Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Diálogo de surdos

 

Já tínhamos um crescimento modesto, um desemprego funesto e uma dívida explosiva. E ainda ninguém sabe como vamos descalçar a bota do orçamento. Chegou a vez dos salários, que também teremos de gerir com pinças. Tese dos sindicatos: se atendermos a inflações e produtividades, mais uns pozinhos de melhoria na distribuição, há condições para "exigir" uma melhoria do poder de compra. É uma tese bonita. E como reage a economia?

Comecemos com o óbvio. Se pegarmos nos países da zona euro e medirmos o seu rendimento ‘per capita', já corrigido da paridade de poder de compra, concluímos que o nosso (72% da média) é dos mais baixos do grupo. Mas se, em vez disso, medirmos o peso dos salários no PIB, a parte que nos toca (52%) sobe para o topo da lista, logo atrás da França e da Eslovénia. Estes números, de cariz antagónico, fazem das negociações salariais um problema sem solução.

Nenhum mal viria ao mundo se as dotações para investimento e consumo fossem as mais adequadas e não excedessem o valor do produto. Não é o caso. No nosso modelo, investimos de menos e consumimos de mais e, por cada 100 unidades produzidas, habituámo-nos a gastar 110: os 10 a mais traduzem a diferença entre importações e exportações, estão expressos em dívida externa e ameaçam levar-nos à asfixia. Sempre foi assim.

Para entender que o modelo é insustentável basta-nos um mínimo de bom-senso. A ruptura é inevitável e só pode ocorrer de uma de duas maneiras: a bem ou a mal. A bem significa que seremos nós a escolher o caminho, por mais doloroso que ele seja. A mal significa que deixaremos tudo nas mãos dos credores, para que sejam eles a decidir o momento em que a festa acabou. Ponto em comum: o ajustamento vai fazer-se a um nível salarial mais baixo.

Como economista sensível ao problema, gostaria que fossem os negociadores envolvidos a procurar o equilíbrio. Como cidadão que sabe o país em que vive, há muito que deixei de ter ilusões. Este é um diálogo de surdos, que só pode terminar como terminaram todos os outros: os trabalhadores com mais salários, o país com mais dívidas. Todos fingimos não perceber que uma coisa é aquilo de que necessitamos e outra é aquilo que a economia nos pode dar.

A luta continua.

 

O ESTADO DA NAÇÃO

 Salários excessivos...

 

(Salários/PIB (%))

 ...endividamento louco

 

(Balança corrente, % do PIB)

   

 

A nossa parcela do PIB afecta a salários é das mais altas da zona euro, sendo superada apenas pela França e pela Eslovénia. As consequências são duas, ambas más: dificultam as exportações e facilitam as importações. Os reflexos são notórios na balança com o exterior, cujos défices, da ordem dos 10% do PIB, estão a minar a nossa credibilidade e a tornar o país ingerível. Ou arrepiamos caminho ou alguém o fará por nós...

 

Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


 

Comentários


SG , | 24/09/10 12:29
Sou a favor dos salários baixarem ,nomeadamente os dos gestores publicos, politicos e daqueles q nada produzem e os acima de 5.000,00, ja´viram os valores dos vencimentos dos empregados da RTP, e sempre a acumular prejuizos, isso no provado era falência e desemprego com esses gajos .... PRIVATIZAR JÁ A RTP, ela n é mt diferente dos particulares a n ser a dar protagonismo ao governo e a pedofilios......

EN GANADOR , PORTO | 24/09/10 11:23
Só existe uma verba nos gastos do Estado, onde se pode "poupar" uns milhões de euros muito largos e onde não trás "grande mal ao mundo", que são as reformas acima de € 5.000!!! CORTE-SE JÁ COM ELAS!
Existem muitas outras coisas onde cortar, mas se se fizesse isto, já seria um enorme passo.

vg , | 24/09/10 10:38
A conveniencia "xuxa".Andaram centenas de milhares nas ruas de França,por causa da passagem da reforma de 60 par 62 anos,que parece lógica.Vêm estes economistas .ignorantes de História,pedir que os sindicatos resolvam os assuntos,que são competencia dos politicos.

kano , | 24/09/10 10:16
Se o espertalhaço do tuga cag@o armado em rico, em vez de torrar o dinheiro em parvoices para ver se aparece na fotografia melhor que o vizinho, poupasse mais... consumam menos lixo, em especial bens e serviços importados: mantenham o dinheiro dentro do pais o mais possível, mantenham abertas as fábricas e os negócios e os empregos que ainda temos, deixem-se de loucuras e mania das grandezas. Se não aprenderam a fazer contas na escola, nunca é tarde para o fazerem.

antonio , lisboa | 24/09/10 09:57
Grandes artistas, a culpa é sempre dos salarios dos trabalhadores e cada vez ganham menos. Mas as grandes importações não acontecem porque o que consomem os trabalhadores não lhes dá para comprar muitas coisas importadas. Quanto menos receberem menos podem gastar, quanto menos gastarem mais sofre a economia, mais desemprego, mais falencias, etc, etc. Sabem as teorias economicas e de gestão são mais faliveis que as de qualquer astrologo rasca.

Norberto de Serpa , | 24/09/10 09:14
O Senhor já anda há muitos anos pelo jornalismo e recorda-se que em 1985 a bandeira para a adesão à CEE era que ao fim de uma década teríamos vencimentos como os alemães. Passados 25 anos e da entrada de muito dinheiro, as mesmas pessoas, embora mais gordas, advogam que os mediocres salários portugueses têm que baixar. Por isso é que na capital do Reino, cada vez mais, não se ouve falar um português correcto, pois uma grande parte da nossa população já navegou para outros destinos mais honestos, pessoas que o país andou a investir em educação.
Realista , Porto | 24/09/10 09:07
O "fado" que o autor canta, o nosso fado, tambem tem solução. Tudo tem solução. A solução neste caso chama-se FMI. Para os comentadores <Zé do Boné> e <Jose Romeiro>. Ambos têm razão. E tambem tinham razão se apontassem como causa o clima, a nossa raiz latina, etc., etc. Mas agora não podemos fugir da verdade (e da solução): OS SALÁRIOS EXCEDEM O QUE PRODUZIMOS. E OU PRODUZIMOS MAIS (O QUE ME PARECE DIFICIL A CURTO PRAZO) OU ACEITAMOS GANHAR MENOS.

Zé do Boné , | 24/09/10 07:26

Exmo Sr Daniel Amaral (Peço desculpa por não o tratar por colega, mas não leve a mal)

E se o problema é dos salários, porque não analisar o peso dos "grandes salários" nas empresas públicas e privadas e começar por aí?

Ah! Esqueci-me pois se o fizerem os nossos "grandes cerebros vão todos para o estrangeiro"?

E já agora, e os beneficios extra ? Telefones pagos, cartões de crédito, automoveis (sem rede atrás, e a dizerm BMW's,Mercedes, etc, etc), estão a ser taxados?

Ah! Esqueci-me pois se o fizerem os nossos "grandes cerebros vão todos para o estrangeiro"?

Já percebi, o problema está no "ordenado minimo", pois concerteza...!

LOPES CARLOS , Bruxelas | 24/09/10 06:25
1. Como sempre , um bom artigo que suscita a reflexão .
2. Depois de uma década perdida com um crescimento médio anual de 0,7 do PIB JÁ COMPROVADO , Portugal vai enfrentar uma década com um crescimento médio anual potencial de 0,7 °/° PREVISTO. Acresce uma brutal DIVIDA EXTERNA BRUTA ( o dobro da divida externa grega) e aguardam-se os brutais impactos das PPPs nas nossas contas.
3. O ajustamento vai ser feito via DESEMPREGO, dado não haver condições para aumentos de produtividade e competitividade. Todos sabem isto desde Fevereiro de 2006 . Daqui a alguns anos ( 2017) ainda teremos um desemprego de cerca de 8°/° ( OCDE). É esse o caminho que queremos ?
4. O Pais está farto de tacticismos serôdios. Importa tomar as decisões que dêm alguma Esperança ao País . Basta de gastadeiras sem retorno ! Vejam a nossa NATALIDADE e percebem !

publicado por ooraculo às 18:11
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