Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

Ao pé-coxinho

 

Os gurus da economia andam baralhados. Esta é uma recessão em U, com a retoma já de volta? É uma recessão em W, tipo sobe e desce para gozar connosco? Ou é uma recessão em L, onde sabemos que começou mas não quando irá acabar? Experimentem consultar os astros. Há respostas muito elaboradas, muito científicas, que convergem num mesmo ponto: eles não sabem! Eu também não, mas vou procurar responder.

Façamos a distinção entre países desenvolvidos e países emergentes. No primeiro caso, a recessão começou no segundo trimestre de 2008 e terminou no segundo trimestre de 2009. Mas a retoma é enfezadinha, benza-a Deus: assenta num L de perna curta, que tanto pode subir como afundar. Já os países emergentes acomodaram uma recessão em V, toca e foge. Projecções para 2010: o PIB europeu talvez cresça 1,2%; o da América Latina deverá crescer 6% e o da China 10%. Que acham destas "crises"?

Mas os ricos não gostam de lidar com os pobres. Preferem comparar-se entre si. Por exemplo, Zona euro versus Estados Unidos: no primeiro trimestre, os americanos foram melhores; no segundo, foram melhores os europeus; ficámos quites. Mas se a comparação for entre os EUA e a Alemanha, damos uma abada: neste primeiro semestre, a relação foi quase de 2 para 1, favorável aos alemães. Toma e embrulha, Barack Obama.

A Alemanha é um ‘case study'. A sua estrutura é saudável: para um PIB igual a 100, 74 vão para consumo, 20 para investimento e 6 para reservas, associadas a ganhos com o exterior. Voltou a ser assim este ano. A Alemanha prefere aforrar a distribuir. O que levou a este cenário caricato: a venda de carros alemães aumentou em todo o mundo - mas diminuiu na Alemanha! Os alemães aderiram ao modelo chinês...

Uma nota sobre Portugal. Dentro do espaço europeu, fomos dos países que caíram menos e dos que mais depressa recuperaram. O ego de Sócrates chegou o cume do Everest. Mas, depois disso, limitámo-nos a andar por aí: tristonhos, incrédulos e meditabundos. Neste último trimestre, crescemos apenas 0,2%: um quinto da Zona euro, um décimo da Alemanha. E, como a política vigente é de extrema contenção, não me surpreenderia que assim continuássemos até pelo menos 2013.

Esta retoma, no geral, é coxa. A nossa é ao pé-coxinho.

 

A MARCHA DA ECONOMIA

 Recessão profunda...

(PIB, variação (%)*

 ...retoma lenta

( PIB, variação (%)*

   

*Em relação ao trimestre imediatamente anterior.

 

Depois do fundo do poço, no início de 2009, a economia europeia tem vindo a recuperar um pouco. Realce para a Alemanha, a atingir uma taxa trimestral anualizada de 9% (!). Já a economia portuguesa não ata nem desata. No confronto entre a Zona euro, por um lado, e os EUA e o Japão, por outro, os americanos voltaram a recuar, enquanto os japoneses vivem uma das crises mais graves de sempre.

 

Fonte: Eurostat.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 Navalhadas , | 27/08/10 16:23
Eu gostava de saber porque é que existem licenciaturas/mestrados em Economia???
Já repararam que qualquer professor Fofana, Karamba, Mamadu, consegue fazer exactamente as mesmas previsões... exactamente as mesmas, ah e levam menos dinheiro.

Bom, só têm um problema, não passam factura...

vg , | 27/08/10 16:15
Ó Geraldo ,com 30 anos e ainda aqui está?Este país é para velhos -de idade e mentais-e crentes do socratismo.Sem futuro...

Geraldo , | 27/08/10 15:43
Para o senhor Realista confirmar se isto também é subjectivo:
2002: 0,81% ; 2003: -0,85% ; 2004: 1,56% ; 2005: 0,94% ; 2006: 1,4% ; 2007: 1,87%; 2008: -0,02% ; 2009: -2,52%.
Estes são os valores do crescimento do PIB a preços constantes para Portugal. Fonte: Pordata
Que você se contente com estes números, não posso fazer nada. É por causa de pessoas egoístas, pequenas e economicamente iletradas que pessoas como eu (com 30 anos) vão ter de arcar com os crimes que andam a cometer em Portugal com esta actuação. E não é graças ao meu curso de Economia que consigo concluir isto, basta bom senso

antonio , Lisboa | 27/08/10 14:55
Tenho muitas duvidas sobre estas analises. Eu sei que o autor se baseia em estatisticas... mas as estatisticas não passam disso, estatisticas. Mas a maneira como os analistas, economistas e gestores e outros fazem as analises e justificam aumentos e perdas custa-me a aceitar. Pela manha quando da RTP 1 ligam a um jornal para analise da bolsa e custo do petroleo todos os dias ha uma desculpa,um dia desce porque o desemprego nos estados unidos subiu 1% no outro dia sobe porque o numero de pessoas que pediram subsidio de desemprego nos Estados Unidos baixou no outro o petroleo sobe porque a economia americana cresceu 0.0003% num trimestre no outro desce porque os stocks aumentaram nos Estados Unidos. Houve uma altura que a desculpa para o preço do petroleo era que estava a terminar dentro de poucos anos, nos ultimos anos descobriram reservas gigantescas mas não baixou o preço na mesma medida. Não seria mais facil dizer que o sobe e desce das bolsas e das materias primas tem a ver quase que exclusivamente com os especuladores.
Realista , Porto | 27/08/10 09:46
Gostei muito do artigo, que acho correcto. Srs <Geraldo> e <Norberto de Serpa>, o autor baseia-se nas estatísticas, vocês é que estão a ser subjectivos. Tambem gostei muito do comentario de <Leão da Estrela>. De facto os economistas têm-se fartado de atirar bolas fora ao ponto de a profissão precisar de ser reinventada. Mas deixe-me acrescentar uma coisa: sabe porquê? Porque muitos economistas são presa fàcil da sua ideologia (neoliberalismo ou keynesianismo). O artigo anterior, da Marta Rebelo, pôe o dedo na ferida. Faz algum sentido andarem a lutar pelos 3% em 2013, esquecendo-se o crescimento? Faz algum sentido estar todo o mundo com os olhos postos nos paises da zona euro quando os EUA e o UK estão bem pior? Faz algum sentido continuar-se com os off-shore, o short-selling, as agencias de rating, os CDS, etc? Para quê? Com que finalidade?
Geraldo , | 27/08/10 09:00
Se falar da economia usando expressões como "abada" ou "toma e embrulha" já é demasiado coloquial, pior é quando se usa falácias como a de que dentro do espaço europeu Portugal foi dos que caiu menos.
Se o país não cresce desde 2001, era de esperar que fosse Portugal o país com maior quebra de PIB (é que Irlanda e Espanha estavam a crescer a 3% ou mais)??? Claro que não. Mas pronto, muitos gostam de fazer análises estatísticas não longitudinais para cumprir os seus objectivos de enganar a maioria das pessoas
Norberto de Serpa , | 27/08/10 08:40
...fomos dos países que caíram menos e dos que mais depressa recuperaram...há tantas maneiras de ler os mesmos números, enfim!
Leão da Estrela , Pateo das cantigas. | 27/08/10 07:24

Entendo haver dois tipos de economistas:

- Os que "mandam uns palpites" para favorecer uma determinada estratégia de uma empresa, de um sector da economia, fazendo assim umas "favorzadas" para tentarem influenciar o "poker".

- Os restantes,são arqueólogos do passado, que com algumas "ossadas" da ultima crise, ou da grande depressão, esforçam-se por arranjar uma fórmula quase matemática para antecipar o futuro.

Quanto aos primeiros engrossam o "batalhão" de mercenários a soldo da especulação e da "Economia de Casino", em relação aos segundos presumo estarem mais perto da desilusão dos alquimistas.

Concluíndo:

- O "lugar ao sol" do economista está cada vÊz mais ensombrado....já nem precisam de protector solar, é preciso reinventar a profissão.

publicado por ooraculo às 18:19
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