Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

O FMI encapotado

 

A 19 de Fevereiro deste ano, ao olhar para o buraco das contas públicas, suscitei nesta coluna a hipótese de uma eventual saída do euro: ser-nos-ia vantajosa? Levaria à intervenção do FMI? A situação piorou entretanto, abrindo um buraco ainda maior. E os holofotes desviaram-se para a possibilidade desta intervenção. As perguntas terão de ser reformuladas: precisamos mesmo do FMI? E isso implica abandonar o euro?

Admitamos a intervenção e o abandono. A receita do FMI é conhecida: desvalorização brutal da moeda, para corrigir o défice externo; subida generalizada dos preços, pelo encarecimento das importações; e recurso sistemático à ilusão monetária, ao admitir aumentos de salários que de facto significam degradação do poder de compra. Foi assim nas duas vezes que cá esteve; continua a ser assim nos locais por onde passa.

Num cenário de permanência no euro, o problema é mais complexo, porque desaparece a muleta da desvalorização. Precisamos de alternativas com efeitos equivalentes. Admito que, neste caso, os alvos privilegiados sejam as finanças públicas: redução de salários e de pensões; aumento de impostos; cortes impiedosos em tudo o que sejam acções sociais. A consolidação será um pouco mais longa, mas nem por isso deixará de ser eficaz.

Agora a questão de fundo: precisamos mesmo da intervenção do FMI? Claro que não. Eles não viriam ensinar-nos nada que nós já não soubéssemos. E, pressupondo que seremos rigorosos e determinados, podemos fazer exactamente o mesmo que eles fariam e com os mesmos resultados em termos de credibilidade internacional. Mas talvez a pergunta deva ser colocada noutros termos: há condições políticas para que isso aconteça?

Uma primeira resposta chegou-nos na quarta-feira à noite, à hora dos telejornais. Aquela era a receita do FMI, que falava pela boca de Sócrates. Mas ainda há posições em aberto que não serão fáceis de gerir: nas mãos do PSD ficaram a sorte do orçamento e a queda ou não do Governo; dos sindicatos dependem as greves e um eventual caos social. Seja como for, não creio que haja espaço para muito mais discussões: o modelo deverá ser este, seja a bem ou a mal. Espero que seja a bem e que deixemos o FMI em paz.

O país está cansado.

 

d.amaral@netcabo.pt


Comentários

anibal barca , | 01/10/10 18:36
Não contemos com a redução dos empréstimos dos juros da dívida. Quem os mercados (dito de uma forma suave) estão a atacar é o euro porque sabem que receberão o dinheiro de volta. Assim como assim sempre é melhor receber 6 e tal por cento o ano. Estes são garantidos. Porquê não ganhar tanto, se o podem fazer?

EN GANADOR , PORTO | 01/10/10 15:53
Caro Daniel Amaral,
Diga-me por favor: Alguma vez, após o 25 de Abril, algum governo fez o que tinha de fazer sem uma pistola apontada à cabeça?
Nós, os espertos dos portugueses, temos uma regra: - Só nos levantamos após nos estatelarmos ao comprido antes. Primeiro gostamos de sentir as agruras do chão de pedra, para de seguida termos o prazer da subida - Mas custa vidas, suor e lágrimas; não é agradável.
Perante a repetida história portuguesa, só posso chegar a uma conclusão: O Povo português É MASOQUISTA!

Prestação de serviço , | 01/10/10 15:50
A prestação de serviços para o estado aumentou exponencialmente nos 2 últimos anos. Técnicos de empresas prestadoras de serviço que custam 4000 € por mês e nem percebem de administração pública. Contratos individuais de trabalho a 3000€ por mês ou mais. Aí está a despesa adicional que ninguém esperava...

Os institutos públicos são um absorvedor e de despesismo de recursos e não são controlados por ninguém.

Bastam umas quantas auditorias a uns quantos institutos públicos (alguns apelidados de agências) para descobrir o descalabro de gestão que é feita por aqueles lados.

O tribunal de contas não funciona....

joao maissete , | 01/10/10 12:13
Apos o orçameto lá iremos à famosa revisão constitucional, com o objectivo de continuar a reduzir despesa.
Poder-se-á começar com a redução do nº de deputados para 120

alberto , lisboa | 01/10/10 11:41
O caminho é este, mas a estrada ainda não está bem pavimentada. Nada se diz sobre o enorme desperdício sob a forma de empresas, fundações e institutos que consomem milhões de euros e para pouco ou nada servem, nem há medidas tendentes a melhorar a competitividade das nossas exportações ( baixar a taxa social única da parte patronal, p.ex. ). O governo não é transparente, logo não é democrático e julgo que o PM devia ter a honradez de sair e abrir lugar à sua substituição por outro nome do PS.

Guedes , Porto | 01/10/10 11:01
Concordo quando diz que o FMI não nos vem ensinar nada que nós já não sabemos e desse ponto de vista não precisamos que venha.
Contudo ressalvou o mais importante quando diz "...pressupondo que seremos rigorosos e determinados...". Este é que é o segredo e foi o que este governo não conseguiu fazer

Realista , Porto | 01/10/10 09:32
Estas medidas eram necessarias e já deviam ter sido tomadas ha mais tempo. Esperemos que o OE venha a ser aprovado e reduza o ritmo de endividamento e acalme os tais "mercados". Mas os grandes problemas da nossa economia continuam sem solução e não serão resolvidos (antes pelo contrario) com estas medidas. Refiro-me ao défice comercial (export-import) e à falta de crescimento económico. Por isso a mim parece-me que hoje é ainda mais necessario que no passado o investimento público. Não o investimento directo pelo Estado, o que agravaria ainda mais o défice e a dívida, mas através de ppp ou concessões a privados. A vizinha Espanha prepara um OE para 2011 onde prevê um corte nas despesas do estado de 8%, mas (ah grandes e sabios espanhois) com um corte de apenas 20% nos grandes projectos de investimento. Lá os TGV, as estradas e os portos vão continuar, embora a um ritmo mais lento. E ninguem contesta (ao contrario de cá) o investimento em infraestruturas.
O Corpo docente , | 01/10/10 08:58
Da sua cr nica passo a citar:

"Agora a questão de fundo: precisamos mesmo da intervenção do FMI? Claro que não. Eles não viriam ensinar-nos nada que nós já não soubéssemos."

É que amentavelmente as nossas faculdades ensinam muito a vantagem do corporativismo balofo, eesquecem-se de explicar mais vezes, o que è o longo prazo em economia, e como a ètica ainda nao è cadeira obrigatòria, o resultado è este.
Goncalo Veiga , | 01/10/10 08:18
Precisamos do FMI, sim! Precisamos não porque venham fazer nada que não saibamos, mas sim porque não o sabemos aplicar. Porque somos ingovernáveis.
Porque ou este governo vai recuar em algumas das medidas, com medo das eleições, ou o próximo vai retirar outras para dizer que ele é que são bons!
É tudo feito da mesma massa! Infelizmente a classe politica portuguesa está podre! O qe interessa não é o bem da Nação, mas o bem deles e dos que estão à sua volta...
Já dizia Julio César: "Há nos confins da Europa um povo que não se governa nem se deixa governar..."
publicado por ooraculo às 18:42
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