Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

Os pirómanos

 

Admitamos que a execução orçamental em 2010 vai terminar com um défice de 7,3% do PIB, tal como previsto. Admitamos ainda que o enquadramento macroeconómico em 2011 será o do último boletim do Banco de Portugal e que as receitas evoluirão em linha com esta previsão. Para atingirmos o objectivo que nos propusemos, de um défice não superior a 4,6% do PIB, as despesas terão de cair cerca de três mil milhões de euros.

As despesas em 2010 vão ser da ordem dos 80 mil milhões de euros. Atribuindo-lhe um índice de 100, obtemos a seguinte distribuição: 23 para salários, 45 para prestações sociais, 7 para juros e 25 para diversos, incluindo o investimento. O que significa que 75% destas despesas são rígidas e tendencialmente crescentes. Sejamos intelectualmente honestos: para atingir aqueles 4,6% é necessário aumentar os impostos e/ou reduzir os salários e as pensões.

O busílis está aqui. O cenário, ainda que inevitável, é de uma enorme violência. E não é crível que as oposições ao Governo estejam dispostas a colaborar. Pelo contrário, o que se antecipa é o linchamento: o PCP e o Bloco, por razões políticas; o PSD e o CDS, por razões estratégicas - que importa o país, se o odioso cair sobre o PS? Enfim, o OE-2011 deverá ser chumbado. Espanta-me sobretudo o PSD, que aspira a ser governo: continua a dar tiros nos pés.

O chumbo do OE-2011 poderá ter várias implicações: a revisão do documento, a demissão do Governo, a aplicação de duodécimos, etc. Passo por cima de todas elas para me centrar na que é mais importante: o falhanço perante Bruxelas. A reacção só pode ser agressiva e eu receio o pior - a expulsão do euro. Claro que esta figura não está prevista. Mas, no dia em que os financiadores nos abandonarem, qual é a alternativa?

Imaginemos então o regresso ao escudo. O passo seguinte é a contratação de um FMI qualquer, que nos imporá a receita do costume: desvalorizações brutais, inflação galopante, salários decrescentes, endividamento louco. E como as taxas de juro também deverão subir, o crédito à habitação poderá tornar-se ingerível, transferindo para o sistema uma bolha de consequências inimagináveis. Vou medir bem as palavras: podemos estar à beira de uma tragédia.

Por favor, não brinquem com o fogo.

 

d.amaral@netcabo.pt

 


Comentários

A. Lopes , | 06/08/10 14:17
Daniel Amaral fala simples e claro, sem chavões. Se o PSD não aprovar o orçamento de 2011 e pensa que fará melhor, então deve fazer cair o governo e ir para eleições. O país não pode estar à mercê de calculismos estéreis.

trucla , | 06/08/10 13:34
E faltam aí umsa coisinhsa: toda a nossa dívida está denominada em euros. Com a (re)criação do escudo, é evidente que o seu valor não se manteria nos 200.482 da sua origem. Imediatamente o peso da dívida sobre o PIB aumentaria de forma brutal! (uma vez que a dívida se manteria em euros) Por seu turno, a desvalorização do PTE face ao euro teria um provável efeito inflacionista grave, mesmo em clima de recessão - ou seja, mais um imposto... no entanto, parece-me irreal considerar como verosímil qualquer cenário de saída/expulsão do euro... wishful thinking?...
Rosa seca , Aldeia do fio dental - Pântano | 06/08/10 12:02
Óh sr. dr. Daniel Amaral e que tal se aumentassem o irc à banca, isto é, passassem dos actuais 4,3% para 25%? É que os 5 maiores bancos têm lucros de 4 milhões de euros por dia, cerca de 1460 milhões/ano, pagam só 62 milhões de impostos, quando deveriam pagar 365 milhões/ano, resumindo e concluíndo o estado fica sem receber 303 milhões. Outa coisa porque não acaba o governo com os famigerados subsídios/privilégios de alojamento/residência atribuidos pelo actual ministro das finanças a vários: ministros, secretários de estado, chefes de gabinete, directores regionais e presidente do conselho social? Porque não reduzem as despesas com a assembleia da república, cujo orçamento/2010 prevê uma despesa total de 196 milhões de euros? Porque é que o governo aumentou em Maio deste ano os militares, gnr e psp em 1,5%?. Enfim se cortassem alguns nacosinhos nestas despesas e aumentassem a taxa de irc à banca altamente lucrativa (25%), tributassem as mais-valias da pt obtidas com a venda da vivo à telefónica e acabassem com os offshores incluindo o da Madeira, talvez o défice de compussesse/reduzisse mais facilmente! O que o sr. dr. Daniel Amaral acha destas humildes ideias? Não serão exiquíveis?

Norberto de Serpa , | 06/08/10 11:12
A irracionalidade portuguesa é um acto pirómano. No concreto, as vendas de veículos ligeiros de passageiros subiram 18,3% em VH no mês de Julho. na França e Reino Unido caíram 13,2% no mesmo período. Preocupa-me todos os tipos de comentários que têm como objectivo "lixar" o próximo, desde que não toque em mim.

