Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

A "solução"

 

Há dez milhões de portugueses que têm uma solução para a crise em que vivemos e, de entre eles, umas tantas dezenas dizem-no e escrevem-no todos os dias: a solução está no crescimento económico. Houvesse crescimento económico e tudo estaria bem - os salários e o emprego, os subsídios e as pensões, os défices e as dívidas, a educação e a justiça, a saúde e o bem-estar. Se sabemos isso tudo, por que não fazemos nada?

Observemos os gráficos abaixo, começando pelo da esquerda. No período 2004-09, a Europa do euro cresceu 4% (0,8% ao ano) e Portugal apenas um terço disto; e, para o período 2009-11, prevê-se que a Europa cresça 2,4% (1,2% por ano) e Portugal apenas metade. Comparemos estes números com os dos Estados Unidos, da América Latina e dos países asiáticos: a diferença é abissal. A Europa bloqueou e Portugal é o seu elo mais fraco.

Vejamos agora o gráfico da direita, que reflecte o crescimento português e os motores que lhe servem de suporte. No período 2004-09, o impulso foi dado pela procura interna. Quando esta caiu a pique, o PIB caiu a pique. Mas, ao projectarmos o período 2009-11, e o seu crescimento paupérrimo, o único impulso visível é o da procura externa. Moral da história: dos dois motores que suportam a economia, um está parado e o outro ferrugento.

É este o nosso mundo. Um mundo de paradoxos. O endividamento louco a que chegáramos, e que os credores nos obrigaram a travar, não nos deixava alternativa: precisávamos de um plano de austeridade duríssimo, em que os sacrificados só poderiam ser o consumo e o investimento. Até aqui, tudo bem. Mas sucede que são estes cortes no consumo e no investimento que, ao travarem a procura interna, hoje nos impedem de crescer. Como é que se sai disto?

Muitos dos dez milhões de que falei acima também têm a resposta pronta: é preciso aumentar as exportações. Nada a opor. Vejamos então a melhor forma de o conseguir. No plano interno, precisamos de melhorar a organização e de baixar os custos de fabrico, ou seja, optimizar a oferta. No plano externo, precisamos de seleccionar os destinos e de convencer os clientes, ou seja, optimizar a procura. Se fizermos tudo isto, o mundo voltará a sorrir.

Fica só uma dúvida: como é que isso se faz?

 

O ESTADO DA ECONOMIA

Parceiros instáveis...(PIB, 2004=100)  Motores ferrugentos (Economia portuguesa*)
   

 

Por comparação à escala mundial, o crescimento do PIB na Zona Euro e no quinquénio 2004-09 foi uma lástima; e o crescimento português não foi além de um terço da média europeia. Mas as perspectivas para 2009-11 não são melhores: o PIB na Europa do Euro não deverá ir além de 1,2% ao ano; Portugal talvez chegue a metade disso. Os nossos motores deixaram de funcionar...

 

Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

mrrm , | 30/07/10 18:15
Os gráficos não estabelecem se é PPP ou sem paridade cambial. Não estabelecem correlações com o crescimento ou decrescimento populacional (não estabelecem se é PIB real ou nominal) e não levam em conta as últimas revisões do PIB dos EUA que vincou muito mais esta última recessão.
São fundamentos pouco claros e considerados muito superficiais em Ciência Económica. Para comentário de politica servem, mas tão somente neste nível superficial.
Sai-se "disto", toda a gente que vê um pouco mais fundo sabe-o, quando as exportações forem 40% do nosso PIB.
MMartins-Sintra

RosaPratas , | 30/07/10 11:29
Já sabemos tudo isso e há muito tempo, mas o autor nunca diz, pelo menos de forma directa, que o problema de de falta de liderança política e empresarial.É a única solução para o crescimento económico, para a credebilidade internacional e educação e qualificação do povo português.

alberto , | 30/07/10 11:16
Crescimento económico, sem dúvida. O problema é saber à pala de quê? Do consumo não será certamente, como o foi na 1ª década, investimento privado não me parece, investimento público estamos conversados, só pelas exportações, mas aí a competitividade e a produtividade falam mais alto e não estamos nada bem. Julgo que sem alterações estruturais na organização da Europa e sem a Alemanha assumir que não pode ter excedentes brutais à custa do resto da UE, em especial dos países do sul, não há nada feito. Vamos empobrecer e bastante e a coisa vai demorar mais de uma década a compôr-se.

