Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

Motores ferrugentos

 

Voltemos à vaca fria. O crescimento económico é suportado por três motores: o consumo, o investimento e o comércio externo. O consumo, devido às medidas de austeridade para combater o défice, está de rastos. E o investimento, à míngua de confiança empresarial e de financiadores disponíveis, desapareceu. Resta-nos, então, o comércio externo, e daí o slogan que já virou moda: é preciso exportar, exportar, exportar. Estamos a conseguir?

Consultei as estatísticas ao longo da última década. De um modo geral, as exportações têm crescido bem, se exceptuarmos o ano de 2009, em que caíram a pique, como de resto em todo o mundo. Mas há um fenómeno preocupante: apesar deste bom crescimento, perdemos cerca de 10% de quota de mercado, sintoma óbvio de que o comércio internacional cresceu muito mais do que nós. Tudo ponderado, a nossa performance desiludiu.

Acresce que não é correcto analisar as exportações isoladamente. Elas só fazem sentido quando comparadas com as importações. E o confronto entre ambas é trágico: o saldo tem sido sempre negativo e da ordem dos 10% do PIB em cada ano. Tivéssemos nós compensado o fenómeno com poupança interna e tudo estaria bem. Mas poupança é algo que detestamos. Daí o endividamento louco que fomos acumulando e hoje nos estiola o juízo.

Há várias razões para explicar o que aconteceu. Primeiro, razões externas: a crise de 2008-09 foi a mais dolorosa desde os anos trinta do século passado, e alguns países emergentes, com destaque para a China, surgiram nos mercados com preços de tal modo baixos que não deixavam margem a qualquer confronto. Depois, razões internas: por muito que nos custe, nunca tivemos, nem produtividade do trabalho, nem eficiência empresarial que nos habilitassem à compensação.

Com isto chegamos aos números de 2010, que tanto alegraram os nossos governantes. É verdade que, no primeiro semestre, as exportações cresceram benzinho (15,1%), mas estão comparadas com o grau zero de 2009, o que não é mérito nenhum; e as importações, embora crescendo menos (10,6%), continuaram de valor superior, devido a uma base mais alta. O défice continuou a agravar-se. Eis o estado dos nossos motores: estão os três ferrugentos.

Assim não vamos lá.

 

d.amaral@netcabo.pt


Comentários:

 

Realista , Porto | 20/08/10 11:39
Artigo claro, simples e correcto. Queria só acrescentar 2 notas. 1- Fala-se muito no aumento das exportações e esquece-se as importações. Eu creio que nas trocas com a UE até estamos equilibrados. O problema surge nas trocas com terceiros paises devido aos combustíveis. Esses "sabios" ex-ministros das finanças e da economia que agora andam atrás das saias de Cavaco esqueceram-se do problema energético e das barragens. A Espanha tem 6 centrais nucleares activas e, sendo um país relativamente plano, tem proporcionalmente mais barragens do que nós. Esses ex-ministros esqueceram-se tambem da agricultura e das pescas. Éste ano só vamos produzir 25% dos cereais que consumimos. Creio que em produtoa agriculas só somos suficientes em leite e carne de frango. Nas pescas nem é bom falar. Conhecem aqui a Galiza? Que diferença. 2- Quanto às exportações estamos muito dependentes da política cambial da....zona euro. O cambio Euro/Dolar é decisivo. De pouco adiantaria, por exemplo, reduzir os salários (como alguns sabios pretendem) se depois o cambio passasse (como se calhar vai passar) para 1 Euro > 1,5 dolares. No incremento das exportações no 1 semestre já se notou a recente queda do Euro. O que interessa à Alemanha não interessa nada a Portugal.

antioxidante , | 20/08/10 10:58
O sr orientou o seu artigo para as exportações e importações. No entanto não faz referência à qualidade dessas exportações e dessas importações. Seria interessante ver a evolução que se deu neste campo. Quando se fala de motores ( usando a sua metáfora) temos de atender à marca e à origem, que determinam a qualidade. Deve conhecer aquela frase " capéus há muitos..." , sem ofensa.

vg , | 20/08/10 10:42
Para rigor, faltou analisar as fontes de festejado crescimento do 1ºsemestre e que são de material de transporte,da Auto-Europa e refinados da Galp.Nada a ver com os incentivos deste incompetente e mentiroso governo,O coveiro do país..

J. Maia Alves , | 20/08/10 08:59
Bem exolicado, em termos compreensíveis. Só não concordo com o "performance". Que tal substituí-lo por "desempenho"?

Norberto de Serpa , | 20/08/10 08:57
Mas há soluções. Não estão na verdade ao alcance dos actuais políticos.
publicado por ooraculo às 17:58
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