Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

O declínio da Europa


Atribuamos ao PIB mundial o valor de 100, números de 2009. Este produto divide-se em dois grandes grupos: o das economias avançadas, com 54, e o das economias emergentes, com 46. Mas as primeiras estão a crescer a um ritmo de 2-3% ao ano, ao passo que o ritmo anual das segundas é de 6-8%. Se esta tendência se mantiver, dentro de duas décadas a relação será de 33 para 67, favorável às emergentes. Já pensaram no que isto significa?

 

Recentemente, citando números do FMI, a Imprensa fez-se eco de que a China substituíra o Japão no ‘ranking' das maiores economias do mundo, ocupando o segundo lugar logo a seguir aos EUA. O que se passou foi de facto impressionante: em apenas 15 anos, com o Japão estagnado e a China a crescer em espiral, a relação entre ambos passou de 1:7 para 1:1. Mas atenção! O Japão tem 1/10 da população da China, pelo que o seu rendimento ‘per capita' é 10 vezes superior.

 

Sucede que o confronto foi feito usando as taxas de câmbio, o que não me parece bem. Teria sido mais correcto utilizar as paridades de poder de compra (PPC). Tome-se o caso português: numa comparação em euros, o nosso rendimento ‘per capita' é igual a 58% da média europeia; mas, se nos compararmos em PPC, este número sobe para 72%. Os preços dos nossos produtos são mais baixos. Pois bem, utilizando as PPC, a economia chinesa já hoje vale mais de duas vezes a do Japão.

 

No grupo das economias mais ricas sobressaem três blocos, que respondem por 78% do total: os EUA, a Zona euro e o Japão. Analisados em conjunto, e continuando a privilegiar as PPC, o que se passa não augura nada de bom: todos os blocos estão a perder terreno; o rendimento ‘per capita' da Zona euro vale apenas 74% do dos Estados Unidos; e, a julgar pelas actuais projecções, a Zona euro vai continuar a ficar para trás. A Europa é uma sociedade decadente. Convenhamos que é uma situação preocupante. As economias avançadas pararam no tempo e só as emergentes ainda conseguem progredir. Dentro das avançadas, a Europa é hoje o patinho feio. E o poderio económico está a desviar-se perigosamente para Leste. Receio o pior: mais década menos década, o mais provável é que a Europa venha a ser "comprada" pela China.

 

Que virá a seguir?

 


ECONOMIA MUNDIAL

 Retoma à vista...

 

(PIB, variação em %)

 

 ...mas diferenciada 

 

(PIB, variação em %)

 

 

 

Depois do colapso de 2009, a economia mundial parece encaminhar-se para uma velocidade de cruzeiro. Mas os contributos são muito diferenciados, com os países emergentes a confirmarem o predomínio que já vinha de trás. Dentro das economias mais avançadas, os Estados Unidos parecem ganhar terreno, enquanto o Japão marca passo e a Zona euro se afunda irremediavelmente. A Europa envelheceu...

 

Fonte: FMI, World Economic Outlook.
____

d.amaral@netcabo.pt

 

Comentários

 

ef , | 10/09/10 22:09
Que virá a seguir? Armagedon..., não sabe o que é, consulte o ultimo capitulo da Biblia, Revelação, estão lá as promessas de Deus para a humanidade, e vão-nos ser oferecidas em jeito de pragas..ai...ai..ai....

Norberto de Serpa , | 10/09/10 16:12
Pois é Jorge Guimarães. Se os custos da Segurança Social passassem em parte da produção (trabalho) para o consumo, já as importações estariam a custear a Seg. Social equilibrando o custo da produção dos países como a China e a Índia e o Ocidente.

Jorge Guimarães , Porto | 10/09/10 15:27
É diferente de proteccionismo. É repor justiça, é garantir que direitos que o Ocidente considera fundamentais são respeitados. Senão vejamos o Ocidente não permite que determinados produtos sejam produzidos em determinadas circunstâncias no seu território, mas permite (ao comprar) que se produzam esses mesmos produtos em condições deploráveis para seu próprio consumo noutros territórios. É incoerente, e essa incoerência, está e vai custar caro aos europeus e norte-americanos. Está a custar postos de trabalho, está a custar qualidade de vida, está a obrigá-los a trabalhar mais tempo para sustentar o sistema de SSocial, sim porque os subsídios de desemprego consomem recursos que poderiam ser utilizados de outra forma... Em suma, ou a Europa acorda, e faz como a Alemanha (sim eles não são os maus da fita - até parece se virmos as críticas de que são alvo-, eles têm excedentes comerciais, eles produzem muito lá e são mais poupados que os outros europeus), ou o futuro será, no mínimo, cinzento.
Jorge Guimarães , Porto | 10/09/10 15:05
Eu não defendo o proteccionismo. Acho extremamente positivo a liberalização do comércio mundial (permitiu aumentar a prosperidade de muitos países). O que eu acho é que tem de haver um equilíbrio, tem de haver regras iguais para todos. Que país pode competir com a China e com a Índia (este é um caso diferente, e será a Índia a potência do futuro, não a China), em termos de custo de mão-de-obra? A resposta é todos, desde que sejam aplicadas regras idênticas à escala mundial. Na Europa o Estado Social exige uma série de regalias para os trabalhadores, Segurança Social, medidas de segurança apertadas (em minas, por exemplo), salário mínimo, etc...A Oriente que regras há? Isto distorce o mercado. O Ocidente não pode exigir que eles alterem a sua política social, mas pode sim, introduzir mecanismos de ajustamento, taxas sobre as importações que permitiriam compensar em parte essa diferença ao nível dos custos do trabalho. (Continua)