Domador da Fera Morta , PORTO | 30/07/10 09:36
Infelizmente, tenho uma opinião bastante pessimista! Não sou péssimista, a realidade é que o é!
Sucintamente, devo dizer que sou grande fã dos chamados "Rácios". E tendo em conta o rácio do valor da percentagem de dívida pública em função do crescimento (aplicável a qualquer país), verifica-se que quando a dívida pública atinge patamares próximos ou superiores a 90%, o crescimento dificilmente cresce acima de 1.5%. Nesta relação, quanto maior, for a % de dívida em relação ao PIB, menor é o crescimento!
Isto acontece, porque o Estado, para fazer face, à cada vez maior despesa com os juros da dívida, tem de aumentar impostos (e cortar despesa), retirando desse modo, liquidez necessária para o crescimento económico.
Este "filme de terror", só poderá ter um epílogo - Incumprimento do Estado, FMI, e corte BRUTAL numa porrada de serviços e regalias do Estdo numa só assentada.
Mas parece que ninguém quer acreditar! Sonhemos então........

Realista , Porto | 30/07/10 08:56
Concordo com o autor em que o problema básico é o crescimento ou a falta dele. Mas para mim ha uma causa do fraco crescimento da Europa e de Portugal e de que ninguem fala. Posso escrever em maiúsculas outra vez? A CULPA É DO MALDITO CAMBIO EURO- DOLAR OU, SE PREFERIREM, DA MALDITA POLÍTICA MOMETARIA DO BCE (DA ALEMANHA). O EURO NASCEU HA 8 ANOS SALVO ERRO COM UMA RELAÇÃO 1 EURO = 0,9 DOLARES. EM 8 ANOS PASSOU PARA 1 EURO = 1,45 DOLARES. FOI BRUTAL. ISTO NÃO FAZ MAL À ALEMANHA (QUE, TAL COMO O JAPAo, SERÁ SEMPRE EXCEDENTARIA.) MAS MATA-NOS A NÓS E À RESTANTE EUROPA. O CAMBIO COM O DOLAR NÃO AFECTA SÓ AS EXPORTAÇÕES PARA OS EUA. AFECTA TODAS AS EXPORTAÇÕES, INCLUINDO AS EXPORTAÇÕES PARA A PROPRIA UE. ESTANDO O EURO SOBREVALORIZADO É EVIDENTE QUE OS PRODUTOS DE TERCEIROS (CHINESES E EUROPEUS DE LESTE) RESULTAM MAIS BARATOS. ISTO JÁ VEM DE MUITO ANTES DA CRISE. LEMBRAM-SE DOS JUROS BAIXOS DOS EUA E ALTÍSSIMOS AQUI NA EUROPA DEVIDO AO BCE? EU SÓ VEJO UMA SAÍDA: OU A ALEMANHA SAI DO EURO OU A SRA MERKEL SAI DA ALEMANHA E É SUBSTITUIDA POR ALGUM QUE PENSE EM TERMOS DE EUROPA.

LOPES CARLOS , Bélgica | 30/07/10 07:38
1. Gosto das 6as Feiras de manhã por diversos motivos . Mas, um deles é poder ler os excelentes e FUNDAMENTADOS artigos deste Autor ( já era assim nos tempos de O JORNAL ).
2. Nas minhas intervenções cito regularmente o nosso crescimento de 2000 a 2009 ( já comprovado) e de 2011 a 2017 ( previsões da OCDE) e chego às mesmas conclusões.
3. Aqueles que escamotearam o peso da DIVIDA EXTERNA e a gravidade do DEFICE CRONICO criaram um clima artificial neste País. Mas, os problemas de fundo são : produtividade, competitividade, excesso de importações de energia e de alimentos.
4. Como sair disto ? Desde 2/2/2006 que TODOS sabem um dos caminhos possiveis : dizer a Verdade ao País, Mudar de Vida ( Paradigma) , Apostar na Mudança através de Reformas Concretas ( como se fêz na Seg.Soc.), Apostar em 4 ou 5 Grandes Sectores ( Quem abraça muito abraça mal) e Informar o Pais regularmente com realismo e verdade sobre os progressos efectivos alcançados. Confiança sim ! Mas fundamentada e realista ! Basta de fantasias !
publicado por ooraculo às 18:20
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds