Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

O massacre

Peguei no OE-2010, juntei-lhe os PEC e submeti-me a uma tarefa arriscadíssima: tentar perceber o que está por trás destas publicações. Para reduzir um ponto e chegar ao défice de 7,3% do PIB em 2010, precisávamos de €1,7 mil milhões; com o PEC I, avalizado pelo PSD, o Governo propôs-se cortar 1,16 pontos, o que dá €1,9 mil milhões. Se já havia este excedente, por que raio tivemos de recorrer ao fundo de pensões da PT? Por causa dos submarinos? Ignorávamos que existiam?

O caso de 2011 é pior. Para reduzir dois pontos e atingir um défice de 4,6% do PIB, seriam necessários €3,4 mil milhões. Mas o PEC II, que o Governo publicou a 02 de Julho, refere uma poupança de 3,95 pontos. Descontada a presumível acumulação, ainda assim chegamos a €4,8 mil milhões, muito acima do necessário. Porquê? O que é que estavam a esconder-nos? E por que motivo o "pacotão" de 29 de Setembro ainda vai além deste valor?

Sejam quais forem as respostas, aquela opção altera tudo, porque as quedas brutais no consumo e no investimento vão provocar uma recessão em 2011. Foi então que eu percebi. A parte escondida era esta: os dois submarinos, o primeiro dos quais a senhora Merkel mandou afectar a 2010; a nova recessão, que o Governo preferiu não assumir; e as parcerias público-privadas, prestes a sair da incubadora. A folga é bem capaz de não chegar.

Mas o problema não acaba aqui. Admitamos que, em 2012 e 2013, o PIB vai decrescer em volume o que subir em preço, mantendo-se nominalmente idêntico ao de 2011. Para atingirmos os défices de 3% e 2% do PIB previstos, precisamos de mais €4,4 mil milhões. E o esforço de consolidação terá de ser ainda maior do que os anteriores. Que fazer? Vendemos os submarinos? Absorvemos mais fundos? Passamos a protectorado espanhol?

Até agora só falámos de défices. Mas há também uma dívida para gerir. No final de 2013, ela deverá rondar os 85% do PIB, €150 mil milhões, uma tragédia só em juros. Seria prudente ir alertando as pessoas para a inevitabilidade de mais PEC - os que forem necessários para trazer aquela dívida até aos 60%. O que nos espera tem um nome: massacre. Não me surpreenderia se, findo o processo, o país tivesse recuado 20 anos. Nos gastos e no resto...

Este modelo faliu.

 

A HORA DA VERDADE

 

 Controlo do défice...

 (% do PIB)

 ...provoca recessão

(PIB, 2007=100)

   

 

*Valores inscritos no PEC.

 

Com um esforço incomensurável dos Portugueses, o défice talvez venha a estar controlado no final de 2013. Mas não a dívida, que nessa altura representará cerca de 85% do PIB, €150 mil milhões, uma loucura. A austeridade vai ter de prosseguir. Acresce que, com o país em recessão em 2011, as projecções constantes do PEC deixaram de ser exequíveis, obrigando a um esforço ainda maior. Vêm aí anos muito difíceis...

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal.

____


Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

1 | 2 | »»

JTPacheco , | 15/10/10 17:04
Inteiramente de acordo, mas nada disto é novo. Onde estavam todas estas vozes que, durante anos deixaram que o discurso oficial continuasse a prometer o céu, ocultando este inferno com sucessivas mentiras.
Porque é que nenhum se preocupou em fazer o levantamento do impacto das PPP ou em juntar a sua voz aos que, oportunamente, tentaram alertar o país para a trajectória que levávamos e para final inevitável que se seguiria.

EN GANADOR , PORTO | 15/10/10 15:13
Caro Daniel Amaral,
Quando uma idéia é repetida milhares de vezes, já ninguém questiona outro modo de pensar!
A chave da questão é extremamente simples e extremamente dolorosa! Chama-se SUPERAVIT!!!!
Só quando o Estado português DER LUCRO é que as coisa vão andar prá frente. Até lá, resta-nos esperar ou por uma morte lenta ou morte rápida!
Na minha ideia, se tivermos de morrer - que seja rápido! Ao menos a possível reencarnação também o será.
Agora, fazer o necessário para isto acontecer, vai ser preciso o EXÉRCITO NA RUA!

rui olival , lisboa | 15/10/10 15:07
A coisa esta mesmo preta! Estamos no fundo e qualquer que seja a receita vai mesmo doer.
Nao seria uma boa medida comparticipar anti-depressivos e analgesicos a 100% e descomparticipar todos os demais farmacos do SNS?