Jorge Guimarães , Porto | 10/09/10 14:49
Bom artigo. Não apresenta nenhuma novidade, mas antes uma descrição e análise da realidade económica a nível mundial. Há muito tempo que acho não é possível ter uma economia saudável e próspera sem um forte e desenvolvido sector secundário (industrial). E é precisamente a uma desindustrialização das economias ocidentais que temos vindo a assistir nos últimos anos, através da transferência de produção para Oriente. É ilusório pensar que basta ter um sector terciário robusto para um país ser próspero. O Ocidente, muito por culpa dos seus líderes (alguns) acéfalos, tem estado a destruir a riqueza e o poder económico ocidental, a transferir a produção para "a fábrica do mundo": a China. (Continua)

JL , | 10/09/10 11:57
Comprar português! É o que eu tento fazer o mais possível, como forma de apoiar a produção nacional.

JJC , | 10/09/10 11:41
O problema é a desvalorização artificial do yuan, que impede a criação de um mercado interno chinês, continuando a existir um crescimento exclusivamente pelo lado da exportação. Quando a Europa e os EUA acordarem para a vida e disserem à China que o valor da moeda deve ser imposta pelo mercado e não pelo governo, ou então fecha-se a porta aos produtos chineses, isto levará à criação de um poderoso mercado para exportação por parte dos países desenvolvidos e a um equilíbrio da balança.
Até lá, continuarei a comprar português o mais que puder, de forma a minorar o enorme défice da balança comercial portuguesa.

Marianito , Lisboa | 10/09/10 11:30
Só faltou dizer porque é que isto está a acontecer:
1-Os salários baixissimos da China são um fortissimo incentivo à deslocalização das empresas Ocidentais,fenómeno gerador de desemprego no Ocidente e forte delocalização também dos capitais que acompanham as empresas;
2-A imensidão do mercado Chinês a crescer 10% ao ano (partiu de uma base muito baixa);
3-O peso enorme do Estado social Europeu a agravar-se rapidamente com o envelhecimento da população;
4-A consciencia ecológia no Ocidente é muito superior à dos paises emergentes.Aspessoas já pensam 2 vezes antes de consumir sem regra.Temos menor consumo,menor produção,logo mais desemprego;

Norberto de Serpa , | 10/09/10 10:43
É o comércio livre...principalmente entre estes dois grupos com regras (sociais) totalmente opostas.

jorge , | 10/09/10 10:31
Quem acredita em crescimento infinito (não sustentado) ou é tolo, ou economista!!!!

vg , | 10/09/10 10:15
Quem vem de trás tem de andar mais depressa,não?
EN GANADOR , PORTO | 10/09/10 09:21
O "Nacional Porreirismo Europeu" está a contribuir para a "Internacional Definhação Europeia"
Realista , Porto | 10/09/10 09:17
Nada que não se soubesse já. Queria apenas acrescentar duas notas. 1- A China tem problemas enormes pela frente (políticos e sociais, ambientais, etc). Nem tudo se resume à bondade do seu crescimento económico. 2- O que interessa tentar "adivinhar" para o futuro é como vai evoluir a questão ambiental (os limites ao crescimento estão aí ao virar da esquina) e a questão demográfica (fome, migrações, etc). O mundo não está parado e o futuro não é uma simples projecção (económica) do presente.

lucklucky , | 10/09/10 08:40
Curioso este texto... a Esquerda do Sr.Daniel Amaral destruiu a Europa.
-Ao favorecer preços falsos na maior parte da economia deu incentivos errados e informações erradas às pessoas e consequentemente ás suas decisões.
-Ao favorecer o facilitismo, fait divers e ignorância na Escola ao contrário da intolerância e discriminação e recusando a Liberdade na educação com a incompetência destruiu centenas de milhares de crianças com capacidade.

O sr.Bruno não percebeu que sem a Banca não há Estado Social. Só com o Mercado em alto aquecimento é possível pagar ao Estado que gasta cada vez mais.

Lapis Azul , | 10/09/10 07:49

É urgente a educação económica do consumidor europeu. A partir da escola.

É necessário que todos saibamos as implicações da compra de um produto que não seja produzido na União Europeia para os cidadãos que fazem parte da mesma.

Enquanto isso não acontecer estamos a caminhar alegremente para o matadouro.
publicado por ooraculo às 08:16
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