Domador da Fera Morta , PORTO | 06/08/10 10:36
Caro Daniel Amaral,
Acredito que o Sr esteja pejado de razão! No entanto é pertinente colocar uma questão:
- Se na pior hipótese, Portugal tiver que sair do euro e vier o FMI, teremos então que tomar várias medidas "draconianas", e iremos concerteza tomá-las; desse modo, por que raio de razão, está-se a espera desse dia, em vez de fazermos já o que é imprescindível fazer?
É que se fizermos agora, concerteza que as medidas não precisavam de ser tão duras - até porque o prazo de execução seria maior.
A única explicação que encontro para isto, é por causa das Eleições. Sendo assim, sou obrigado a concordar com a Manuela Ferreira Leite - " suspenda-se a Democracia por (pelo menos) 6 meses".....

alberto , | 06/08/10 10:33
O que aí vem não vai ser bonito de ver. O governo encarniça-se em não reduzir a despesa geral, a ministro do trabalho tem um lapsus lingue sobre aumentos dos funcionários, a redução do poder de compra via aumento do IRS é recessiva e não contribui para a competitividade do país por via da redução do custo do factor trabalho, isto é uma embrulhada sem nome. O país não tem capacidade de sair sózinho deste atoleiro, venha a UE e o FMI, e rápido.

Cidadão , | 06/08/10 10:25
Também acho que não devemos brincar com o fogo. Então todos os portugueses devem ter direito a ADSE. Como deve ser o seu caso e isso não a incomoda porque vai ao estado receber e um dia até o lar de idosos o estado lhe paga. O sector privado paga tudo, mas isso só nos incomoda a nós que pagamos. De facto enquanto houver tanto fp e tanto subsidiodependente o resto dos portugueses continuam a pagar para vocêm usufruirem. Abdique da ADSE se está assim tão preocupada com o estado do País. Não votarei nunca em quem não reduzir os impostos. A média de descontos da fp é 30 anos, no sector privado tem que ser acima dos 40 anos para as pessoas terem uma reforma melhor. Quem dá tiros nos pés!?

Realista , Porto | 06/08/10 09:21
Concordo em que a aprovação do OE para 2011 vai ser muito importante (mas muito difícil) para a recuperação da situação financeira actual. O comentador <Curioso este Daniel Amaral> está a fugir à realidade. Que interessa agora que nos últimos 15 anos o PSD só tenha estado 3 no governo? Olhemos para a realidade. Não ha tempo a perder. Parece que a Grécia está a conseguir. Mas o caminho vai ser muito longo. Mas discordo do autor num ponto: a possivel saída de Portugal do euro. Sejamos honestos e digamos a verdade. PORTUGAL SÓ SAI SE A ESPANHA SAIR. E FICA SE A ESPANHA FICAR. A GUERRA DOS NEOLIBS E DA ALEMANHA EM ESPECIAL É CONTRA A ESPANHA. PORQUE SE A ESPANHA SAIR ELES SABEM QUE GRECIA, PORTUGAL, MALTA, ETC VÃO ATRÁS E ISSO JA REPRESENTA ALGO. PORTUGAL SOZINHO NÃO AQUECE NEM ARREFECE OS ALEMÃES. SÓ ASSIM SE JUSTIFICA O ATAQUE DOS ALEMÃES À ESPANHA.

Xxx , | 06/08/10 09:01
Mas ainda esta semana recebemos a notícia de que o governo se prepara para contratar mais 6000 FP. Assim não se consegue controlar a despesa.

LOPES CARLOS , Bélgica | 06/08/10 07:35
1. Como sempre, o Autor apresenta com clareza o dilema nacional : aumentar os impostos E/OU baixar os ( geralmente baixos/as) salários e pensões.
2. Desde 2/2/2006 todos sabiam clara e oficiosamente que assim seria . Invocar agora surpresa é de uma grande indigência intelectual .
3. Dada a taxa de esforço real a que os Portugueses vão ser submetidos nos próximos anos PARA EVITAR A TRAGÉDIA , não basta aprovar o OE 2011. É preciso mais : é preciso que as Forças Politicas com assento parlamentar, os Parceiros Sociais ,as Forças Espirituais , as Universidades,etc se reunam à volta de uma Mesa Nacional e firmem UM PACTO para 5 anos , escrito, formal e calendarizado. Se não se fizer isso , será a tragédia anunciada .
4. Que se calem as vuvuzelas dos optimistas /pessimistas e dos discursos tolos contra os Velhos do Restelo. Abram os olhos !

Curioso este Daniel Amaral , (os xuxialistas socráticos agarram-se ao poder com unhas e dentes) | 06/08/10 02:35
Curioso, este Daniel Amaral... Revela que o nosso pobre país (hoje em dia mero protectorado financeiro da Alemanha e cada vez mais uma colóniazita económica e cultural da Espanha) está à beira da bancarrota, do desastre, da tragédia, etc, mas depois as únicas palavras duras que encontram são para o... PSD - que governou dois anos e meio nos últimos 16 anos. Muito curioso... Democracia para esta gente é o maior partido da oposição viabilizar o orçamento de Estado ao fim de seis anos de governo socialista sucateiro irresponsável e incompetente socrático, faça chuva ou faça sol. Por causa desta alta concepção da democracia é que o nosso país é a risota da Europa...

publicado por ooraculo às 17:05
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