. activa (%)
   

 

Esqueçamos quem decidiu o quê. Ao acelerarmos as medidas de austeridade, vamos atingir os 3% de défice já em 2012, ao mesmo tempo que invertemos nesse ano a tendência crescente da dívida. É óptimo. O problema é que, entretanto, travamos o crescimento económico e elevamos o desemprego a limites intoleráveis. É péssimo. Do meu ponto de vista, a opção foi má.

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal.


____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 

lucklucky, | 16/07/10 17:44
Não há razões nenhumas para haver investimento publico. Não passa de corrupção legal e Dívida. O investimento Publico só trouxe dívida nos últimos 10 anos e um País com a economia toda destorcida pela intervenção dos Governos.
Francisco, | 16/07/10 14:28
O mal é que a Merkel apenas impõe que se baixe o défice para X no ano Y. Não diz como é que isso deve ser feito. Assim, o (des)governo português fica com liberdade para o fazer aumentando a receita (nos próximos 2 anos os impostos vão ser sempre a subir) e cortando nas despesas virtuosas.
Seja como for, não se pode perder de vista, que a situação em que estamos se deve ao facto de termos (o país) andado a viver acima nas nossas possibilidades e agora, seja qual for o caminho, vai ser preciso sofrer. A intensidade e a partilha do sofrimento é que serão diferentes consuante a qualidade dos políticos que tivermos e que escolhermos.Não se pode esquecer que a responsabilidade do presente e do futuro também é do Zé Votante.

poisnaosei, | 16/07/10 12:40
Completamente de acordo com o artigo, mas lembrou-me outra questão: do confronto e injustica de gerações. O azar de se nascer em determinadas gerações por pagarmos a fava pelas asneiras que as anteriores fizeram. Os grande culpados parece-me serem a geração que chegou mercado de trabalho e a maturidade no anos 80, o verdadeiros yuppies. Lembro-me de haver tipos a acabar o curso do ISEG ( ou o equivalente da altura) e irem chefiar equipas com pessoas mais velhas e experientes. Foi essa geração que enterrou completamente portugal, alguns foram PM, outros Minsitros, que andam agora pelas empresas com grandes tachos e regalias e pensoes acumuladas.
Quem chegou ao mercado de trabalho nos ultimos 5 anos foi vitima dessa gente!.. as eles continuam a pavonear o seu saber pelos jornais e pelas televisões como se tivesse o seu sucesso fosse fruto do seu talento inato!..
Nisso dou razão aos jovens gregos, quando andam a pedrada na rua. tem toda a razão!.

RosaPratas, | 16/07/10 10:38
A decisão só pode ser de Bruxelas. O governo de Sócrates sempre mostrou, na prática, que gastaria o dinheiro que fosse necessário enquanto houvesse quem lho emprestasse, porque faz parte do ADN dos partidos socialistas. Como disse Sócrates, o mundo mudou, isto é, os investidores passaram a dar atenção à capacidade para os devedores pagarem e vai daí fecharam as torneiras com impacto na chamada crise da dívida soberana, com particular destaque para os países do euro.
Reclama-se um governo económico europeu.Já começou, com as decisões a serem tomadas em Bruxelas e comunicados, ao Sócrates, os objectivos a atingir e avaliar o seu desempenho de seguida.
A exemplo do que acontece com as empresas deficitárias, não se deve atirar dinheiro para cima dos problemas, como faz o IAPMEI, é preciso é resolver os problemas.

Realista, Porto | 16/07/10 09:00
Concordo inteiramente com o autor. Eu tambem fiquei baralhado com a passagem dos 3% de 2013 para 2012 e com o corte drástico no investimento público. Acho que é um erro tremendo. Acho que neste dilema de cortar nos défices ou continuar ainda com alguns estímulos o Sr Obama é que tem razão e a Sra Merkel não. Esta aceleração do Governo no corte do défice está errada do ponto de vista económico e está errada do ponto de vista social. Parece que ninguem tem verdadeira consciencia dos dramas que o desemprego está a gerar.

Rui Mendes, Lisboa | 16/07/10 08:22
Bom dia, o texto indica-nos que entre duas direcções de diminuição da divida e diminuição do emprego, foi utilizado a regra do costume, o corte do emprego.
A duvida que tenho é que quem explicará ao Povo Portugues que a soberania e a decisão de escolha de um pelo outro foi um Alemão, Belga etc e não um Português.
Será a mesma coisa dizer que um Portugues interviu nas politicas economicas de Espanha(passe o exemplo), toda a gente diz que a divida publica é inferior a privada, então a decisão do desemprego insere-se nisto? Então como o requilibrio orçamental contribui para o crescimento? Não há contribuição...o que estamos é gerir liquidez até a altura que aquela acabe, porque a unica forma de gerar ainda mais liquidez é produzir e se não há produção? Esta regra inibe a procura interna e "encanta" a procura externa, mas os outros países não estao com o mesmo problema? Terá Portugal uma economia virada para as exportações?Penso que não.Por isso a decisão é puramente financeira.
Os senhores de Bruxelas controlam as finanças e nós limitamos a vender, é uma optima ideia, quando há impasse.
Bom dia.

LOPES CARLOS, Bélgica | 16/07/10 07:32
1. Este texto tão claro e tão pedagógico devis ser analisado com a maior atenção por muitas Familias e Empresas Portuguesas.
2. A situação economica, financeira e social do País ( em Julho de 2010) é muito muito delicada. As verdadeiras opções agora serão todas muito dificeis e muito dolorosas.
3. Quem apoiará o OE 2011 e suportará os respectivos custos ? Agora é a doer ! TODOS sabem o que se terá mesmo de fazer, mas TODOS sabem o que acontecerá a quem o tente fazer. DE qualquer modo, o reajustamento será feito. Provavelmente como O. BLANCHARD escreveu em Fevereiro de 2006.
publicado por ooraculo às 17:47
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds