Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

Pobres duas vezes

 

O conceito de limiar da pobreza é relativo e convencional: corresponde a 60% da mediana do rendimento por adulto e era em 2008 de 414 euros por mês. Abaixo deste limiar, e como tal em risco de pobreza, estavam 1,9 milhões de pessoas, 17,9% do total. Números que comparam com os 18,5% de 2007, a que correspondiam mais 62 mil pessoas. A variação foi positiva. Significa então que os portugueses passaram a viver melhor?

A resposta é não. Nada neste estudo nos permite ajuizar se o nível de vida ficou melhor ou pior. A única informação que nos é dada é que melhorou a distribuição dos rendimentos. O que de resto é confirmado por outros indicadores: o coeficiente de Gini, que mede a diferença entre ricos e pobres, caiu 0,4 pontos para 35,4%; e a relação entre os rendimentos dos 20% que ganham mais e os dos 20% que ganham menos caiu 0,1 pontos para 6 - ainda assim a mais alta da Zona Euro.

O tema merece uma explicação. Admitamos que os rendimentos de 2008, no valor de 100, tinham sido igualmente distribuídos por todos os adultos: o limiar da pobreza seria de 60% da mediana de 100 e o número de pobres igual a zero. Admitamos agora que o limiar da pobreza era 10 vezes mais alto ou 10 vezes mais baixo que o de 2008, mantendo-se a distribuição: o limiar da pobreza subia ou descia 10 vezes, mas o número de pobres seria rigorosamente o mesmo.

A dúvida persiste: as pessoas vivem melhor ou pior? O estudo não responde, mas eu fui à procura de resposta por outras vias. E os resultados são contraditórios: se usarmos o PIB ‘per capita' a preços constantes, há uma queda em 2008 e em 2009 - a situação piorou; se em vez do PIB usarmos o rendimento disponível, há uma subida em qualquer dos anos - a situação melhorou. Única certeza: o nosso nível de vida é uma lástima.

A razão por que trouxe aqui este assunto foi o último debate parlamentar sobre o estado da Nação. De um lado, cantavam-se hossanas, porque havia menos pobres em 2008. Do outro, atirava-se um "é preciso ter lata", a pensar nos imaginários pobres de 2010. Assisti a tudo, horrorizado: todos bramiam muitos números; ninguém fazia a menor ideia do que estavam a falar. Pobres duas vezes: pelas misérias da vida e pelas lacunas do saber.

É triste.

 

O ESTADO DA NAÇÃO

Baixos rendimentos...(2003=100, preços constantes) Distribuição injusta (Rácio S80/S20*)
   

 

* Os 20% de rendimentos mais altos ‘versus' os 20% de rendimentos mais baixos.

 

Olhe-se pelo lado da produção ou pelo lado dos rendimentos, os indicadores portugueses são sempre paupérrimos: não só os valores são baixos como praticamente não crescem. Para agravar a situação, o modelo distributivo, ainda que tenha vindo a melhorar um pouco, continua tremendamente injusto: é mesmo o mais injusto de todos os países da Zona Euro.

 

Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

anibal barca, | 23/07/10 17:15
E porque não dizer pobres três vezes, apreciando alguns comentários?!
JOÃO SEIXAL, seixal | 23/07/10 12:51
exmº sr. economista, dr, engº gestor ,etc etc etc .. está precocupado com a pobreza? a sua conta estará a baixar? vai como nós de férias prá costa? e anda de pedaleira' ? JÁ AJUDOU NALGUMA COISA? OU OS SEUS ARTIGOS SÃO À BORLA? O PESSOAL DA EDIFER TEM SUBSIDIOS COM ANOS DE ATRAZO NÉ? OS EMPRESÁRIOS ESTÃO EM ANGOLA, COITADOS FORAM A NADO?

Ricardo, | 23/07/10 12:14
Caro Daniel, o sr tá a precisar de passar uns dias de férias a apanhar um solinho bom e bem relaxado... sabe porque é que o Socrates ganhou pela segunda vez as eleições? não sabe eu digo-lhe: porque o povo portugues não é burro ao contrário do que alguns iluminados querem fazer crer.

vg, | 23/07/10 11:27
Ó Daniel,o "inginheiro" não vai gostar.Vivemos num país côr de rosa,que resiste às campanhas negras..

JJC, | 23/07/10 10:50
Um dos factores que ajudou a diminuir essas diferenças foi o aumento do salário mínimo, que nunca tinha sido tão grande em tão pouco tempo...e se este ano aumentar mais 25€, o diferencial entre os mais ricos e mais pobres voltará a diminuir...o argumento dos patrões só já convence os parolos...o mais triste num país como o nosso não é ter pobres...é ter trabalhadores que se esfolam todos os dias para ganhar um ordenado de miséria e esta foi a maior conquista do reinado de Sócrates, coisa que ele ainda não percebeu.

João Santos, | 23/07/10 10:17
Que coluna mais tendenciosa.

"o modelo distributivo, ainda que tenha vindo a melhorar um pouco, continua tremendamente injusto"

Isto é comentário de um economista?? Tem de aprender a ser mais imparcial.
Então no grafico não se nota uma clara tendencia de decrescimento no Indice?? Uma clara convergencia para o nivel europeu...

LOPES CARLOS, Bélgica | 23/07/10 10:06
1. Na ultima década ( dados comprovados) e na próxima década ( previsões de crescimento do PIB potencial da OCDE ) os nossos Politicos andam a discutir
ESCASSAS DÉCIMAS PARA CIMA E/OU ESCASSAS DÉCIMAS PARA BAIXO. Mas é um País inteiro a voar rasteirinho !
2. Com o nosso fraco crescimento médio anual, a falta de IDE, a desesperança da População ( fraca natalidade, emigração continua dos Portugueses , envelhecimento da População, desertificação de largas zonas do País,etc) o FUTURO não se afigura risonho. Não há discurso que disfarce estas realidades.

RosaPratas, | 23/07/10 09:30
Apreciei muito os últimos dois parágrafos do seu texto.
Efectivamente,os nossos dirigentes políticos, a maior parte, infelizmente, não é responsável, têm muita falta de maturidade e de cidadania, apenas preocupados com o show business da sua profissão.

publicado por ooraculo às 18:12
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