antonio , Lisboa | 15/10/10 14:59
Tem toda a razão, este modelo finou-se. Não tem a ver com o modelo neo-liberal, liberal ou social, foi a ganancia que este modelo sempre defendeu que levou a isto, em todo o lado. A entrada na UE veio ajudar á situação actual, mas se calhar na altura não tinhamos outras hipoteses. Quando foi para entrar na UE prometeram-nos que dentro de pouco tempo viveriamos como europeus...mentira. O que aconteceu foi que os paises fortes da UE para continuarem a manter as suas industrias enviaram para cá milhões e deram hipoteses de se comprar ceifeiras, tractores, bastava ter um quintal, e a seguir começaram a pagar para não se produzir. Mais, com as pescas pagaram para se abater os barcos e hoje temos de importar o peixe para podermos comer. Ou seja deram dinheiro para manter as suas industrias e torna-las donas dos mercados. Agora que o sistema se afundou resolveram multar os paises que ultrapassarem o defice, quer dizer quando o doente esta moribundo os amigos da CEE ajudam a matá-lo. Trocam submarinos por manter fabricas de carros, emprestam dinheiro para a compra dos submarinos, para manter os seus postos de trabalho e depois emprestam dinheiro a 6% para lhes pagar. Mais, a propria sociedade mudou e os paises europeus e os EUA transferiram para Oriente tudo o que é produção e agarraram o sector terciario como futuro (especulação, bolsa, papeis...), azar, foi por aí que a crise estoirou. E agora...agora, temos uns quantos economistas a tentar descobrir mas é melhor visitarem um astrologo (aconselho professor Mamadu) para saberem o futuro. Cada um puxa para seu lado e sou sincero, estava muito triste com o caminho que a economia levava, mas hoje não aceito a especulação nem o comportamento dos especuladores, banqueiros, politicos e outros, que são os grandes responsaveis pela situação actual.

Avervamos , | 15/10/10 14:09
Há sempre solução, por exemplo:
1- Vende-se a Madeira à Alemanha ou
2- Vende-se os Açores aos USA ou
3- Vende-se as Selvagens a ESpanha
4- Vende-se 100 milhas marítimas
5 - Vende-se o o ouro do BP

ou descobre-se petr´leo na Costa

Superavit em Portugal é uma Utopia. Nunca houve, excepto quando da descoberta do Brasil, e não vai ser agora. Ou temos perdão da divida ou tem de se abater por processos extraordinários. E não se fiem em crescimento, porque esse nem nos próximos 10 anos!!!

Vitor Mateus , Cacém | 15/10/10 12:18
Jovens de Portugal com formação e capacidade EMIGREM!

ppp , | 15/10/10 12:17
A verdade do País é aquela que é referida neste artigo, nua e crua.
Temos que atacar o défice, depois teremos que atacar a divida, o que implica superavit´s. Tudo isto enquanto a despesa do Estado "aguarda" a entrada em força das PPP´s, enquanto os juros da divida sobem. Os juros do BCE só poderão subir, enquanto o crescimento é nulo. Os portugueses vão ser esmifrados até ao tutano, durante gerações.
Quando se fizer a história deste período o Sócrates e companhia irão ficar muito mal no retrato. Mas pior ficam os portugueses na sua vida quotidiana.

C. Vieira , Boston, USA | 15/10/10 11:50
Obrigado por nos dar a realidade. Anos de excesso e ma gerencia deixaram o pais nesta situacao.

A. Cardoso , lisboa | 15/10/10 10:03
Obrigado Daniel Amara por este seu artigo. Não vem mais do que confirmar que as medidas tomadas por este (des) governo têm sido erradas. É fácil governar, aumentando os impostos e manter (e aumentar) as despesas. Na situação actual, a que José Sócrates e o PS nos colocou ao fim de cinco anos de governação, haverá que aumentar as receitas, mas fundamentalmente HÁ QUE DIMINUIR AS DESPESAS. O governo, qualquer que ele seja, tem que cortar mesmo as "pequenas" despesas porque "migalhas é pão". Carros, cartões de crédito, combustíveis, assessores, salários de 10 a 20 vezes o ordenado mínimo nacional, são imoralidades. Qual o perigo de o orçamento não passar? FMI? Pior não será. Com as actuais perspectivas de orçamento, o consumo vai diminuir acentuadamente, logo as empresas vendem menos, logo mais desemprego, logo menos contribuições e impostos cobrados. O PSD que seja firme na discussão do orçamento na AR e force e diminuição acentuada das despesas.

