Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

Passos em falso

 

Detesto comícios. Mas leio com gosto o que a seu respeito escrevem os jornais. No último comício do Pontal, Passos Coelho exigiu ao Governo duas condições para viabilizar o próximo orçamento: travar a despesa e não aumentar os impostos. E, à cautela, precisou a linguagem: cortar nas deduções fiscais é aumentar impostos. Achei pouco. Então o PSD aceita despedir funcionários, baixar salários e diminuir pensões? Se for assim...

Já fiz aqui as contas. Para que o défice de 7,3% do PIB em 2010 caia para 4,6% do PIB em 2011 são necessários cerca de três mil milhões de euros. E os salários, as prestações sociais e os juros da dívida "comem" só por si 75% das despesas totais. Manda o bom senso que sejamos realistas. O cumprimento daquele défice em 2011, hoje um imperativo nacional, tem de passar por uma de duas vias: aumento de impostos e/ou diminuição do Estado social.

Do estrito ponto de vista do orçamento, aumentar receitas ou diminuir despesas é indiferente. Mas não é indiferente a forma como cada uma dessas medidas afecta a vida das pessoas. Se os partidos políticos fossem responsáveis, e quisessem como dizem apenas o bem do país, teriam aqui uma excelente oportunidade para o demonstrar. Em vez de se porem aos gritos exigindo utopias, fariam cedências mútuas em busca de uma solução consensual.

A responsabilidade maior neste caso vai para o PSD. Não que ele seja diferente dos outros, mas porque é a única oposição que aspira a ser governo. Mas o PSD de Passos continua a dar passos em falso. Vai ao bornal da demagogia e atira para o ar as bocas de que os papalvos gostam: "exigimos cortar na despesa!". E que tal uma proposta concreta sobre as rubricas e os montantes onde aqueles três mil milhões devem ser cortados?

Em artigo anterior sobre o tema, pressupondo um mínimo de coerência política, admiti nesta coluna que o país poderia estar à beira de uma tragédia, já que o próximo orçamento iria ser chumbado. Mudei de ideias. Hoje admito que, na hora da verdade, o PSD vai fazer um discurso inflamado, vai dizer que este é o pior Governo que já tivemos, vai chamar a Sócrates todos os nomes feios de que se lembrar - e depois abstém-se, para que o orçamento passe.

Os fracos são assim.

 

DESPESA PÚBLICA

Difícil de gerir...

(% do PIB)

 ...d

ifícil de controlar

(% do PIB)

   

 

As despesas do Estado ultrapassaram os 50% do PIB em 2009, o que parece excessivo. Mas, na sua grande maioria, são despesas correntes, sintoma de que o investimento público já foi espremido até ao limite. Dentro das despesas correntes, cerca de 90% são despesas "intocáveis", por mexerem directamente com a vida das pessoas. Governo e Oposições têm de explicar tudo isto e ainda não o fizeram.

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 
 
Comentários
quem sou eu ? , ALGURES | 03/09/10 17:33
Quando tinha trinta e seis anos, finalizou a sua licenciatura em Economia, pela Universidade Lusíada de Lisboa (2001). Foi consultor da Tecnoforma (2000-2004), consultor da LDN Consultores (2001-2004), director do Departamento de Formação e coordenador do Programa de Seminários da URBE - Núcleos Urbanos de Pesquisa e Intervenção (2003-2004), até ingressar como director financeiro no Grupo Fomentinvest (2004-2006), tornando-se num dos braços direitos de Ângelo Correia.

Pedro , Viseu | 03/09/10 14:45
Os que acharem que o País está mal defendem alternativa, os que acharem que o País está bem (ou têm medo de mudança) defendem o mais do mesmo...
Já agora Sr. Ricardo, acabei o curso com 34 anos e de certo sou muito mais competente que aquilo que o Sr. defende... Ao menos sabe qual o significado da palavra competência????

Eu nunca fiz nada na vida, tudo me foi dado , ALGURES | 03/09/10 13:13
Quando tinha trinta e seis anos, finalizou a sua licenciatura em Economia, pela Universidade Lusíada de Lisboa (2001). Foi consultor da Tecnoforma (2000-2004), consultor da LDN Consultores (2001-2004), director do Departamento de Formação e coordenador do Programa de Seminários da URBE - Núcleos Urbanos de Pesquisa e Intervenção (2003-2004), até ingressar como director financeiro no Grupo Fomentinvest (2004-2006), tornando-se num dos braços direitos de Ângelo Correia.

alberto , lisboa | 03/09/10 12:25
Caro articulista, respeito-o e admiro a sua capacidade de escrever e apresentar claramente os seus pontos de vista. Tem toda a razão, se não se cortar em 75% da despesa, não se corta nada de facto. O governo já decidiu cortar nos apoios sociais, aumentar os impostos para níveis inimagináveis tendo em conta o que os cidadãos recebem de volta, e esperaria que a massa salarial nominal do Estado crescesse zero , o que seria já uma benesse face à necessidade de cortes reais. O PS gere o país quase sem interrupção há muito tempo, não se livra da responsabilidade de ter ajudado a chegar onde hoje estamos. Portugal precisa de mudança e, se nada se fizer para resolver as coisas, vai precisar do FMI, mas há uma coisa já assegurada: níveis elevados de desemprego e empobrecimento gradual. E isto, de tão grave, justificaria uma mudança política a curto prazo, mal não faria, pelo menos...