Realista , Porto | 15/10/10 09:59
Os meus comentarios aos artigos deste autor costumam ser censurados, não sei porquê. Desta vez (pelo sim pelo não) vou alongar-me um bocado mais. 1- O que justifica o PECIII? Os submarinos, as cedencias a professores, polícias, etc, o descontrole no SNS (ai os médicos!), etc. Mas a principal explicação reside na especulação dos tais mercados sobre a dívida e na pressão da Alemanha. 2- Como digo (tento dizer) noutro comentario a historia de Portugal é uma sucessão de crises financeiras e Portugal sempre sobreviveu. 3- O autor tem da economia uma ideia de quase ciencia exacta e não é. Os economistas têm falhado estrondosamente as suas previsões. A Irlanda e a Espanha eram ha 2 anos dois casos de sucesso. Hoje estão na fossa como nós. 4- Nós temos de facto crise (problemas estruturais) internos. Sempre tivemos, não é de agora. Mas o grande problema é a crise internacional. E quando se fala de crise internacional deve ter-se em conta em primeiro lugar o deslocamento de grande parte da actividade económica do Ocidente para o Oriente. Possivelmente o desemprego nunca mais vai voltar aos níveis de ha 10 anos atrás. 5- A solução dos nossos problemas não depende só de nós. A Europa tem cometido erros terríveis e está a perder terreno. Eu não compreendo, por exemplo, que o BCE empreste aos bancos a 1% e se recuse a emprestar aos estados, Com taxas de juro de mais de 6% como querem que os paises recuperem? Com um Euiro sobreavaliado (passou em poucos anos de 0,8 para 1,4 do dolar) como querem que os paises da zona euro recuperem? Os alemães querem libertar-se do Euro. Hoje estou convencido que restam poucos anos ao Euro.

JJC , | 15/10/10 09:55
Anos muito difíceis só para alguns...............

Para quem não sabe, o Marques Mendes informou na TVI24, que em 2009, os gestores das empresas públicas portuguesas foram aumentados de forma brutal...os aumentos rondaram os 30% e os 100%!!!Pessoas que recebiam 5000 euros passaram a receber 7000 euros mais 35% de despesas de representação. E para quem pensa que essas empresas foram melhor geridas posteriormente, desengane-se...os prejuízos em 2009 foram ainda maiores nessas empresas.
O senhor Marques Mendes, depois deu mais uma informação relevante que já todos sabiam...as empresas públicas foram inventadas para pagarem mais aos "boys" para fazerem o mesmo trabalho que faz a Administração do Estado...duplicação de serviços serve apenas para alimentar a máquina partidária e para encher o bolso dos amigos do peito do ZéZé.

Agora digam-me...qual é a motivação que tem o povo português de trabalhar mais e melhor, quando temos estes FDP a roubar-nos à força toda? Qual é a motivação para produzir mais e melhor, quando mais vale ter um cartão partidário e fazer amizades com bestas como os políticos que nos governam? Qual é a motivação de lutar pelo nosso país, se uns comem o miolo e os outros ficam com as côdeas?

Alguém que me informe, por favor, se o que se está a fazer a Portugal não é crime...

XXX.tvi24.iol.pt/politica/ultimas-tvi24-salarios-aumentos-marques-mendes/1199222-4072.html

Substituir o XXX por www.

gama , | 15/10/10 09:49
Para Joao
Meteram-vos no meio de montanhas de telemóveis, play stations, brinquedos chineses, carros topo de gama.
Voces não tem muita culpa
Vejo pelos meus netos e o panorama à volta não deve ser diferente

Mário Dias , | 15/10/10 09:17
O fundo de pensões da PT é para a judar a CGD no buraco BPN.
Ao <João>. Não tem que pedir responsabilidades à geração dos seus pais e muito menos dos avós, mas sim, à geração que anda por aí e que se encontra ao seu lado.

LOPES CARLOS , Bruxelas | 15/10/10 08:19
1. Mais um artigo honesto, rigoroso e lúcido dum Autor sério e independente.
2. Desde 2006 TODOS sabiam o que aí vinha. O modelo tinha atingido todos os seus limites.
3. Quando então alguns timidamente explicaram que era necessário proceder a uma mudança da nossa vida colectiva com redução do nosso artificial e excessivo nivel de vida, logo apareceram as criticas de "pessimistas", "Velhos do Restelo" ,etc, lançadas por aqueles que objectivamente beneficiavam com a situação.
4. Agora, apesar dos desmentidos dos do costume, vamos atravessar um longo periodo de redução dos rendimentos nacionais disponiveis com desemprego estrutural de longa duração. E, como se previa, lá virá a tal redução do nivel de vida acentuada do nivel de vida. Aqueles que sonharam implantar em Portugal um sistema dual à brasileira ganharam. Com que custos.
5. Os défices crónicos e a pesada divida externa bruta ( o dobro da grega) , que quase todos escamotearam ou desvalorizaram , vai estar uma ou duas Legislaturas na ordem do dia. Hoje, já se pode prever com algum rigor com se vai chegar a 2017 a nivel do PIB e do desemprego de longa duração. Os Portugueses mereciam isto ?

lucklucky , | 15/10/10 07:08
Portugal é um País corrompido pelo Social.
publicado por ooraculo às 17:54
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