Ricardo , Lisboa | 03/09/10 12:12
Caríssimo Joaquim Oliveira de Gondomar,

Falou de tirar este governo do poder e de colocar as pessoas mais competentes à frente do país. Está a defender colocar à frente do país o senhor Passos Coelho, que apenas acabou o curso aos 36 anos e numa escola privada? Que fez ele durante 18 anos a frequentar a licenciatura? duas disciplinas por ano? Isso é competência?

Emanuel , ALGURES | 03/09/10 11:14
Muito bem simples e realistas !!!

vg , | 03/09/10 10:57
Portanto ,para este plumitivo,o PSD não deve exigir corte nas despesas .Tal qual o fizeram o BCE e Comissão de Bruxelas.Nem devam ser atribuídas responsabilidades politicas a quem deixou o desastre prosseguir.Chamem o FMI que eles vão dar a receita..


bettencourt de lima , lisboa | 03/09/10 10:52
Com um torção violento.

É muito difícil fazer vingar um novo partido em Portugal. O espaço está, até certo ponto, preenchido e os votantes ou mudam de sentido de voto ou desistem. Raramente se fixam em novas formações. Por isso,
pessoas que «cresceram politicamente» à sombra do PSD, agora, firmada a respeitabilidade e carteira, pretendem, com um torção violento, de guinada em guinada remetê-lo para a direita do CDS, espaço que julgam mais conforme com o seu actual «estatuto». A forma como se esgueiram para a redoma dos «barões» e das «elites» faz prenunciar um total desrespeito por aqueles que neste partido têm votado.
A queda abrupta nas intenções de voto assustou-os e, vai daí, o discurso resvalou rapidamente para a incoerência, afirmando tudo e o seu contrário. Instalou-se, todavia, a desconfiança entre as bases e já se pensa em Rui Rio. A máquina trituradora de «líderes» destroçará os que ignorarem ou subverterem a matriz ideológica que o fez crescer?

EN GANADOR , PORTO | 03/09/10 10:39
Caro Daniel,
É evidente que o PSD tem responsabilidades perante o País, sendo um partido político! Mas é bom não esquecer que nos últimos 15 anos, aoenas foi governo durante 3 anos, e isso já foi à 5 anos!
Quem é Governo actualmente é o PS!!!!!!! E é a estes que se tem de pedir A RESPONSABILIDADE MAIOR!
Dá-me a ideia que você quer à viva força, atirar responsabilidades para os outros, quando a realidade aperta. Se e quando o PSD for Governo, então sim, pode e deve "largar os cães", até lá arranje outro a quem se atirar....

NapoLeão , | 03/09/10 10:10
Detesta comícios ? Mas detesta muito ou detesta pouco ? Acaso o meu caro Daniel sabe avaliar a "importância" dos comícios, das romarias, festivais, idas ao aeroporto "saudar" a selecção do Madaíl, das peregrinações a Fátima, do chavascal das claques da JuveLeo, SuperDragões ou NNBoys ? E as "conferências de imprensa" da saudosa Fátima de Felgueiras, do "prof." Queiroz, do casal McCann, das novelas Casa Pia, BPP e BPN, Face Oculta ? Como é que este "imenso Portugal" poderia sobreviver sem estes "espectáculos" nas aberturas dos telejornais, agora que os incêndios estão já de abalada para regressarem no verão de 2011 ? Discutir o OE ? Para quê ?

Joaquim Oliveira , Gondomar. | 03/09/10 10:00
Para alguns comentadores afectos ao PS,o Estado Social é a sua tábua de salvação. Será só este Estado que lapida os impostos dos contribuintes? Não. Quem contribui para isso são: Governos Cívis, Fundações aos molhos, Institutos desnecessários e toda a clientela política.
Este Estado gastador, carregado de Ministros, Secretários, Subsecretários, Acessores e outros que tais. Para que serve tanta gente...
Não se agarrem só ao Estado Social!!!
Tantos Deputados para quê? Não. Assim não vamos lá. Ponham este Desgoverno na rua e colocam em lugares cimeiros as pessoas mais competentes. O Senhor Presidente da República já devia ter cumprido esse desígnio nacional. Por muito menos, o seu antecessor demitiu um Governo.

publicado por ooraculo às 17:44
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